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UNICAMP | Retorno de atividades presenciais na Unicamp: que a comunidade universitária decida como e quando retornar

Na última semana a reitoria de Tom Zé anunciou pelas páginas e via e-mail institucional o plano de “reabertura” da Unicamp, sem nenhum diálogo com a comunidade e ainda em meio a pandemia e do descaso de Bolsonaro, governadores e prefeitos com as vidas da classe trabalhadora. Com direito a show de luzes no dia 13 de setembro, data em que se completa 1 ano e meio de pandemia e atividades, majoritariamente remotas. A retomada de Tom Zé é parte dos planos de Dória para as eleições e está seguindo os mesmos passos da imposição do EAD pelo antigo reitor, abdicando de consultar a comunidade universitária.

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sexta-feira 3 de setembro | Edição do dia

Em coletiva de imprensa realizada no dia 19 de Agosto, o reitor Tom Zé e Maria Luiza Moretti, coordenadora geral da universidade, fizeram um discurso para justificar a retomada das atividades presenciais na universidade já em Setembro. O retorno se dará de forma gradual, e nesta primeira fase é direcionado aos trabalhadores efetivos que não são da área da saúde. É importante lembrar que desde o começo da pandemia, grande parte dos trabalhadores terceirizados continuam em condições precárias, como relatado aqui, se expondo à covid. E também sofreram diversos processos de demissão. A partir do dia 13, todos aqueles que estiverem vacinados com as duas doses deverão retornar presencialmente de forma integral. Contudo, esse retorno não foi discutido com o conjunto dos trabalhadores, estudantes e professores. Sendo uma imposição da reitoria sem nenhuma consulta ou diálogo, muito diferente do discurso “democrático” que a chapa fazia em sua campanha.

A imposição do retorno se dá em um momento de profundos ataques de Bolsonaro, Doria e todos os setores que se aliam por cima para descarregar a crise nas costas dos trabalhadores e da juventude. Gasolina e alimentos com preços exorbitantes, reformas e privatizações que atingem a vida de cada trabalhador e trabalhadora além dos elevados índices de desemprego colocam a necessidade de colocar a auto-organização de estudantes e trabalhadores a frente, no sentido de combater as ofensivas reacionárias e golpear esse governo que odeia os trabalhadores e a juventude.

Tom Zé segue a linha de Dória, que impôs o retorno presencial nas escolas para o conjunto dos professores e alunos em uma situação em que não havia estrutura adequada para um retorno seguro e também sem discutir com a comunidade escolar. Apesar da demagogia do governador em sua oposição à Bolsonaro e em meio às disputas políticas entre Doria e Bolsonaro; foi a nossa classe que se manteve na linha de frente, trabalhando todos os dias e expondo a sua saúde e suas vidas nas indústrias, nos transportes, hospitais, nos serviços de entrega por apps sem testes massivos, EPIs, com um sistema de saúde precarizado e sofrendo com a retirada de direitos. Ao mesmo tempo que tenta cavar um espaço como “terceira via” contra Bolsonaro, Doria avançava em plena pandemia na implementação de medidas como o PL 529 para destruir e privatizar a saúde, o transporte e os serviços públicos que atendem a população mais pobre.

Aqui na Unicamp não foi diferente. Na universidade reconhecida pela pesquisa acadêmica e pelo hospital, vimos os trabalhadores da saúde no HC fazerem um ato no ano passado contra a falta de EPI’s e testes para os próprios trabalhadores. E assim como na maior parte dos hospitais pelo país, atingiu níveis recordes de ocupação de leitos chegando à beira do colapso e que revelam os anos de ataques e cortes de verbas que Dória e o PSDB implementaram na saúde e contra o conjunto dos servidores públicos e as universidades.

Conforme mencionamos em diversos artigos como esse, vários foram os casos de contaminação e morte por Covid-19 entre efetivos e terceirizados. Assim foi com Marcelo, Lurdes, Fábio, Edvânia e diversos outros que foram contaminados, internados, ou perderam suas vidas. Sem falar nas centenas de demissões de terceirizados, como os da vigilância, que colocaram famílias na rua no período de maior crise do último período.

