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Pela revogação da reforma trabalhista | Revogação das reformas passa longe dos objetivos de Lula, que prioriza diálogo com golpistas

O objetivo de Lula em dialogar com os "90% da classe política [que] votou no impeachment de Dilma" enquanto não defende a revogação da reforma trabalhista e nem de nenhuma reforma e ataques anti-operários, demonstra o quanto Lula e o PT continuam seguindo a estratégia de conciliação de classes que fortaleceu setores reacionários, estes que defenderam o golpe institucional e abriram espaço para Bolsonaro e a extrema direita e para todo o cenário de uma crise que é despejada nas costas dos trabalhadores e dos setores mais oprimidos da sociedade.

Juliane SantosEstudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

sexta-feira 18 de fevereiro | Edição do dia

Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) buscou justificar nesta terça-feira (15) a aproximação que ele e seu partido realizam com setores que apoiaram o golpe institucional no país, que retirou a então presidente Dilma Rousseff da presidência, dizendo que caso ele não abrisse diálogo com esses setores golpistas ele ficaria "paralisado diante da política". "Se for só conversar com quem não gostou no impeachment de Dilma, você não tem com quem conversar, porque 90% da classe política votou no impeachment de Dilma. Então se eu ficar pensando só nisso, estou paralisado diante da política", disse Lula.

Desde que Lula voltou para o jogo político das eleições e se lançou candidato, tem buscado articular uma série de conversas, apoios e alianças com setores de direita, favoráveis a inúmeros ataques aos trabalhadores, e também gospistas. Uma importante aliança que busca firmar é com ninguém menos que o ex-tucano Geraldo Alckmin, cotado para ser seu vice. Alckmin é um reconhecido representante da elite reacionária e conservadora paulista, herdeira dos grandes latifundiários escravocratas. Foi governador do estado de São Paulo por cerca de 12 anos, período em que era filiado ao PSDB. Como governador, foi responsável por inúmeros ataques aos trabalhadores e a população, em especial aos professores e a educação, demitindo milhares de professores contratados, tentando privatizar escolas, aplicando a reorganização escolar que foi precursora da reforma do ensino médio, e não esquecemos da famosa máfia da merenda que ocorreu em seu governo. A polícia paulista, umas das polícias mais assassinas do Brasil, também foi responsável pela violenta desocupação de Pinheirinho durante o governo de Alckmin, que deixou ao menos 6 mil pessoas sem moradia para devolver o terreno ao especulador financeiro Naji Nahas. Ele esteve também envolvido em escândalos de corrupção como o propinoduto tucano, que desviou milhões das obras do metrô e da CPTM, chegando até a Lava Jato, onde foi investigado por receber caixa-dois da Odebrecht. Não esquecemos ainda que em 2018, Alckmin comemorou a prisão de Lula pela mesma Lava Jato.

Além disso, Lula se reuniu no dia 31 de janeiro desse ano com o oligarca e golpista Renan Calheiros (MDB-AL) para pedir apoio político, o mesmo que aprovou, enquanto presidente do Senado, o pedido de impeachment contra Dilma em 2016, e que defende a reforma trabalhista, o teto de gastos, a reforma da previdência de Bolsonaro, entre outros ataques, sendo uma velha figura do oligarca e escravocrata MDB.

E a política conciliatória de Lula segue com a busca de diálogos, apoios e alianças com setores reacionários e do centrão, e de partidos burgueses, que se colocam como oposição ao Bolsonaro, mas apoiam todos os ataques anti operários realizados por ele, como é o caso do PSB, partido burguês que sempre atacou os trabalhadores. Já em 2017 Lula dizia perdoar todos os setores que foram a favor do golpe institucional, este que abriu espaço para o avanço da extrema direita, e foi um projeto que tinha como objetivo atacar os trabalhadores e a população pobre, em nome de manter e aumentar a fortuna dos grandes capitalistas nesse período de crise.

O único setor que não vemos ser uma prioridade nas negociações do ex-presidente é a classe trabalhadora, já que o que observa-se é uma busca por um diálogo cada vez maior com esses 90%, como diz o próprio Lula. Lula disse que poderia realizar mudanças na atual reforma trabalhista, usando como exemplo a reforma trabalhista espanhola, porém lá os ataques centrais da reforma se mantiveram. Mesmo com esse discurso moderado houveram sinalizações negativas por parte do capital, o que levou Lula a rapidamente voltar atrás em seu discurso.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT), central sindical dirigida pelo PT e que dirige de forma direta ou indireta mais de 20 milhões de trabalhadores, segue há anos em uma grande passividade, sem organizar a classe trabalhadora contra toda a série de ataques e reformas que ocorreram no país.

