RELATO

RACISMO: "Ao entregar currículos com foto...não recebia nenhum retorno"

“Essa é a realidade de ser uma mulher negra no Brasil e no capitalismo: permanecer sempre embaixo de várias camadas na sociedade, ocupando os piores postos de trabalho, ganhando os piores salários, tendo que enfrentar jornadas duplas, triplas de trabalho ou o desemprego...A falácia de que no Brasil não existe racismo(...)”. Esse relato foi escrito a partir do grupo de estudos do curso e livro Mulheres Negras e Marxismo organizado pelo Pão e Rosas DF/Centro Oeste.

quarta-feira 21 de abril| Edição do dia

Imagem: Brasil de Fato

Mudar para uma nova cidade sempre é um desafio, independente para qual município. Isso pode-se agravar conforme algumas ‘’caixas’’ que somos posicionados pela sociedade. Ao mudar de Goiânia para Brasília, inicialmente o desejo foi procurar um emprego, pois quem sempre trabalhou não consegue ficar parado. Diante a esse foco, em permanecer ativa, comecei a entregar currículos por Brasília.

Me organizei em etapas, primeiro: o melhor dia para entregar currículo; segundo: divisão por região administrativa; terceiro: foco em escolar para educação infantil e ensino fundamental I. Assim foi feito, durante meses sai por Brasília de 2 a 3 vezes por semana, com 10 a 15 currículos por dia.

Com mais de meses entregando currículo, eu não entendia o motivo de não ser chamada para nenhuma entrevista. Em minha cabeça, ecoava alguns pensamentos, tais como: “estamos em crise”, “logo vou receber uma ligação”, “será que meu currículo está bom o suficiente?”. Desse modo, sempre procurei algum problema existente em mim ou no currículo.

Conversando com uma amiga, que mora em Goiânia, disse que já estava aflita, pois eu entregava currículos e ninguém me ligava, não mandava e-mail. Questionei se ela observava algum problema, pois eu não via nada que pudesse atrapalhar. Isso posto, chegamos a conclusão em tirar a foto que estava estampada, prontamente fiz isso no final de semana.

Novamente me organizei em algumas etapas e assim sai entregando, só que agora sem foto. Em pouco tempo, algo ’’incrível’’ aconteceu, fui chamada para participar de processos seletivos em algumas escolas, comecei a fazer entrevistas, testes e até cheguei a ministrar aulas para crianças pequenas por algumas semanas.

Pode-se dizer que algo surpreendente e magnífico aconteceu, como antes ao entregar os currículos com fotos e não recebia nenhum retorno e a partir do momento que a removi comecei a participar de processos seletivos. É exatamente isso, as caixas que somos colocados na sociedade.

Não houve mágica alguma, aconteceu o que sempre ocorre com pessoas que não se enquadram em um padrão definido pela burguesia, pelos patrões, que exclui sempre a grande massa trabalhadora que no Brasil é uma maioria negra e feminina.

Essa é a realidade de ser uma mulher negra no Brasil e no capitalismo: permanecer sempre embaixo de várias camadas na sociedade, ocupando os piores postos de trabalho, ganhando os piores salários, tendo que enfrentar jornadas dupla, triplas de trabalho ou o desemprego...A falácia de que no Brasil não existe racismo, pois só tem mesmo nos EUA, como disse Mourão, é uma grande mentira que só convém aos capitalistas e golpistas para continuarem nos atacando, super explorando e oprimindo.

A luta histórica dos trabalhadores onde as mulheres negras sempre foram de linha de frente mostram o caminho! Nos inspiremos nela, pois o capitalismo, o racismo e o patriarcado não vão cair sozinhos, mas com a força da nossa luta e organização a gente vai ter que derrubá-los.


Esse relato foi escrito a partir do grupo de estudos regional do curso e livro Mulheres Negras e Marxismo organizado pelo Pão e Rosas DF/Centro Oeste e impulsionado pelo Campus Virtual do Esquerda Diário. Inscrições gratuitas aqui. Participe da próxima reunião que terá o tema "Negras no topo?", dia 02/05 às 16h. Tem interesse? Mande uma mensagem para (61)99903-2711 (Luiza)

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