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Olimpíadas | Rayssa, Italo e Rebeca: Negros e nordestinos brilham no Brasil do presidente xenófobo e racista

Três atletas que emocionaram o país inteiro, ao ponto de Bolsonaro e Mourão precisarem tentar se apoiar neles para fazer demagogia, mas tiveram que engolir seco toda xenofobia e racismo que sempre destilam.

Cristina SantosRecife | @crisantosss

sexta-feira 30 de julho | Edição do dia

Rayssa Leal, uma jovem maranhense de Imperatriz, de 13 anos, medalha de prata do Skate feminino, que junto com as veteranas Pâmela Rosa e Letícia Bufoni mostrou que no Brasil existe um esporte que por muito foi negado para mulheres e meninas, inspirando toda uma nova geração de jovens que podem vestir rosa, azul e o arco-íris inteiro; deixando de cabelo em pé a reacionária ministra bolsonarista Damares Alves. Ítalo Ferreira, ouro no surf, um jovem potiguar de Baía Formosa no Rio Grande do Norte, que começou a surfar em cima da tampa de isopor emprestada pelo pai e se emocionou ao falar da avó e de como queria que tivesse vivido o tanto que pode hoje ajudar seus pais. Rebeca Andrade, jovem negra de 22 anos, medalha de prata na ginástica olímpica, título inédito no Brasil. Três atletas que emocionaram o país inteiro, ao ponto de Bolsonaro e Mourão precisarem tentar se apoiar neles para fazer demagogia, mas tiveram que engolir seco toda xenofobia e racismo que sempre destilam.

O sonho de ser atleta profissional é algo que percorre a vida de muitos jovens, mas que é cada vez mais atacado. No orçamento de 2019 para 2020, a Bolsa Atleta sofreu uma redução drástica, de 49%, pelas mãos de Bolsonaro, Mourão e aprovada pelo Congresso. De acordo com o Portal UOL, e após o governo Bolsonaro-Mourão ter reduzido o Ministério do Esporte a uma secretaria da pasta da Cidadania e demitiu mais de 500 terceirizados que representavam dois terços dos funcionários da Secretaria. Na área que cuida do Bolsa Atleta, um corpo de 18 trabalhadores foi reduzido para dois. Como dizemos, e Congresso e o STF podem até fazer oposição em um ou outro ponto com Bolsonaro, mas na hora de atacar a juventude e a classe trabalhadora, estão sempre juntos.

O Bolsa Atleta, criado em 2005 e pelo qual frequentemente o PT busca se apresentar como defensor do esporte, na realidade consiste em uma parceria que fortaleceu as Forças Armadas e foi reajustado somente uma vez, em 2010, com valor inferior a um salário mínimo em sua remuneração mais básica.

Falando especificamente da região Nordeste, de onde são dois dos medalhistas, Bolsonaro e Mourão engolem seco sua xenofobia, já que estes atletas vêm da região alvo de cortes e ataques do seu governo, que inclusive o ano passado se transformou em nojenta demagogia frente ao impacto do auxílio emergencial, cujo fim jogou milhões na insegurança alimentar.

Mas Bolsonaro e Mourão não perdem por esperar, por aqui 62% rejeitam Bolsonaro de acordo com pesquisas realizadas em maio, não à toa a única região na qual perdeu as eleições e que protagonizou manifestações de milhares nos últimos meses. O Nordeste foi o terror da Coroa Portuguesa, palco de levantes e revoltas que assombram a burguesia até os dias de hoje como a Revolta dos Malês e a Greve Negra da Bahia, a Confederação dos Cariris, a Praiera, as lutas no campo que se enfrentaram com a ditadura nas ligas camponesas; os jangadeiros de Fortaleza, que em 1881 deflagraram uma greve que paralisou o porto de Fortaleza se negando a transportar pessoas escravizadas para os navios que os enviariam para o sul do país, fato que fomentou o abolicionismo e foi determinante para que a abolição no Ceará se desse 4 anos antes do restante do país, em 25 de março de 1884; e tantos outros exemplos de luta que são parte da herança do povo nordestino que se reflete em tantos aspectos da vida e da cultura como a poesia de João Cabral de Melo Neto, os versos e repentes de Patativa do Assaré, a força de Nise da Silveira que questionou toda a hegemonia da psiquiatria de seu tempo e foi pioneira de uma perspectiva da saúde mental humana e por fora dos muros das instituições psiquiátricas, de Chico Science e Nação Zumbi que popularizou o Maracatu e desenhou a cidade do Recife no imaginário de multidões dentro e fora do país, de Glauber Rocha reinventando o cinema e Paulo Freire reinventando a didática.

De uma região que aporta tanto ao conjunto do país, neste momento difícil onde a política assassina do governo Bolsonaro durante a pandemia já nos tirou 550 mil vidas por Covid-10, vem a chispa de alegria de ver uma jovem negra e dois jovens nordestinos, que mesmo se não dissessem nada já dizem muito: ver Rayssa brilhar em um esporte como o Skate é um tapa na cara de Damares Alves do “meninas vestem rosa” como todo golpismo do “bela, recatada e do lar”; e Rebeca ao som de Baile de Favela conquistando um título inédito, a emoção de Daiane dos Santos em ver a conquista da companheira de esporte...exemplos para toda uma nova geração de meninas de que elas podem sonhar o que quiserem, que nossa relação com outras mulheres nos fortalecem e não partimos do zero. No que depender de nós, todos os dias estaremos batalhando para que o sonho de cada uma das meninas e meninos no Brasil e no mundo, seja realidade.




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