RACISMO

Racismo no BBB: Nossos blacks não estão em jogo!

Ontem, dia 05, segunda-feira, o Big Brother Brasil foi mais uma vez protagonista de uma cena asquerosa de racismo, em que um dos candidatos comparou o cabelo black do outro com uma peruca de homem das cavernas. Esse fato fez com que a Globo fizesse um verdadeiro espetáculo, mostrando como essa emissora é parte da naturalização e perpetuação do racismo.

terça-feira 6 de abril| Edição do dia

O caso ocorreu depois que um dos candidatos, João, que é professor, negro e tem cabelo black power, teve seu cabelo comparado no último sábado à peruca que dois candidatos usaram numa prova, que fazia alusão ao homem das cavernas. Depois disso, o fato reverberou pelas redes sociais, fazendo até mesmo Ludmilla, cantora que fez um show no sábado no reality, se posicionar, e gritar: “Respeitem nossa cor. Respeitem nossa cultura. Respeitem nosso cabelo!”

Depois disso, numa das provas que ocorreu nessa segunda, João expressou o caso dizendo que a comparação do seu cabelo com o homem das cavernas causava muita dor, e mesmo assim o candidato Rodolfo, conhecido sertanejo, voltou a reafirmar a comparação, com muita resistência até mesmo em pedir desculpas e mostrando que não via nenhum problema no que falou, levando João a chorar no programa. Nos solidarizamos com João e com todos negros que tem sua identidade satirizada.

Que Rodolfo teve uma atitude racista é inegável. Quantos não são os negros e negras que todos os dias têm seus blacks ridicularizados e comparados a personagens? Justamente porque no país do mito da democracia racial querem apagar a identidade negra, para minimizar os efeitos da violenta escravidão negra que deixou marcas profundas no nosso país, e foram essas ideologias racistas que animalizaram os traços e a identidade negra.

Isso, em meio ao momento onde o racismo se expressa fortemente no fato de que são os negros os que mais morrem pela covid, os que mais passam fome hoje diante da miséria social do país no governo Bolsonaro, os que são menos vacinados, e que seguem sendo os que mais morrem vítimas da violência policial racista.

O cantor mostrou que as reflexões sobre o racismo, mesmo depois de terem se escancarado ainda mais no ano passado com as mobilizações por George Floyd, passam longe da sua cabeça. Além disso, ele também foi protagonista de uma piada machista e lgbtfóbica que envolvia o fato do cantor Fiuk, também participante do programa, usar um vestido.

Mais escandaloso ainda foi ver como essa situação se transformou num verdadeiro espetáculo para a Globo rapidamente chamar um intervalo para vender propagandas, e o apresentador Tiago Leifert dizia tranquilamente que “João está magoado”, “isso é BBB”, “isso é fogo no parquinho”, se divertindo com a situação que foi encarada apenas como mais uma briga corriqueira no programa.

Mas esse justamente é o BBB, programa que esse ano em especial operou um verdadeiro espetáculo criando identificações que abriga distintas ideias e ideologias, expressando caricaturas do movimento negro (com representações do que seria a “militância” negra), do movimento de mulheres, lgbt, dos nordestinos e do bolsonarismo, e colocando tudo isso em choque, promovendo cancelamentos, dores, machismos, lgbtfobia e racismo, tudo para capturar a luta dos setores oprimidos, que fez o mundo chacoalhar com as manifestações por Justiça a George Flod, e fazer virar apenas um produto para ser ridicularizado e vendido.

Veja mais em: Colorismo, bifobia e cancelamento: o conflito entre os oprimidos e o lucro capitalista

A intenção do programa nunca foi mais clara, como diz o próprio diretor:

“A gente quer sempre provocar o pior neles, nunca o melhor. A gente não quer que todo mundo se abrace e diga que se ama. Isso, para mim, seria o pior. A tendência do jogo é fazer com que eles briguem, que lutem pelo dinheiro. Quando alguém é péssimo para o público, ele é maravilhoso para a gente. O ‘Big Brother’, para minha equipe de seleção, não é um jogo de experiência científica, é só um jogo. Não nos afeta, não nos chama a atenção a hora em que o cara fica acuado ou fica psicologicamente afetado por alguma coisa e pode virar um monstro. Não estamos preocupados com conceitos psicológicos, mas, sim, com os relacionamentos e com a brincadeira que é a proposta”

Boninho deixa claro: quanto pior o candidato, melhor para o programa. Mas nossos blacks não estão em jogo! Cada negro e negra que levanta seu black, que solta sua trança, que mostra orgulho de ser negro, faz jorrar na cara de Bolsonaro, dos militares, dos golpistas como a Globo e de cada racista, que por mais que eles queiram suavizar o que significou a escravidão negra e a perpetuação do racismo, nós seguimos orgulhosos da nossa identidade e vamos mostrar que foi sobre a brutal exploração dos nossos corpos que o Brasil foi e segue sendo sustentado.

Esse orgulho pode ser capaz de se transformar numa força junto aos trabalhadores para enfrentar cada uma dessas expressões racistas e dos ataques, por isso que a Globo teme e precisa fazer da nossa luta um verdadeiro espetáculo. Em meio a um fenômeno internacional da questão negra, querem transformar pela via da representatividade negra, o racismo em puro entretenimento, para ser apenas um produto a ser vendido, esvaziando a potência do seu enfrentamento.

Mas nós não permitiremos! A nossa identidade, que diante da crise capitalista é cada vez maior, não está em jogo, ela é parte das tensões provocadas por um sistema que precisa da diferença para sua engrenagem de exploração, por isso, ela também será cada vez mais decisiva para fortalecer a luta pela superação da sociedade racista e de classes.




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