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Luta pela educação | Que cada escola e comunidade escolar se organize em comissões para amplificar nossa força, alcance e voz

O Movimento Nossa Classe Educação quer debater com as educadoras e educadores, trabalhadoras das escolas, estudantes e familiares sobre a necessidade de unir cada comunidade escolar, se organizar e fazer frente ao turbilhão de temas, problemas e potencialidades que vivemos nas escolas.

sexta-feira 27 de agosto | Edição do dia

Estamos passando por uma pandemia que com certeza em algum momento fez você sentir um nó na garganta. Vivemos com um governo negacionista, onde Bolsonaro, militares e o restante da corja de extrema direita vomitam retorica golpista e ataques por onde passam, e nisso não estão sozinhos, contam com os demais governos locais que aproveitam a pandemia e o momento que passamos de insegurança, desemprego e fome para avançar contra as nossas conquistas históricas e coisas elementares com a saúde e a educação, que nunca é esquecida por eles na hora de planejar as “maldades”.

Também nos deparamos com a imensa paralisia das nossas ferramentas de luta tradicionais, os sindicatos, que viram as costas para cada foco de resistência dos trabalhadores que se levantam, fazem de tudo para isolar e deixar cada luta ser derrotada, e tudo para nos manter na espera passiva da eleição de Lula em 2022.

Enquanto isso, o retorno inseguro das aulas presenciais foi uma imposição nas escolas já que não fomos ouvidos, nós que conhecemos cada detalhe da vida escolar. Por isso, acreditamos na importância de que cada escola tenha a sua comissão de segurança e higiene, entre professores, funcionários, alunos e pais, para dizer e brigar pelo que achamos melhor. E queremos chamar cada comunidade escolar a batalhar por isso.

Nós, as professoras e professores, que sabemos a realidade das escolas

Nós somos aqueles que, desde o primeiro momento da pandemia e nos primeiros meses da maior crise sanitária que ainda assola o país, nos preocupamos com a situação dos nossos alunos, crianças e jovens e não por acaso as “vaquinhas” para comprar cestas básicas para os alunos surgiram em várias escolas, vendo a situação de muitas famílias que sem as merendas escolares não teriam como alimentar seus filhos. E isso diante da negligência total dos governos, com a morosidade e as “soluções” pífias que deram, como Doria com auxílio de R$55,00 que não compra o mínimo para passar uma semana, frente a inflação que vivemos. E se não bastasse, não hesitaram um segundo em aumentar a fila de desempregados no país demitindo trabalhadoras terceirizadas das escolas no meio da pandemia, colocando nas ruas essas trabalhadoras, em sua maioria mulheres negras que sustentam suas famílias, muitas delas mães de nossos alunos. Para depois fazer demagogia oferecendo empregos precários e temporários, além de mal remunerados, como no programa Bolsa do Povo de Doria ou o Programa Operação Trabalho de Covas/Nunes.

Denunciamos para todos a aflição de ver nossos estudantes sem a menor condição de acompanharem o ensino remoto, seja por falta de equipamentos ou internet em casa, seja por dificuldades sociais, como a fome, casas sem espaços adequados, sem que os pais pudessem acompanhar os estudos já que precisam trabalhar. Tudo isso também não é uma preocupação dos governos e pior vimos Bolsonaro vetando um projeto que garantiria internet gratuita para os estudantes, ou seja, o mínimo. Nós exigimos equipamentos e condições para os nossos alunos, enquanto a prefeitura de São Paulo, com Covas e depois Ricardo Nunes, fazia propaganda na televisão, mas atrasava absurdamente com a entrega dos tablets para as crianças, assim como a infraestrutura de rede que tanto fez propaganda e até agora funciona precariamente.