"Você negocia com a direita, você negocia com a esquerda, você negocia com o centro, você negocia com católico, e evangélico, com ateu. Ou seja, você negocia com quem tem mandato para poder aprovar as coisas que precisam ser aprovadas”, disse o ex-presidente, em entrevista à CBN em 26 de janeiro.

Essa linha conciliatória já mostrou onde leva, no exemplo dos 13 anos de governo petista, levou ao fortalecimento desses setores reacionários, que foram parte de apoiar o próprio impeachment que tirou o PT do governo, e que a partir daí abriu espaço para o avanço da extrema direita no país e a todos os cortes e precarizações.

Para além disso, diante do difícil cenário de crise econômica, a conjuntura dos anos 2000 em que era possível realizar algum nível de concessões a população por conta do momento econômico favorável (ao mesmo tempo em que os banqueiros angariavam milhões) já não existe mais, ou seja, Lula se eleito estará em um governo que busca conciliar com setores burgueses que a única conciliação que aceitam nesse momento de crise é receber cada vez mais lucros por meio do suor e sangue do trabalhador, estando amarrado em alianças com partidos burgueses, setores de direita e reacionários.

Um político que realmente tivesse interesse em defender os direitos e a vida dos trabalhadores e da população pobre, utilizaria suas forças para ser parte de fomentar a única saída que pode levar a uma melhora de vida: a luta organizada nas ruas, lutando pela revogação de todas as reformas para fazer com que sejam os grandes capitalistas, que fizeram a crise, a pagar por ela. Uma batalha que fosse pela revogação integral da reforma trabalhista, assim como de todas as reformas e privatizações; que defendesse a taxação das grandes fortunas destes milionários que aumentam seus lucros enquanto a população amarga a crise social e sanitária; defenderia o não pagamento da fraudulenta e ilegítima dívida pública, que retira dinheiro da saúde e educação e leva diretamente para os bolsos do capital financeiro nacional e internacional.

Todos essas demandas só seriam possíveis de serem alcançadas a partir da luta e da autoorganização dos trabalhadores, que sente na pele todos os dias os efeitos da crise, da inflação, da falta de estrutura para saúde e educação, e que hoje é assassinada se questiona minimamente seu patrão, como foi o caso do assassinato de Moise, imigrante negro que tentou "negociar" com seu patrão o recebimento de seu próprio salário. Um político que realmente tivesse interesse em defender os direitos dos trabalhadores conquistados por décadas de luta, colocaria os sindicatos que seu partido dirige a serviço de construir uma forte mobilização em cada local de trabalho, assim como as entidades estudantis em cada local de estudo, para que fosse arrancado com a nossa força de luta - a única linguagem que os grandes capitalistas entendem - todas as nossas demandas, como a legalização do aborto e o direito das mulheres sobre seus próprios corpos, demanda que não foi defendida pelo PT nos seus anos de governo, mas que sim teve políticas que foram em um sentido contrário a esse.

Por isso é necessário retomar para as nossas mãos os sindicatos hoje burocratizados, que paralisam nossa luta em vez de organizá-la, e ter confiança na forte unidade entre trabalhadores, estudantes, e todos os setores oprimidos, pois essa unidade sim é a que pode nas ruas, mostrando suas forças, impor nossas demandas, sem ilusões que realizar alianças e diálogos com quem nos ataca há anos será a saída, pois um governo em alianças com esses setores não tem como reservar nada de positivo para nós trabalhadores.

A classe trabalhadora é gigantesca, e hoje amarga os efeitos da crise para que um punhado de capitalistas garantam seus enormes lucros. As conquistas de nossas demandas, como as tantas experiências históricas demonstram, não virá por meio de uma saída eleitoral, mas sim pela força dos trabalhadores e de todos os setores oprimidos autoorganizados, em luta, confiando em nossas próprias forças, somente assim será possível derrotar Bolsonaro, Mourão, Damares, e toda essa extrema direita nojenta, sem nenhuma confiança que os atores do regime como Congresso, STF ou governadores, que tanto nos atacaram, estão do nosso lado. A batalha por uma assembleia constituinte, que seja livre e soberana, imposta pela força da nossa mobilização, e que batalhe pela revogação das reformas e para que os capitalistas paguem pela crise, é o que verdadeiramente pode mudar as regras do jogo, avançando no caminho da construção de um governo de ruptura com esse nojento sistema capitalista.




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