Durante a pandemia, estudantes, principalmente os mais pobres, tiveram que começar o EaD de forma imposta pela reitoria, sem condições de decidir sob quais condições se daria o ensino durante a pandemia. Ainda que a gestão da universidade tenha mudado no início do ano, Tom Zé já mostra por a + b que segue a mesma linha de Knobel, sem diálogo com a comunidade, ameaçando impor um novo código de conduta bastante autoritário, que submeteria toda a comunidade, principalmente trabalhadores e estudantes às normas moralistas da burocracia acadêmica, ameaçando de expulsão e demissão quem não seguir o código, que fala por exemplo que estudantes e trabalhadores não podem “apresentar atitudes que resultem no transtorno à comunidade universitária”. O que abre um amplo espaço para que a reitoria decida o que causa transtorno à comunidade universitária, como por exemplo greves e reivindicações que façam estudantes e trabalhadores.

É se utilizando da mesma demagogia que utiliza Dória, que Tom Zé planeja um show de luzes no dia 13 em comemoração ao retorno presencial imposto de maneira totalmente antidemocrática. Lembremos que não foi Dória, muito menos a burocracia acadêmica com seus super-salários, que garantiram o combate à pandemia ou a produção da vacina, foram os milhares de cientistas, pesquisadores, trabalhadores da saúde, administrativos e terceirizados, e os estudantes que garantiram a universidade funcionando para a produção científica apesar dos cortes na educação imposto por Dória diversas vezes.

Acreditamos que é justamente a comunidade universitária, incluindo as terceirizadas, que fez e faz a instituição funcionar, que deveria decidir a melhor forma de retornar, como e quando, pensando os protocolos, as etapas e também as necessidades de adaptação estrutural do campus para permitir da forma mais segura, a retomada das atividades presenciais. Toda a busca por segurança e preservação dos trabalhadores e estudantes não passa de hipocrisia, tendo em vista que jamais fomos consultados sobre os caminhos de enfrentamento à pandemia. Trabalhadores que se mantiveram em serviço presencial tiveram suas vidas colocadas em jogo, sem jamais poder opinar, em nome dos interesses de uma reitoria condutora das deliberações do governo estadual e dos interesses empresariais da FIESP, que inclusive tem cadeira no Consu.

O mesmo governo estadual que Tom Zé é alinhado, como se expressou na coletiva de imprensa que citamos acima dizendo que foi o responsável por superar a crise e investir na universidade, proporcionando essa retomada com a melhor estrutura, foi quem obrigou professores a voltarem a trabalhar presencialmente na pior fase da pandemia, votou junto com o Bolsonaro nas principais reformas anti-operárias e cortou milhões do repasse para as universidades públicas. Não podemos confiar em nenhum desses setores que compram um discurso democrático para preservar suas políticas que são alinhadas aos setores privados que crescem montados em nossas costas.

Devemos exigir que estudantes, docentes e trabalhadores, que são os mais afetados pela pandemia e seus desdobramentos e os que mais conhecem das próprias demandas, encabecem a criação do plano de retorno, decidindo quando e como as atividades presenciais devem ser retomadas. Chamamos todas as entidades estudantis, junto à ADUNICAMP e o STU a impulsionarem comitês de higiene em cada unidade da Unicamp, que tenha ampla autonomia para decidir as medidas de prevenção prezando a segurança de todos.

É preciso mobilizar e organizar os três setores para garantir o controle sobre as condições de retorno na medida em que esses comitês se fortaleçam e consigam juntar forças para impor suas decisões sobre os diretores das unidades. É parte fundamental dessa luta que os trabalhadores terceirizados tenham os mesmos direitos dos trabalhadores efetivos da universidade e que exijamos o fim das demissões e a reintegração de todos os trabalhadores demitidos. Precisamos unificar essa luta com os estudantes bolsistas para garantir direito à moradia, permanência estudantil e lutar juntos para que a universidade coloque todo o seu conhecimento e sua estrutura a serviço das necessidades da população em meio à pandemia.

Esse retorno ocorre em um momento de inúmeros ataques e da situação dramática que Bolsonaro, Doria e os capitalistas impõem à classe trabalhadora e à juventude em todo o país. Durante a pandemia, vimos setores que sequer tiveram direito ao isolamento social e sofrem com o desemprego, a fome, a precarização do trabalho, a privatização dos correios e a aprovação da MP1045 que veio para impor um regime de trabalho semiescravo para a juventude. É a comunidade universitária que deve decidir quando e como se dará o retorno seguro. Ao mesmo tempo, a batalha contra o retorno inseguro das atividades presenciais precisa superar os muros da Unicamp e ser parte da luta para unificar o conjunto da nossa classe com a juventude, o povo pobre e enfrentar como um só punho todos os ataques e as mais de 500 mil mortes da pandemia. Somente assim conseguiremos defender as nossas vidas diante de um governo que tornou o convívio com a morte algo cotidiano.




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