Também fomos enfáticos ao dizer que as escolas não tinham, e seguem sem ter, condições estruturais básicas para ter segurança sanitária, o que foi sumariamente ignorado por absolutamente todos os governos. Em São Paulo, Doria gastou apenas 5% da verba destinada para reformas estruturais, o que respondeu dizendo que repassou o PDDE, verba para manutenção e pequenos consertos, além de compra de equipamento para as escolas – que aliás estão sendo comprados para garantir a implementação da reforma do ensino médio – mas não é disso que se trata. Estamos falando de escolas que seguem sem as salas de aula terem ventilação adequada, com banheiros apertados e sem divisórias, que dificultam o distanciamento. Escolas em que as caixas d’água não duram e ao final do dia as torneiras estão vazias. Escolas como a minha na zona norte de São Paulo, que não tem nenhum espaço ao ar livre para os estudantes, nem mesmo uma quadra.

Sabemos que não virá de Bolsonaro, os militares, Doria e os demais governadores, nem mesmo dos parlamentares a solução para esses problemas e ao contrário disso, mesmo fora das escolas, o plano desses é garantir os lucros de empresários, banqueiros e magnatas do agronegócio, e para garantir a mais profunda tragédia social com a fome ardendo na barriga de mais da metade da população, desemprego que só tende a crescer, retirada paulatina de direitos e a disseminação de que o Brasil venceu a pandemia. Como é possível falar em vitória quando perdemos quase 580 mil pessoas? Os números diminuíram em relação aos números anteriores que eram chocantes, mas seguimos com quase 800 mortes diárias no país e com a ameaça de novas variantes, já que apenas 27,24% da população está completamente imunizada. Essa é a situação da população, conhecida por todos nós.

Qual o caminho para combater a situação que vivemos?

Os governos seguirão descarregando em nós, nas nossas costas, o peso da crise econômica, social e sanitária e sabemos disso. Se temos essa consciência, então o que precisamos fazer frente a isso? Por qual caminho e quem são nossos verdadeiros aliados?

A primeira coisa que precisamos ter claro é que os governantes e patrões compreendem bem de onde vem a força da classe trabalhadora: em primeiro lugar de serem os motores de tudo - produção, serviços e o funcionamento da sociedade; e em segundo lugar de sermos uma imensa maioria, e é exatamente por isso que todo o esforço deles é nos separar, seja por categorias de trabalho ou desempregados, seja pela cor, sexualidade e gênero, seja pelos próprios problemas que enfrentamos.

Um exemplo dessas inúmeras divisões que querem impor contra nós é justamente na educação. Primeiro querem nos dividir, os professores, em redes de ensino, em sindicatos separados, em diferentes formas de contratação ou a função que alguns professores exercem dentro das escolas, como os coordenadores etc. Ai querem nos dividir ainda mais nos separando dos demais trabalhadores das escolas que dividem conosco esse pesado cotidiano. Querem nos deixar apartados dos trabalhadores do apoio, limpeza, cozinha, e mais, entre efetivos, precários e terceirizados. Lamentavelmente as direções de nossos sindicatos corroboram essa divisão. Depois disso são mais ardilosos ainda e fazem todo um operativo na mídia, nas “formações” oferecidas pelos governos, nas redes sociais e onde mais puderem para dividir os trabalhadores da educação e os estudantes e suas famílias. Inclusive Rossieli Soares chegou a dizer que a imposição do retorno inseguro era “vitória dos estudantes”, com certeza ele não está falando dos milhares que perderam mães, tias, pais e avós para a Covid como podemos ver em cada sala de aula em funcionamento hoje. Está aí nossa primeira trincheira contra o governo, nos colocar contra essa divisão.

Todos os dias ouvimos de colegas e amigos educadores histórias tristes de alunos que choram de fome, que perderam parentes, que foram despejados e desalojados de casa com suas famílias - é um mundaréu de tristezas. É impossível que fiquemos imunes ou indiferentes, por isso o nosso vínculo com os alunos não é apenas pedagógico – o que é muito importante, sim – mas é também social, e temos a plena certeza que, apesar de todos os problemas que enfrentamos nas escolas, é na nossa juventude que confiamos como uma potente força transformadora. Estamos espalhados em cada bairro, cada vila, cada comunidade, por isso a nossa unificação é fundamental e essencial se queremos enfrentar os desmandos dos governos com a educação, mas também contra os trabalhadores e suas famílias. Acirrar esse vínculo e transformar em organização é o grande medo deles e o nosso grande trunfo.

