Política

Quem apoia Alexandre Kalil para a reeleição em Belo Horizonte?

Kalil conta com o apoio de partidos reiteradamente contrários aos interesses dos trabalhadores e da maioria da população, como o MDB, DC, PP, PV, Rede, Avante e PDT. Essa nota traz um pouco das posições políticas de cada um afim de compreender o projeto que Kalil quer para a reeleição em BH.

Elisa Campos

Coordenadora do CAFCA-UFMG

sexta-feira 25 de setembro| Edição do dia

Foto: Samerson Gonçalves/UOL

Alexandre Kalil é o atual prefeito da cidade de Belo Horizonte e candidato a reeleição nas próximas eleições municipais de 2020 pelo PSD. Fuad Noman é o vice-prefeito do mesmo partido, ex-secretário da Fazenda de Kalil e também do primeiro mandato de Aécio Neves (PSDB), reconhecidamente apoiador do golpe institucional de 2016 e envolto em escândalos de drogas e corrupção.

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A prefeitura de BH tem um dos maiores orçamentos das capitais brasileiras, de R$13,7 bilhões. Apesar disso, na prefeitura de Kalil a população carece de serviços básicos como moradia, água e trasporte.

No início de 2020, as fortes chuvas assolaram a cidade deixando 58 mortos e 8.259 pessoas desabrigadas. A falta de água e saneamento nos bairros periféricos continua como uma triste tradição, e até mesmo em meio a pandemia em que um dos principais meios de evitar a contaminação é através da lavagem recorrente das mãos, os moradores de bairros como Esmeraldas e Santa Quitéria precisaram protestar contra a falta de água e o descaso do prefeito. As passagens de ônibus em BH estão entre as mais caras do país, a R$4,75, ainda que durante a campanha Kalil tivesse prometido que iria “enfrentar a máfia do transporte”, o que se mostrou apenas mais uma de suas verborragias demagógicas.

Entre os candidatos a prefeitura que até agora oficializaram sua candidatura na Justiça Eleitoral, Kalil é o que tem o maior patrimônio declarado, de R$ 3.689.634,19.

Durante a pandemia, Kalil teve uma atuação lamentável. Apesar de se dizer a favor do isolamento social, o prefeito não cumpriu o mínimo para evitar as contaminações e mortes na cidade (como a testagem massiva), e sequer para os profissionais da saúde garantiu a distribuição adequada de EPI’s (equipamentos de proteção individual) ou o afastamento dos grupos de risco.

Ao tornar obrigatório o uso de máscaras para a circulação na cidade, Alexandre Kalil disse, assim como em muitas outras ocasiões, que a população era a principal culpada pela contaminação, e sugeriu que as máscaras fossem feitas “com meia, com camisa, faz com fralda”.

Algumas declarações de Kalil nos últimos tempos incluíam uma tímida divergência com o governo Bolsonaro e Zema (Novo) sobre o elemento mais básico em relação a pandemia: sua existência. A postura negacionista encontrou oposição em alguns setores dentro dos governos, e muitos dos que até então estavam de mãos dadas com Bolsonaro e capachos como Zema tentaram se diferenciar a partir desse mínimo desacordo. Kalil é um desses. E mesmo com algumas querelas, declarou em agosto que “do governo federal a prefeitura de BH não tem nada a reclamar”, quando o país já ultrapassava a desastrosa marca de 100 mil mortes, alcançando hoje mais de 140 mil vidas perdidas levianamente.

Aliás, Kalil tem como prática “tirar o corpo fora” de posições que considera polêmicas sobre os setores desse regime de extrema-direita que vivemos, por ser componente dele e querer mantê-lo a todo custo. A prática de desresponsabilizar atores fundamentais das políticas que promovem não é de hoje.

Assim como desresponsabilizou o governo federal atual na pandemia, também o fez com Michel Temer (MDB) lopo após o golpe institucional de 2016, que como detalharemos mais a frente no texto, levou a cabo diversos ataques aos direitos dos trabalhadores. Em entrevista reconheceu Temer como presidente e disse que o considerava “uma grande oportunidade de mudar a história do país”.

De fato, toda a estrutura do golpe, que envolveu os setores mais reacionários do judiciário e do Congresso, foi uma grande oportunidade para permitir que a extrema-direita se fortalecesse, levando inclusive a que Bolsonaro possa hoje ser presidente.

Não é essa, no entanto, a mudança histórica que precisamos, nem a que queremos. Hoje, dia 25 de setembro, somente em Belo Horizonte, são 39.892 casos confirmados e 1199 mortes pela covid-19. Infelizmente, sabemos que os dados oficiais no país inteiro são subestimados.

Quem apoia Alexandre Kalil?

Para a reeleição, Kalil conta com o apoio de partidos reiteradamente contrários aos interesses dos trabalhadores e da maioria da população, como o MDB, DC, PP, PV, Rede, Avante e PDT, grupo batizado como “Coragem e trabalho”.

