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Enchentes e deslizamentos | Recife: entre as 3 cidades onde negros e pobres mais sofrem com desastres capitalistas

Já são 134 pessoas mortas em Recife e região metropolitana decorrentes das fortes chuvas desde maio. A tragédia capitalista anunciada ano após ano acomete em sua grande maioria a população pobre e negra, dado que se confirma com o recente estudo do Instituto Pólis. Por um plano de emergência para todas as vítimas e pela construção de uma reforma radical urbana!

quinta-feira 4 de agosto | 15:16

Imagem: Reuters/Diego Nigro

A nível regional, já são mais de 73 mil pessoas desabrigadas e desalojadas entre Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte. Nos últimos dias em Recife ocorreu um caso de deslizamento de barreira que comprometeu diretamente a casa de uma moradora do bairro do Vasco da Gama, na Zona Norte da cidade, somando-se à morte por afogamento de uma mulher ao tentar atravessar de carro o túnel do Jordão, alagado há dias na Zona Sul de Recife.

De acordo com recente estudo do Instituto Pólis anunciado nesta quarta-feira (3), Recife encontra-se entre as três cidades onde a população negra e pobre são mais vulneráveis a riscos de deslizamentos, inundações e doenças transmitidas pela água, junto a São Paulo e Belém. Ao caracterizar tais populações o estudo mostra o quanto que a negligência do estado capitalista desconta a crise (que se materializa através dos desastres ambientais) diretamente nas costas de pessoas negras e pobres.

Boa parte das áreas com risco hidrológico (de inundação) e geológico (de deslizamentos), coincidem com o que o IBGE vai nomear de "aglomerados subnormais” para referir-se a comunidades de baixa renda, favelas e palafitas. Alternativas de moradias que se multiplicam diante da questão habitacional aprofundada com a especulação imobiliária que obriga a população a se submeter aos riscos apontados, de perda de bens e da própria vida. Nas três cidades estudadas observa-se a presença majoritária de pessoas negras em aglomerados subnormais, superando inclusive a média demográfica da população por município.

Em Recife, nas áreas com riscos de deslizamentos a proporção de pessoas negras é de 68%, com uma renda média de 1,1 mil por domicílio (menos da metade da média municipal), contando com quase 27% de domicílios chefiados por mulheres de baixa renda. Além disso, a exposição a riscos de saúde com doenças infecciosas de veiculação hídrica e doenças vetoriais acomete principalmente aqueles sem acesso ou com acesso precário a serviços básicos de saneamento. Em Recife trata-se de 64,1% da população negra acometida com doenças de veiculação hídrica e 53% de hospitalizações da mesma população por agravamentos de doenças vetoriais em 2021. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), foram 1.006 notificações de casos de leptospirose até a segunda quinzena de julho, número que superou em 128% a quantidade de casos notificados em 2021.

De acordo com Ana Sanches, pesquisadora do Instituto Pólis:

O estudo mostra que os impactos ambientais nas cidades são socialmente produzidos: não são apenas fruto de eventualidades climáticas, mas sim resultado da negligência do poder público

É preciso responsabilizar diretamente o poder público que tem como prioridade os lucros dos capitalistas. O descaso com a prevenção de desastres ambientais e com o trabalho para que não ocorra mais enchentes e deslizamentos como vem ocorrendo nos último meses, coloca em risco e põe fim à vida de milhares de pessoas, em sua maioria negras e pobres, roubando delas o futuro e as possibilidades de vida. O governo do PSB é responsável e foi o que menos investiu na prevenção dessas tragédias, somando-se ao ataque de Bolsonaro que operou um corte de 75% do orçamento para combate a desastres naturais. João Campos (prefeito do PSB), junto a Professor Lupércio (SD) e Anderson Ferreira (PL), ex-prefeito de Jaboatão e atual pré-candidato ao governo, fazem demagogia com os acontecimentos colocando na conta da natureza, como se nada pudessem fazer diante da alta quantidade de chuvas. Uma grande mentira se pensarmos no quanto se estendem as repetições das tragédias capitalistas desde o século passado.

Como se não bastasse a pesada demagogia oferecida como resposta à população, o PSB ainda tem a coragem de localizar sua estratégia de governo dentro de um "Socialismo Criativo". Mas a verdade é que o estado de Pernambuco conta com a posição de segundo lugar no ranking de números de desempregados no Brasil, fica em terceiro se falamos de pior situação do saneamento básico, possui quase metade da população na informalidade e carrega o título devastador de assassinar 98% de pessoas negras com sua polícia! No ponto da criatividade revela-se a prioridade do partido: utilizar o campo do turismo e do Porto Digital para enriquecer setores da oligarquia e capitalistas.

Leia mais aqui: Entenda por que acontecem tantos deslizamentos e enchentes em Pernambuco

É nesse cenário de priorizar os lucros dos capitalistas que se aprofunda a crise urbana descontada nas costas do povo pobre e negro. Mas para que sejam os capitalistas que paguem pela crise é fundamental pensar um programa que seja pelo não pagamento da dívida pública, que acometeu em 2021 36,14% da receita do estado. Sendo este um motivo de orgulho do PSB ao destinar grande parte da receita para o capital estrangeiro ao invés de trabalhar no financiamento de um plano de obras públicas junto a uma reforma urbana radical, para que as prioridades do espaço urbano sejam invertidas.

Nesse sentido, é urgente defender um programa que passe pela expropriação de moradias vazias e abandonadas para que sejam construídas moradias seguras, contando com acesso a saneamento básico, saúde, transporte, investindo no manejo das águas da chuva diante das características naturais da cidade de Recife e do Estado. Além disso, que cada imóvel ocioso sirva para acolher famílias que encontram-se em áreas de risco, com o suporte necessário para que se desenvolva. A participação da ciência na construção do plano emergencial e de uma reforma emergencial é basilar, tendo em vista a necessidade de que a UFPE, UFRPE, UPE e institutos federais produzem e podem produzir conhecimento suficiente para o desenvolvimento desse plano, colocando todas as suas forças a serviço dele. Que as prioridades sejam invertidas urgentemente, pois é inadmissível que milhares de pessoas sigam perdendo suas vidas ou a própria possibilidade de viver plenamente em detrimento dos lucros dos capitalistas. Além disso, é necessário que as prefeituras e o governo do estado paguem imediatamente o auxílio para vítimas e afetados pelas enchentes e deslizamentos.




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