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Rebelião em massa na Costa Rica derrota ataques do governo e do Fundo Monetário Internacional

Uma rebelião em massa que lembra o movimento dos Coletes Amarelos na França forçou o governo de Carlos Alvarado a desistir de seus planos de destrutivos aumentos de impostos, cortes nos serviços públicos e privatizações. A rebelião mudou a dinâmica política em um país que antes era visto como “a Suíça da América Central”.

quarta-feira 21 de outubro| Edição do dia

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Uma greve geral de quase três semanas terminou com uma vitória temporária para o povo da Costa Rica. A greve, que às vezes assumia o caráter de uma rebelião de massas com elementos insurrecionais, foi iniciada para protestar contra um pacote de aumentos de impostos, cortes nos serviços públicos e privatizações de bens públicos. Essas reformas foram exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como condição para a concessão de um empréstimo de US$ 1,5 bilhão e foram propostas pelo governo de coalizão neoliberal de Carlos Alverado.

A força do movimento obrigou o governo a se retirar temporariamente das negociações com o FMI. Isso está sendo visto como uma derrota direta para o governo, deixando-lhe pouca margem de manobra contra os trabalhadores e o povo pobre deste país submetido ao imperialismo.

Os coletes amarelos vêm para a Costa Rica

A rebelião foi organizada e iniciada por uma coalizão ad hoc de cidadãos que se autodenominou Rescate Costa Rica (Resgate Costa Rica). Inicialmente, era formado por pequenos empresários, pequenos agricultores e povo pobre rural. Sua composição de classe mudou em direção à classe trabalhadora à medida que a rebelião reunia em seu rebanho os pobres rurais, diaristas e trabalhadores do setor informal, um grupo que representa quase 60% da força de trabalho da Costa Rica.

Como o movimento do Colete Amarelo na França, o movimento Rescate foi às ruas em massa, criando mais de 90 bloqueios em grandes estradas e centenas de bloqueios e barricadas em vias menores, fechando efetivamente o transporte em todo o país.

Essa tática foi auxiliada pelos milhares de caminhoneiros que transformaram seus caminhões em instrumentos de luta: havia de tudo, desde pequenos reboques até caminhões limpa-fossa que viraram suas mangueiras de dejetos contra os policiais que tentavam quebrar as barricadas. Motoristas de caminhões basculantes descarregavam pilhas de terra e pedras nas rodovias para reforçar as barricadas e, quando confrontados pelo esquadrão de choque, atiravam pedras sobre as cabeças dos policiais.

A tropa de choque é formada por esquadrões especiais da Fuerza Publica, a polícia nacional com 30.000 membros encarregados de manter a ordem. Em muitos casos, ocorreram batalhas acirradas entre a tropa de choque e os ocupantes do sistema de rodovias. Essas batalhas foram especialmente prevalentes no norte do país em torno de Las Canas e no condado de Perez Zeledon, no sul do Pacífico. Ambas as áreas dependem fortemente da agricultura, um setor que tem sido particularmente atingido - tanto na atualidade, quanto como uma tendência de longo prazo em decorrência do Acordo de Livre Comércio assinado há doze anos.

Como a Costa Rica não tem exército, a polícia serve como instrumento direto de repressão. O uso da polícia pelo governo para desmantelar o movimento libertou as pessoas da imagem de uma polícia que “serve e protege”, que a oligarquia costarriquenha gosta de projetar. A luta de massas mostrou claramente a quem os policiais “servem e protegem”.

Isso foi mostrado em detalhes gritantes durante uma marcha nacional contra o governo em 12 de outubro. Registrados em vídeo, dois policiais vestidos como manifestantes tentaram confrontar fisicamente uma linha de policiais que bloqueava o acesso à residência presidencial.

Depois da “prisão”, surgiram imagens de vídeo desses dois agentes confraternizando com os policiais, e eles foram rapidamente identificados como membros de uma delegação regional da polícia encarregada com tarefas anti-motim. Questionado, o Ministro da Segurança Nacional admitiu que os dois policiais eram agentes e que o governo usou táticas de infiltração para "manter a ordem". Desnecessário dizer que isso foi um choque para muitos costarriquenhos e que isso não fez nada para melhorar a reputação do governo ou da polícia nacional.

Um cenário político em mudança

As consequências políticas desse movimento de massa mudaram de muitas maneiras a dinâmica do trabalho dentro dos movimentos sociais e da classe trabalhadora. O governo, ao retirar o pacote proposto, foi forçado a pedir um diálogo nacional mediado pela Igreja Católica. Esse chamado foi totalmente condenado como um estratagema político cínico para tentar tirar a rebelião das ruas.

Esse foi o mesmo esquema ardiloso usado pelo regime vizinho na Nicarágua, onde Ortega e Murillo tentaram derrubar a liderança da rebelião estudantil em 2018 – um esquema que teve êxito apenas parcialmente.

