Política

ELEIÇÕES 2020

Resultados eleitorais, esquerda, moderação e "sonhos"

Muitos jovens e trabalhadores se decepcionaram com os resultados eleitorais deste domingo. Novamente quem se fortaleceu foi a direita, mais especificamente o “centrão” (que de centrão não tem nada, são herdeiros da ditadura). Todo o setor progressista da sociedade está com a paciência nos limites com a barbaridade do que estamos vivendo, com bravatas diárias de Bolsonaro, esculacho na pandemia, preço dos alimentos nas alturas, crise das universidades, desemprego. E se já não bastasse, os resultados eleitorais fortalecem tucanos, a corja do DEM, PSD, PP, coronéis em alguns lados, muitos delegados na política. Como dizia o meme, enfim, a (velha) hipocrisia.

Iuri Tonelo

Recife

segunda-feira 30 de novembro de 2020| Edição do dia

Que muitos trabalhadores sonhem e tenham esperança com as mudanças nesse jogo democrático dos ricos é “normal”, é tanta miséria que a população sempre procura uma esperança – as igrejas continuam lotadas, mesmo com a pandemia. Também não me chama a atenção que partidos como o PT e o PCdoB semeiem essa ilusão nesse período: partidos desse tipo, que chamamos de reformistas, já perderam os “grandes sonhos” faz tempo. Administraram o capitalismo brasileiro por anos, conciliaram com as elites, fizeram parte do jogo – e não por acaso estão se debilitando. Vamos relembrar: no que deu a experiência da conciliação, de governar junto com a direita e empresários? Junto com Temer do PMDB? Deu no que as elites sempre fazem, como diria um velho desses políticos burgueses, “poder político é que nem violino, a gente toma com a esquerda e toca com a direita”. Ou seja, a experiência da conciliação, de colocar PMDB de vice, Marco Feliciano e sua base evangélica, o PP de Maluf, rifar o direito das mulheres, terceirizar o trabalho e um longo etc, levou ao golpe de 2016 e ao fortalecimento de Bolsonaro. Levou porque essa experiência de conciliação rifou a “esquerda” por anos, mostrou que os “esquerdistas do PT” faziam igual na esfera pública, conciliavam e governavam com o mais podre do que existia na política brasileira, vocês devem se lembrar que Lula chegou a apertar a mão do Maluf para fazer acordos eleitorais? Se quiserem eu relembro com foto.

Então, para ser franco e direto, chega a ser nefasto alguns dirigentes de organizações de esquerda, que nasceram se propondo a superar a experiência da conciliação (nas palavras deles), ou ao menos estar à esquerda do PT, virem agora repetir que “estamos depositando sonhos e esperança nas urnas” com uma frente ampla. Desculpem, mas nós socialistas devemos ser verdadeiros com a população trabalhadora: nós vivemos um sistema político hoje que além de ser dominado pelos empresários e banqueiros, foi manipulado por um impeachment, e é uma farsa achar que da eleição dentro dessa democracia degradada vão vir “grandes promessas, grandes sonhos, grandes esperanças”. Se isso já é assim, pior ainda quando a proposta, como fez o PSOL em várias capitais, já começa juntando partidos com deputados que apoiaram o impeachment como PSB ou a REDE, assim que começa a mudança? - o Oscar nesse ponto vai para a Resistência, corrente do PSOL, que fundamentou por escrito em seu site sua justificativa do porquê votar no DEM no Rio de Janeiro, repito, NO DEM.... que veio do PFL, que por sua vez veio do ARENA, partido da ditadura.

Isso é um mal menor? O ceticismo chegou a esse ponto?

Lição básica de história: confiem nas forças dos trabalhadores, nas lutas, greves, organização e desconfiem em promessas que se baseiem apenas nas eleições: a tribuna eleitoral pode ter uma força importante quando ligada a ação dos trabalhadores e suas mobilizações, mas é vazia quando vende sonhos por fora delas.
Ou alguém aqui acha que o Bruno Covas ganhou porque a massa da população adora o tucanato? Os caras têm um aparato eleitoral, uma verdadeira máquina, jorram dinheiro de banqueiros e empresários, compram voto, ameaçam com polícia, fazem acordos com o tráfico, utilizam o dinheiro sujo de corrupção na campanha e tem a mídia a seu favor, enfim, fazem tudo que as elites sempre fizeram, aqui em São Paulo e no país inteiro.

Significa que as coisas continuarão assim? Não. O que temos de pessimistas com esse jogo da democracia dos ricos temos de otimistas com a luta da classe trabalhadora. O que me dá otimismo é saber que 2020, com toda a desgraça que tivemos que engolir, foi o ano da maior mobilização de ruas da história dos Estados Unidos, maior potência do mundo, com os negros na vanguarda. Leia de novo as últimas frases, é muito forte pensar isso. Ou que no Chile, no Peru, na Guatemala, a população começou a perder a paciência. América Latina está um caldeirão de conflitos. Ainda hoje víamos mobilizações na França, chuva de pedras na repressão policial. O capitalismo segue numa crise fortíssima, desigualdade não para de crescer, desemprego, forte instabilidade, crise política nas alturas do imperialismo (lembremos o que foi a eleição norte-americana).

Acho que não por acaso a Globo, o Estadão, a Folha falavam que foi a volta da política e elogiam que a esquerda foi disciplinada - eles não param de elogiar. Eles gostam assim, Bolsonaro aquele desgraçado fala todo tipo de barbaridade de ultradireita, mas a esquerda não, essa foi disciplinada, foi moderada, quer apoio de empresários, frentes amplas....ou se mantém nos limites da burocracia nos sindicatos, que também tem mantido uma trégua bem comportada com esses governos.

Está na hora de começarmos a perder um pouco a paciência com esse sistema político advindo de um golpe.... na história desse país desde Zumbi dos Palmares até as mobilizações atuais de entregadores do 1º de julho, nunca cumpriu grande papel aqueles que vieram dizer “vamos moderar um pouco para ir sendo mais viável”....moderar um pouco? Com tanta barbaridade que a gente ouviu. Fico pensando na escravidão alguém olhando para os escravizados nos quilombos e propondo moderar para chegar a um acordo com a Coroa, pra ir avançando pouco a pouco....

Basta, não dá! É hora de começar a perder a paciência, e se for para sonhar, sonhar grande, sonhar com a massa proletária organizada colocando os escravocratas do século XXI contra a parede. Esse é o grande sonho, e alguns espectros disso em vários países pelo mundo, em pequeno, começam a surgir, como foi o Black Lives Matter.

Melhor desconfiar mais das eleições e acreditar mais no trabalho de base, na auto-organização dos trabalhadores, no trabalho nos sindicatos, e em candidaturas que estejam a serviço de impulsionar as lutas e na construção de um partido que chame as coisas pelo nome, apresente um programa (e não frases vazias) e defenda sem medo que o que precisamos nesse país é uma transformação radical, de cima a baixo, uma verdadeira revolução social dos trabalhadores...

Termino com um verso que me ocorreu de Alberto Caeiro, que acho que casa bem como um recado para os ditos socialistas atuais:

"Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...".




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