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QUESTÃO DE GÊNERO | RELATOS: EAD e ERE e a precarização das condições de vida das mulheres

Há um ano o Brasil e o mundo são abalados com o impacto do coronavírus, no nosso país esse impacto é combinado com a política negacionista de Bolsonaro e a crise econômica que veio para aprofundar a precarização e a retirada de direitos da classe trabalhadora. Na pandemia a mobilidade de ensino digital nas universidades e nas escolas são o aprofundamento da precarização do ensino e aprendizagem.

Pão e Rosas@Pao_e_Rosas

segunda-feira 5 de abril | Edição do dia

Foto: Divulgação

As mulheres estudantes, mães e trabalhadoras são as principais atingidas nesse cenário de pandemia, crise econômica e mobilidade digital de ensino. As mulheres que antes já sofriam com o machismo estrutural e toda herança patriarcal que carrega o capitalismo, na pandemia esses dois fatores se tornaram dois agravantes significativos e impactaram diretamente as condições de vida das mulheres. Vejam abaixo relatos sobre o ERE e EAD de diferentes mulheres, jovens e mães trabalhadoras.

Estudante de relações internacionais- UFF
O ensino remoto tem sido muito desgastante. Além das dificuldades dessa modalidade, temos que lidar com o cenário de crise do país. No ead, tem sido cansativo pois muitos professores mantém uma carga de leitura pesada e muitos passam atividades semanais, sendo que seria mais adequado não estabelecerem prazos para a entrega de tais atividades. As aulas pelo computador são bem desestimulantes, e é mais difícil sem um lugar adequado para estudar e com a casa cheia. O ensino remoto aqui se soma ao trabalho doméstico, principalmente em relação ao auxílio no estudo dos mais novos. Também há um sentimento de ansiedade em relação a crise que vivemos, o medo de perdemos familiares que ainda não foram vacinados para a covid, por exemplo, meu pai é professor e sempre há a ameaça de ser colocado de volta em sala de aula sem nenhuma segurança. Também, com o nosso dinheiro cada vez valendo menos, cresce a necessidade de ajudar financeiramente em casa ao mesmo tempo que a oferta de empregos e estágios também são afetados pela pandemia, trazendo assim uma insegurança em relação ao futuro.

Estudante caloura de medicina veterinária na UFF
A implementação do EAD nas universidades certamente está prejudicando os alunos, e na minha experiência como caloura nesse cenário posso dizer o quanto essas condições de ensino impactaram no meu aprendizado e na minha saúde, principalmente no meu emocional.
Já esperava o choque entre as realidades de escola e faculdade, mas ingressar nesse ano de ensino à distância tornou a experiência impossível de adaptar. Tinha muitas expectativas acerca da experiência universitária, porém todos os aspectos mudaram, e coisas como o contato com os professores, que já era difícil de maneira geral, fica muito pior e sendo caloura, sem conhecer ninguém e com o contato com colegas apesar de necessário é extremamente limitado, porque é fato que conversas pela internet não substituem as reais, a sensação que causa é de isolamento.
O volume de material é grande e diversas vezes tomou todo o tempo do meu dia. Essa rotina de estudos sem horários definidos causa muita ansiedade, algo que eu já lutava e só agravou, criando uma situação na qual estudar e absorver todo o conteúdo é praticamente impossível.
Falando também do meu curso especificamente, a anatomia animal é estudada de maneira absurda, com as vídeo aulas teóricas e programas 3D substituindo as aulas práticas, claramente um programa de computador e vídeos de dissecação não substituem o ensino em laboratório. Isso também me faz refletir sobre a qualidade dos futuros profissionais que fizeram parte significativa do curso pela internet, afinal eu vou terminar anatomia sem nunca ter colocado minhas mãos em um osso ou ter visto uma dissecação ao vivo. Esse fato só aumenta a pressão porque sei que vou ter que preencher por conta própria a lacuna deixada, herdeira desse descaso com a educação.