E como podemos começar a fazer isso agora?

Como mostramos no início desse texto, nós educadores somos os que mais conhecem de perto, “como a palma de nossa mão”, os problemas de dentro das escolas e da comunidade escolar em que trabalhamos. A pandemia e a crise social e sanitária só escancararam isso. Por isso, nós do Esquerda Diário e do Movimento Nossa Classe Educação, marcamos nossa posição contra o retorno presencial inseguro, defendendo que só a comunidade escolar pode decidir sobre os rumos das escolas; sempre dissemos que sabemos da importância do retorno, mas que é absurdo impor isso a qualquer custo. Nós temos o direito de decidir como e quando fazer isso.

E esse é o papel das comissões de segurança e higiene que estamos propondo para cada escola, que sejam estreitamente ligadas as famílias e estudantes, e que possam debater e exigir o que precisamos para garantir a saúde e segurança da comunidade escolar, como protocolos, itens básicos de proteção individual, mas não só.

Exigir dos governos que cada posto de saúde perto das escolas ofereça para toda a comunidade escolar testes para Covid, inclusive periódicos, já que sabemos que muitos são assintomáticos ou quando estão com algum sintoma não conseguem facilmente testes nos hospitais e não podem pagar por eles em laboratórios particulares. Inclusive professores que não conseguem fazer o teste apenas com uma carta da direção da escola, mesmo para aqueles que tem direito ao IAMSPE, porque grande parte da categoria é precária e não tem direito ao plano de saúde. Exigir o completo esquema vacinal para todos, com a quebra das patentes para que isso seja possível rapidamente, e as reformas estruturais indispensáveis para conter a pandemia, para resolver os mais diversos problemas nas escolas, como a falta de ventilação, acessibilidade e a incapacidade das escolas de garantirem o mínimo distanciamento quando necessário. Essas medidas devem ser acompanhadas também com maior autonomia e democracia dentro das escolas, para debatermos e decidirmos também as questões e problemas pedagógicos, como o desmembramento das turmas para acabar com as salas superlotadas e para que cada estudante tenha o direito de recuperar o que o governo tirou nesse mais de um ano de pandemia, porque ao contrário do que afirmam Doria, Rossieli e Ricardo Nunes, nós rechaçamos qualquer determinismo de que os prejuízos pedagógicos e sociais das crianças são irreversíveis, confiamos na nossa molecada e no trabalho dos professores e pedagogos.

Defendemos as comissões de segurança e higiene eleitas nas escolas, pela potência que pode ser organizar a comunidade escolar frente aos absurdos ataques dos governos e os problemas sociais de um regime carcomido pelo golpe institucional de 2016, que só deteriorou ainda mais nossas condições de vida. Sentimos na pele a falta de trabalho ou os empregos ultra precários sem direitos, com nossos colegas precários e terceirizados do nosso lado, vemos nossas crianças trabalhando para ajudar em casa, a carestia de vida, os problemas sanitários. Situações enfrentadas pela imensa maioria da população, e se sofremos todos porque não nos juntamos para defender a vida das famílias trabalhadoras?

Damos aqui exemplos: se as comunidades escolares levam a diante essas comissões, não poderiam nelas colocar adiante suas opiniões contra a reforma trabalhista e seus apêndices recém aprovados (MP 1045), que ao precarizar o trabalho e a vida das famílias deixa nossos alunos em piores condições para poder aprender e aproveitar plenamente o espaço escolar? E se dezenas de escolas instituem essas comissões, debatam e tirem nelas declarações e ações contra as reformas trabalhistas, da previdência, do ensino médio, pela exigência da efetivação sem concurso de todos aqueles trabalhadores precários ou terceirizados das escolas etc., não seria um grande passo na nossa organização, na defesa da mínima garantia de ter condição de viver? Além disso, seria um golpe importante nos planos dos próprios governos para deteriorar nossos direitos e vida.