Por causa do clamor contra essa manobra, Alvarado foi forçado a fazer concessões em torno da composição e da autoridade, bem como da agenda, desse diálogo nacional. Embora possa ser usada pelo governo como uma forma de recuar de seu pacote original, essa parte da trama foi discutida abertamente na mídia e é um jogo perigoso para o governo tentar jogar.

Além disso, o diálogo dá ao movimento de massas, e em particular ao movimento sindical, tempo para discutir e resolver questões internas. Apesar de uma demonstração massiva e militante de força durante uma marcha liderada por sindicatos durante a segunda semana da rebelião, os sindicatos estão divididos com relação à forma de lidar com a situação.

As forças sindicais no Instituto Costarriquense de Eletricidade (ICE), por exemplo, são lideradas por líderes vendidos que, como os burocratas da AFL-CIO nos Estados Unidos (a maior central sindical), são serviçais do seu partido capitalista preferido, neste caso o Partido Ação Cidadã (PAC) liderado por Alvarado.

Os trabalhadores do ICE podem por si mesmos derrubar o governo porque controlam o sistema elétrico e a espinha dorsal das telecomunicações do país. As administrações anteriores conseguiram dividir os trabalhadores do ICE em diferentes agrupamentos sindicais, para controlar melhor essa força de trabalho altamente qualificada, mas não excepcionalmente bem paga. A construção da unidade entre os trabalhadores do ICE com uma liderança nova e militante é uma das tarefas mais urgentes que a esquerda costarriquenha enfrenta.

A dinâmica de abertura entre os trabalhadores do ICE é a mesma em todos os movimentos sindicais e sociais. A questão se resume a este enigma: as massas estão preparadas para lutar. Eles mostraram essa disposição três vezes nos últimos anos, incluindo uma greve docente de seis meses que acabou cancelando o ano letivo, pouco antes do surto de Covid-19. A questão que todos enfrentam é: como podemos vencer?

Alvarado: um governo fraco com poucas opções

A rebelião não só colocou as questões políticas diretamente diante do movimento de massas, mas também mostrou a fraqueza do governo Alvarado, com pouquíssima margem de manobra em meio a um desastre econômico e uma crise de saúde.

O surto de Covid-19 foi controlado com sucesso durante os primeiros meses, já que a implantação estrita de medidas de confinamento (lockdown) manteve o número de mortos em menos de 10 pessoas de março a junho, e o número de casos abaixo de 200. Mas diante da paralisação de atividade econômica para pequenas empresas, a indústria do turismo e os setores informais (vendedores ambulantes, feiras livres e semelhantes) - a base política de apoio ao PAC - Alvarado iniciou uma campanha para convencer os costarriquenhos de que o governo tinha a pandemia sob controle. Então ele começou a suspender as restrições.

Os resultados eram mais do que previsíveis. Os casos da Covid-19 dispararam e o número de mortos aumentou. Além disso, os refugiados da saúde que cruzam a fronteira com a Nicarágua - onde o regime de Ortega-Murillo primeiro tentou negar que havia infecções e, em seguida, começaram a realizar marchas em massa sem máscara contra Covid-19, alegando que era um complô imperialista - transmitiram infecções primeiro nas regiões de fronteira e depois na Grande Área Metropolitana de San Jose.

Durante os primeiros meses do confinamento, foi oferecido auxílio monetário a todas as famílias da Costa Rica. Mas, com a paralisação da atividade econômica, o governo, por meio do banco central, afirmou que não poderia mais fornecê-lo. Isso aumentou a pressão política para que o governo reabrisse. Essa pressão foi exercida tanto por trabalhadores desses setores quanto pelas camadas pequeno-burguesas que estavam indo à falência em números recordes à medida que sua base de clientes desaparecia.

No que a princípio pareceu uma asserção bizarra, o chefe de um dos sindicatos de enfermeiras afirmou que a Covid-19 estava sendo usada pelo governo como um meio de tirar do mercado os concorrentes das maiores empresas pertencentes à oligarquia nacional. No entanto, essa era a percepção de um grande número de pequenos empresários, e foi o estopim para aumentar o fogo da rebelião em formação.

A Costa Rica enfrenta uma crise fiscal de grandes proporções - disso, todos estão de acordo. Como isso é tratado foi o tema subjacente da rebelião. Os cartazes caseiros com os dizeres: “Meu país não está à venda ao FMI” foram vistos em todo o país.

Foi uma declaração de que os costarriquenhos, os trabalhadores e demais setores populares, não estavam preparados para pagar por uma crise que eles não causaram. Foi também uma declaração, mostrada em ação das massas, de que eles estavam preparados para lutar contra aqueles que tentavam fazê-los pagar. A onda revolucionária parou, por enquanto, para recuperar o fôlego.

Tradução de https://www.leftvoice.org/mass-rebellion-in-costa-rica-beats-back-the-government-and-the-international-monetary-fund




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