Estudante caloura de letras UFRJ
É muito difícil fazer esse relato, porque pra mim está muito complicado, de verdade! Porque é isso, já é difícil ter uma vida de trabalho e estudo. É muito cansativo você chegar depois de um dia inteiro de trabalho, eu trabalho como recepcionista de um hospital, o dia todo atendendo telefone, atendendo pessoas, respondendo e-mails, é principalmente difícil porque eu trabalho em um hospital e sou terceirizada, é como se eu fosse meio invisível para todo mundo, todos os dias de trabalho eu sou invisível, aí quando chego em casa e ligo o computador para acompanhar as aulas, continuo sendo invisível também! É muito difícil passar o dia todo em frente ao computador trabalhando, aí quando chego em casa tenho que sentar, estudar e enviar trabalho, é muito complicado, porque a mente não dar mais com tantas horas em frente a uma tela, então a cabeça vai parando de funcionar aos poucos. Mas pra mim o que pesou mais com o EAD é falta de conhecer as pessoas, a universidade sabe, como ela é! Por conta disso, eu não sei o que de fato estudar em uma universidade, porque é isso eu estudo através de um computador, não conheço minha turma direito, não conheço ninguém, fico me sentindo meio invisível, entendeu? Porque é isso já não bastar ser invisível o dia inteiro, sou obrigada a ser invisível quando estudo em casa também. É pesado, é pesado sim, porque são muitas horas em frente ao computador! E tem que ficar obrigando a mente a trabalhar, fazer as coisas, mandar email, a escrever trabalho. Estou pegando as matérias obrigatórias que eles dão no primeiro período então pra mim é muito difícil porque eu não conheço nada, além disso, não conheço nada do curso e das pessoas, não sei qual pessoa eu posso pedir ajuda ou qual pessoa vai me ajudar, é tipo cada um se virando na medida do possível, um exemplo, se você não sabe entrar nas aulas ou no site da UFRJ, você meio que se vira sabe, aprende na força da marra. Pra mim de tudo, de tudo é esse peso sabe, da invisibilidade enquanto estudante, não ter proporção de tudo, proporção da universidade e da própria potência da universidade e acaba que isso gera um desgaste sabe? Pra quem trabalha também é difícil ficar feliz estudando.

Estudante caloura de serviço social da UERJ!
Infelizmente a gente tem que se submeter né? Porque se não submeter, não passa nas matérias! Cara minha maior sensação de todas, é que eu estou sempre muito cansada por conta do trabalho, aí você vai estudar, ler um texto e eu e um monte de pessoas também da turma não estão acostumados com textos acadêmicos, com a linguagem acadêmica, então por conta disso, você tem que ler e reler com mais atenção e é muito difícil, principalmente no primeiro semestre, é muito difícil! E a sensação que eu tenho é q eu não estou aprendendo, você não entende, você faz um pergunta a professora responde, mas você continua sem entender, e não é porque a professora é ruim ou algo do tipo, na real é muito pelo contrário, os professores são muito lúcidos com a questão da educação né? Se você tem acesso ao portal, se você trabalha ou se você não trabalha. Eles são muitos preocupados com isso, mas infelizmente, isso não é o suficiente entende? Não depende dos professores, eles mesmo colocam que não estão contentes com esse tipo de aula e tipo de educação. É difícil, mas temos que seguir né? Sinceramente, eu sei que pode até ser meio egoísta e individualista da minha parte, mas o ERE é tão ruim que eu até preferiria as aulas presenciais, porque de fato tudo é precário e difícil demais.

Estudante de pedagogia da UERJ
Sinto-me privilegiada quando assumo que sou mulher, estudante e mãe. No alto do meu privilégio percebo que tenho um emprego, minha filha pode ficar com minha mãe para eu ir trabalhar e muitas mulheres não passam por isso.
Historicamente não é essa a verdade que nos cerca. Na pandemia, desde 2020, vivenciamos o fechamento dos sistemas escolares. O isolamento social e as medidas de prevenção deixaram muitas mulheres, mães, sem condições de arcar com o sustento da casa. A orientação de ficar em casa não foi acompanhada de medidas sociais para os trabalhadores e a população em geral. Até porque pagar $600,00 de auxílio para uma família nunca foi realmente dar condições de sobrevivência.
No meu caso eu trabalho em casa, tive que me adaptar e ficar trabalhando na sala de casa. Minha filha tem 5 anos, ela parou de ir à escola, com minha nova rotina a sacrificada foi ela. Pois eu não tinha tempo para dar atenção a ela, nem fazer as atividades da escola. Então posso afirmar que ela ficou o ano de 2020 sem estudar sim!
Tendo eu o privilégio de estar empregada, não senti mais profundamente a precarização aprofundada no contexto da pandemia do Covid-19, essa degradação e aumento da miséria que acomete os diferentes tipos de trabalhadores, nos diferentes âmbitos de atenção.
Como trabalhadora, sinto que precisamos de melhores condições de trabalho. E de modo geral, as mulheres precisam de vínculos e salários dignos para sustentar seus filhos. Gestão Pública, Gestão do Estado que garanta direitos a todos atenção adequada aos que precisam.




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