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"Racismo no esporte não existe" diz presidente da Federação Francesa sobre caso de Neymar

Após Neymar ser chamado de "macaco filha da puta" em partida de futebol, Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa de Futebol, afirmou que “O fenômeno do racismo no esporte, e no futebol em particular, não existe ou quase não existe”.

quarta-feira 16 de setembro| Edição do dia

Presidente da Federação Francesa de Futebol (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Para completar, também afirmou que esporte tem “1% de dificuldade com o tema”, além de reforçar sua relativização do racismo ao exemplificar que quando um negro faz gol, todos aplaudem.

No último domingo, Neymar foi chamado de “macaco filho da puta” por Álvaro González, jogador do Olympique de Marselha, em jogo na França, e respondeu à violência apontando o dedo para Gonzalez dizendo “racismo não!”

Frente a isso, em entrevista ao canal “RMC”, nesta terça (15) o presidente da Federação Francesa afirmou que discriminação por raça não é um problema no esporte nos dias de hoje. Noël disse que o nível de dificuldade as questões raciais no futebol são pequenas, pegando o exemplo de aplausos do estádio quando um jogador negro marca um gol, não admitindo em seu discurso que a questão racial está presente não somente em meio a população como também nos campos de futebol.

Não é a primeira opinião polêmica do presidente da federação a respeito de posições da entidade na luta contra a discriminação. Em 2019, vale ressaltar, Noël polemizou ao pedir que árbitros paralisassem o jogo quando houvesse cânticos racistas, mas de forma alguma quando houvesse cânticos homofóbicos.

Especificamente questionado sobre a denúncia de Neymar contra o zagueiro do Olympique de Marselha, Noël se esquiva e apenas condena a briga generalizada que resultou em cinco expulsões no fim do clássico com o PSG (Paris Saint-Germain), deixando claro que o interesse do presidente da federação não é de forma alguma a questão racial, mas sim, dar continuidade a partida independente de qualquer coisa.

Veja mais: Neymar responde com "Racismo não!” à agressão racista de “macaco filho da puta”

Exemplo disso foi fechar os olhos e ouvidos ao que foi dito por Álvaro contra Neymar. Segundo o presidente, ele não sabe e não ouviu, mas seguiu afirmando que foi ruim o comportamento dos jogadores, vergonhoso, onde ambos não conseguiram dar o “show” que estavam esperando.

O comitê Disciplinar da LNFP (Liga de Futebolistas Profissionais) está investigando o caso, nesta terça (15), o jornal “Le Parisien” publicou que o PSG contratou equipe para analisar as imagens e provar os insultos racistas de Álvaro dirigidos a Neymar.

Neymar pode receber até sete jogos de suspensão, e Gonzales, acusado de racismo, pode receber gancho de até 10 partidas.

É um absurdo e digno de rechaço todo argumento colocado pelo presidente da federação, quando se diz respeito a inexistência do racismo no mundo do futebol, até mesmo porque, o futebol concentra 90% dos casos de discriminação no esporte, em estádios e quadras em 2017 estimou-se que ao menos 69 profissionais da cadeia esportiva foram alvo de discriminação racial, LGBTfobia, machismo e xenofobia, tendo, no mesmo ano oito atletas brasileiros que passaram por algum tipo de hostilidade ao participar de competições, especialmente no exterior.

No Brasil, em 2019, os casos de racismo cresceram e alcançaram maior índice em cinco anos, onde foram registrados 47 casos no Brasil até novembro, deixando claro que a convivência com o racismo é uma regra não escrita do futebol, exemplo disso é o fato de ser tratado como descontrole emocional qualquer atitude do jogador que sofre racismo, como vimos o atacante francês de origem malinesa, Moussa Marega, artilheiro do Porto, que recebeu cartão amarelo por responder os cânticos racistas que recebia, levando o jogador abandonar a partida.

Exemplos como esses expressa o viés racista da presidência da federação que por sua vez prefere fechar os olhos e dar continuidade ao espetáculo do que olhar com seriedade para questão racial, assim como todos os outros níveis de discriminação nos campos. Frente ao fato, Neymar pediu a "pacificação" do movimento antirracista e disse se arrepender de ter agido com violência.

Estamos vendo o absurdo que é o racismo taxativo no futebol com o fato do jogo e a declaração da federação francesa, assim como em diversos âmbitos da sociedade. Diferente do que Neymar aponta, o racismo deve ser combatido frontalmente e com toda a força do ódio dos negros e negras oprimidos e explorados em todo o mundo.

Vimos o Black Lives Matters nos EUA onde a população negra partiu para o enfrentamento com a polícia em repúdio ao racismo estatal dos EUA, mostrando que é fundamental e muito importante a forma como se deu o enfrentamento, indo totalmente contra a ideia de Neymar, deixando nítido que não há violência nas manifestações antirracistas, violência há no racismo estatal e policial e não nos manifestantes.




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