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COLUNISTA | Quem manda na Petrobras?

Quem manda, quem mandava e quem deveria mandar na Petrobras? A análise do que a acontece na Petrobras permite ver parcialmente o que acontece em todo o país.

Leandro LanfrediRio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 22 de fevereiro | Edição do dia

Imagem original: Ueslei Marcelino

A Petrobras é a maior empresa do país. Ela serve como um caleidoscópio para ver todo país. Como no brinquedo, com distorções e refrações, enxerga-se várias imagens conforme inclina-se o aparelho. Responder quem manda na Petrobras ajuda a responder quem manda no Brasil.

Quem manda, de um jeito o outro, é Wall Street. O Brasil é um país subordinado ao imperialismo, com maiores ou menores margens de manobra. O golpe institucional visou aumentar essa subordinação. Sob o PT os lucros do petróleo enriqueciam Wall Street, mesmo havendo desenvolvimento de uma indústria nacional e aumento do que ficava no país. Desde a Lava Jato e o impeachment a meta é que o enriquecimento estrangeiro seja quase 100%. E para isso, para as reformas da previdência e trabalhista, que o STF, os militares, a Globo, marcharam juntos boa parte do tempo.

Como que Wall Street manda se a Petrobras é estatal? É uma estatal but not really. Como todas empresas de capital aberto no país ela tem ações que dão direito a voto, e ações que recebem prioridade nos lucros. O governo federal tem maioria só no voto. O “capital total” da empresa é 43,11% investidores “não brasileiros”, 36,75% governo brasileiro, 20,14% “investidores brasileiros” e o restante no varejo. Ou seja, a Petrobras é administrada para gerar lucro para Wall Street e Bovespa. Os presidentes e diretores são zeladores para outros donos. O petróleo não é nosso.

Tentando evitar o golpe, Dilma quis mostrar serviço no aumento da subordinação, negociou com Serra e Renan Calheiros alterações na lei de Partilha, tentou reduzir a porcentagem da Petrobras no pré-sal. Porém os interesses que moviam a Lava Jato, os tucanos, a Globo, queriam mais...e assim chegamos ao contorno da forma atual da subordinação.

Outra parte da alteração da política na Petrobras nos últimos anos toca os preços internos. Em 2013, em meio aos protestos das jornadas de junho, Dilma determinou que o preço dos combustíveis acompanharia o mercado mundial mas haveria reajustes só a cada 4 ou 6 meses, tentando controlar o descontentamento social. A decisão contrariou Guido Mantega e o mercado financeiro. Em 2015, seu governo voltou atrás: os reajustes tornaram-se mais frequentes e impostos foram reduzidos para atenuar o impacto. De Dilma 2 ao reajuste diário de Temer foi um passo. O mecanismo estava pronto, podia ser empregado para subordinar completamente o preço nacional ao interesse estrangeiro, bastava colocar metade das refinarias à venda como está acontecendo agora.

Essa determinação de seguir o preço internacional não tem nada a ver com a capacidade de produção ou os custos nacionais. A Petrobras vende para suas refinarias o petróleo ao preço que ela exporta, e não do custo de produção, e aí ela refina e vende como se estivesse em Nova Iorque. Assim, quando uma Mubala Capital tome as instalações da Bahia seu lucro será máximo. Com diferenças no cálculo e prazo há continuidade de Dilma a Bolsonaro na política de preços.

Algo mudaria agora, passaríamos a um efetivo controle de preços? Será isso que Bolsonaro fará ao intervir na Petrobras? Se confiarmos na Globo News sim. Mas isso não tem nada a ver com a realidade do que os militares já fazem na Petrobras (afinal já presidiam o Conselho de Administração e o Ministério de Minas e Energia e assinaram embaixo de cada medida tomada por Castello Branco) e isso contradiz o que o próprio Bolsonaro já declarou.

Ele não pretende interferir na política de preços, ou seja, continuará a vincular o diesel ao preço internacional, alterará os impostos sobre alguns combustíveis – deixando a gasolina de fora– e fará o general Silva e Luna realizar reajustes combinados, previsíveis (bi-anuais como os de Dilma?) Mexerá um pouco nos impostos, mas o essencial será mantido: cada brasileiro pagará a conta do lucro dos estrangeiros donos da Petrobras ou das privatizações.

É verdade que a crise dos combustíveis e da Petrobras se insere num contexto muito mais ampliado de contradições no governo Bolsonaro e entre as forças e instituições do golpismo. Temos militares X STF X bolsonarismo e agora a novidade, uma oposição entre os interesses do mercado financeiro e os interesses eleitorais de Bolsonaro. Essa crise, essa divisão entre os “de cima”, abre uma oportunidade para aparição de uma voz dos “de baixo”.

Para aproveitá-la, a classe trabalhadora tem que entrar em cena. Em primeiro lugar os petroleiros. Mostrar que os combustíveis estão caros devido à privatização. Mas não basta questionar a privatização e erguer um mito de soberania sob o PT. É preciso ir além do questionamento das formas da subordinação. Fazer que quem mande nesta imensa empresa sejam os trabalhadores brasileiros e que ela seja 100% estatal. Assim, alterando a classe social e nacionalidade de quem manda na maior empresa do país, também mostraríamos, como no caleidoscópio, que é possível se enfrentar com Wall Street, na Petrobras e, no país.




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