O MDB é o partido do golpista Michel Temer, que impôs o teto de gastos que congela por 20 anos os investimentos em saúde, educação e previdência, e a reforma trabalhista que retirou direitos históricos dos trabalhadores. Também tem entre seus membros Eduardo Cunha, um dos principais articuladores do golpe de 2016 e notório inimigo das mulheres. Ele elaborou projetos que restringiam o atendimento a vítimas de estupro e reduziam o já parco direito ao aborto legal, abrindo espaço até mesmo para a criminalização do método anticoncepcional da pílula do dia seguinte.

O DC (Democracia Cristã) é o partido que no programa disponível em seu site faz coro ao projeto político que perpetua a desigualdade e desmonta os serviços públicos, cujas consequências mais drásticas se expressaram na pandemia, em “apoio a livre iniciativa, fortalecendo a empresa privada, estimulando a empresa nacional e limitando a ação do Estado aos campos de sua natural atuação”. Também é hoje um dos partidos que apoia a candidatura para a prefeitura de São Paulo de Joice Hasselmann (PSL), fervorosa apoiadora de Bolsonaro em 2018, e apesar do afastamento entre ambos, ela continua apoiando as pautas do governo, como foi com a reforma da previdência e recentemente com a reforma administrativa.

O PP (Partido Progressista) tem entre seus membros ministros da área econômica do governo no período sangrento da ditadura militar, como Antônio Delfim Netto entre outros, e está atualmente na base de apoio de Bolsonaro no Congresso. Em 2018 foi um dos partidos mais investigados por corrupção, em que 21 dos 51 deputados do PP foram indiciados por crimes milionários.

O PV (Partido Verde) defendeu o golpe institucional de Dilma Rousseff (PT) junto a todas as alas da extrema direita, em consonância com o projeto do qual Bolsonaro é resultante, e que visava atacar os direitos dos trabalhadores de maneira mais intensa do que os governos do PT já faziam.

A Rede tem como sua principal porta-voz Marina Silva, que recebeu uma doação de R$1,25 milhão da Odebrecht, empresa investigada por corrupção, para a campanha de 2014 (assim como Dilma, cabe lembrar). Foi uma ferrenha apoiadora da Lava-Jato de Sérgio Moro, sugerindo inclusive que essa investigação que se mostrou obviamente arbitrária com as conversas vazadas dos procuradores fosse aplicada à legislação ambiental.

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O Avante apoiou e compôs o governo de Paulo Serra (PSDB) em Santo André (SP), apoiador de Bolsonaro, assim como a Rede também o fez. Recentemente, os três deputados do Avante na ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) Bosco, Fábio Avelar de Oliveira e Roberto Andrade apoiaram e votaram a favor da nefasta reforma da previdência estadual proposta pelo governador Romeu Zema (Novo), assim como fizeram também em outros estados como São Paulo, junto de Doria (PSDB).

O PDT tem como seu principal porta-voz Ciro Gomes, muitas vezes confundido como um político de esquerda, mas que no segundo turno das eleições de 2018 com Bolsonaro a frente nas pesquisas resolveu “não tomar um lado”, preferindo se ausentar em Paris. Naquele ano Ciro foi candidato a presidência com a latifundiária Kátia Abreu como vice, conhecida como “motosserra de ouro” ou “miss desmatamento” por seu apoio irrestrito ao agronegócio, contrário às vidas e aos direitos indígenas. Em junho desse ano o partido deu a orientação aos parlamentares para “votarem livremente” no novo marco regulatório do saneamento básico, o que garantiu vários votos favoráveis a privatização da água, inclusive do irmão de Ciro, Cid Gomes. O assessor econômico de Ciro Gomes, Mauro Benevides Filho, afirmou que das 148 estatais brasileiras cerca de 77 poderiam ser privatizadas em um eventual governo do pedetista, assumindo o DNA anti-classe trabalhadora do partido. Vários dos membros do PDT também foram investigados por corrupção.

Essas são apenas algumas das posições desses partidos e atores políticos que hoje apoiam Alexandre Kalil para a reeleição em Belo Horizonte. Eles têm ainda uma lista infindável de ataques aos trabalhadores, mulheres, negros, indígenas e LGBT’s. O apoio desses setores a Kalil não é mera coincidência: diz do projeto afim que constroem em cada município e estado, para garantir a continuidade da dominação, da desigualdade e da violência contra a população.

Pois Kalil é a alternativa para os empresários dos transportes e dos monopólios privados, os patrões dos serviços e os grandes capitalistas que comandam as fábricas e indústrias dos arredores. Nessas eleições que acontecem em meio ao governo reacionário de Bolsonaro, a unidade para derrotá-lo não pode se dar com seus melhores amigos, mas sim entre os trabalhadores e todos os setores oprimidos da população. Mas também para muito além das eleições, a juventude que quer BH menos repressiva e mais bela e aberta para seus saraus, poesias e artes, junto aos que carregam BH nas costas com muito suor e batalha, precisarão se enfrentar com a lógica de uma cidade feita e governada para os capitalistas.

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