Temos que organizar as comunidades escolares, inclusive com trabalhadores de outras categorias, pela necessidade da defesa da nossa saúde e segurança, e nesse processo podemos forjar a unidade entre os trabalhadores para lutarmos juntos.

Qual o potencial dessas comissões e porque nós, educadores, precisamos defender essa ideia?

A situação exige que a gente se junte para reivindicar e debater esses problemas que falamos aqui, mas que são conhecidos por todos, e essa situação de crise não vai se resolver apostando nas mesmas instituições desse regime golpista, como o parlamento, as eleições e o judiciário. Querem nos fazer acreditar, PT e na mesma onda os partidos à esquerda como PSOL – que a saída é apostar em alianças com setores de oposição pontual com Bolsonaro, como a direita tradicional e neoliberal, para vencer uma eleição no final de 2022 e eleger Lula para que ele administre esse mesmo regime político que retirou nossos direitos e nos jogou a própria sorte em meio a uma pandemia.

Outra certeza que temos é que Bolsonaro, Mourão, militares, Doria, Nunes e os demais prefeitos e governadores, bem como os parlamentares do Centrão e da direita tradicional, podem bater boca o quanto quiserem entre eles, mas o fato é que estão todos juntos com um objetivo comum de despejar nos nossos ombros a crise econômica e pandêmica, e fazem isso aprovando o maior número de reformas, medidas provisórias e tudo que for necessário pra retirar direitos, privatizar e desmatar, em nome de um programa que defenda os interesses dos banqueiros, empresários e do agronegócio.

E se eles defendem um programa e uma agenda, como gostam de chamar, em comum, portanto, nós também temos que ter o nosso. Se nos organizamos nas nossas escolas para debater os problemas que nos afligem cotidianamente - junto com nossos estudantes e seus familiares, e outros trabalhadores - não estaremos mais bem posicionados para as lutas ainda mais duras que estão por vir, contra todas essas reformas antioperárias, contra as privatizações, contra o teto de gastos e para conquistar as demandas dos povos indígenas, a população negra, mulheres, LGBTQI+ e mesmo os ataques mais estruturais à educação?

Podemos entender essas comissões organizadas nas nossas escolas como uma “pequena” preparação, mas que é enorme na perspectiva de começar a organizar nossa classe para enfrentar não só Bolsonaro, Mourão e os militares que colocam as asinhas de fora na retorica golpista, mas todo o regime político do golpe de 2016, governadores, prefeitos, judiciário e Congresso, todos atores atuantes e determinantes no processo que nos trouxe até essa situação absurda que vivemos. E também impor o programa de revogação de todas as reformas, privatizações e do teto dos gastos. Impor inclusive aos nossos sindicatos, que precisam reconhecer essas comissões como importantes instancias de organização das bases das categorias, ao mesmo tempo que precisa romper com sua extrema passividade frente a tudo que passamos, para debater em cada local de trabalho e em cada categoria um plano de lutas real, que saia das redes sociais e acumule forças para uma greve geral.

Nós temos a convicção de que aprofundar essas experiências organizacionais nas comunidades escolares pode ser um primeiro passo para que esses exemplos se generalizem e nos deixe em melhores condições para as lutas que virão e para colocar abaixo o regime político, sem confiar nas instituições que já provaram que não estão do nosso lado e apostando nas nossas forças, que nunca deixaram de existir, só precisam serem colocadas em campo novamente.

É esse chamado que fazemos às professoras e professores, trabalhadores da educação efetivos, precários e terceirizados, estudantes e pais de alunos.

Fotos: Mobilização das escolas na zona norte de São Paulo em 2017




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