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Eleições EUA

Qual será o significado internacional das eleições nos Estados Unidos?

segunda-feira 2 de novembro| Edição do dia

As eleições estadunidenses, que ocorrem no centro do capital e do imperialismo, terão impacto global inquestionável. A escolha entre Trump e Biden oferece à classe trabalhadora internacional um cenário de perda e reafirma o declínio do Império Americano.

Em apenas dois dias, o mundo estará assistindo para ver os resultados de um ano eleitoral tumultuoso com tudo menos normalidade. Desde que começou a corrida eleitoral para a presidência, as tendências rumo a uma crise orgânica, iniciadas pela crise global da “ofensiva neoliberal”, se aprofundaram nos EUA após o começo da pandemia do Covid-19, a desaceleração econômica sem precedentes e o movimento contra a violência policial.

Além das fronteiras do imperialismo estadunidense, o crescente número de levantes populares da Nigéria à Bielorrússia abriu um período de instabilidade implacável, particularmente nos países periféricos atingidos com mais força pela pandemia e pela crise econômica. Essa situação internacional delicada e convulsiva é complexificada pela escalada do confronto entre os EUA e a China em um cenário de declínio da hegemonia dos EUA.

Estas fontes de tensão foram inauguradas em um período de desordem geopolítica que o imperialismo americano precisa confrontar enquanto tenta se reafirmar. Como debates recentes tem demonstrado, Biden e Trump são dois lado de uma mesma moeda imperialista. Ainda assim, esta eleição continua sendo crucial para a dividida classe dominante dos EUA, que enfrenta uma escolha entre a aposta mais moderada e confiável de Biden para liderar o Império ou a marca Trumpista instável e imprevisível de política externa.

Como os dois candidatos do capital se comparam

O trumpismo se ergueu das cinzas da Grande Recessão como uma reposta ao aumento da polarização social e econômica gerado pela crise de 2008. Na política externa, as tentativas descaradas de Trump de desfazer o legado da ordem liberal multilateral que dominou o imperialismo dos EUA no período anterior expôs a crise dos partidos burgueses que não foram capazes de manter a hegemonia centrista.

A agenda “America First” de Trump, que desafiou a crescente internacionalização da produção e coordenação entre a burguesia global, operou sob as limitações de um pano de fundo polêmico para o imperialismo estadunidenses, que por um lado encara a relutância de setores do capital para recuperar a prosperidade trazida por maior integração econômica, mas por outro lado encara o crescimento lento e a deterioração social.

Estes elementos contraditórios podem explicar o discurso reacionário e nacionalista de Trump. Seus comentários sobre “bombardear a merda do ISIS” são inflamatórios e perigosos, mas sobretudo, esses comentários estão dentro dos parâmetros da política externa imperialista estadunidense que também produziu as guerras aventureiras de Bush no Oriente Médio e Obama - o “rei dos drones”.

Como legitimador de uma base xenófoba e racista de direita e uma manifestação do imperialismo estadunidense mais agressiva e instável, a obsessão de Trump com um mundo unipolar não passou desapercebida. O abandono quase total de Trump do multilateralismo em busca de uma folha em branco do "imperialismo brando" ao estilo de Obama mudou o terreno geopolítico enquanto os EUA tentam impor seus interesses no exterior e recuperar seu domínio.

Destacadamente, Trump tem adotado uma abordagem bilateral para a política comercial em uma tentativa de tentar ganhar concessões para os Estados Unidos e países individuais. O vai e volta da “guerra comercial” com a China, uma marca do bilateralismo de Trump, é uma tentativa de apaziguar uma base que é profundamente cética com o projeto de globalização, e responsabiliza países como a China pela queda nas suas condições de vida. Ao mesmo tempo, para os Estados Unidos, as tarifas impostas à China também são uma tentativa estratégica de minar seus avanços tecnológicos.

Essa escalada nas relações continua sendo uma profunda fonte de tensão entre os Estados Unido e a China. Previsivelmente, dado o relativo crescimento da China em comparação a outros poderes globais, sua influência crescente em lugares que antes eram considerados “quintal dos Estados Unidos” e a recente recuperação econômica chinesa, Biden tenta alcançar a direita de Trump ao buscar uma linha agressiva com o principal adversário dos Estados Unidos.

Mais perto de casa, as implicações das disputas comerciais da era Trump podem ser vistas na renegociação do NAFTA, outra promessa política para a base de Trump. O sucessor do NAFTA, o recentemente aprovado USMCA, garante maiores vantagens para os EUA e a imagem de Trump como um negociador linha-dura.

Para além do bilateralismo, Trump também tomou caminhos unilaterais, desfiando ainda mais os laços geopolíticos que foram estabelecidos no auge do imperialismo dos EUA após a Conferência de Yalta. O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani por um ataque de drone estadunidense e o repúdio do tratado nuclear com o Irã reflete a unilateralidade da abordagem de política externa de Trump. O unilateralismo intensificado sob os termos de Trump na presidência, ainda que também tenha sido um traço definitivo da administração neoconservadora de Trump, polarizou ainda mais a cena geopolítica.

Ainda que os objetivos de Biden se diferenciem apenas levemente dos de Trump, a estratégia de Biden para questões internacionais tem sido injetar alguma aparência de estabilidade no regime bipartidário em crise. O projeto “diplomacia primeiro” de Biden para restaurar a “Excelência Americana” inclui promessas de voltar a fazer parte da Organização Mundial da Saúde, abandonada por Trump e convocar uma “cúpula mundial pela democracia” no seu primeiro ano de mandato. A aparência de Biden como um confiável “comandante em chefe” para o Império diminuído lhe deu o apoio do establishment militar sobre um Trump mais volátil.

Em troca, Biden jurou aumentar os gastos militares, mesmo depois dos gastos militares serem programados para crescer em 2 trilhões de dólares na próxima década sob medidas aprovadas pela administração de Trump. Talvez Biden esteja pegando conselhos do seu antecessor Obama, que em 2011 aprovou o maior orçamento militar na história dos EUA. Considerando o importante papel do maior exército do mundo em manter o imperialismo estadunidense, é pouco provável que os gastos sejam reduzidos por uma presidência de Biden ou Trump.

Mas como foi demonstrado pela conjuntura política recente, apesar do poder militar sem igual dos Estados Unidos, um forte exército não consegue resolver a atual crise na qual o imperialismo estadunidense se encontra sozinho. O verniz do “Oeste” como uma comunidade de “valores liberais” recebeu seu sopro final por Trump que alienou os poderes que compunham a “ordem liberal transnacional”. Enquanto a fricção entre os EUA e a China está completamente exposta, o estranhamento entre os EUA e outros países imperialistas como a Alemanha e a França também tem intensificado rivalidades inter-imperialistas. Particularmente as ameaças de Trump para reduzir os gastos militares da OTAN e o anúncio da retirada de tropas na Alemanha tem levado a uma divisão entre os aliados.

Apesar das garantias de Biden que ele reposicionaria os EUA no seu prévio prestígio entre seus parceiros, uma “volta ao normal” não é garantida. O declínio relativo do país em regiões como o Oriente Médio tem representado oportunidade para poderes regionais, desde a Rússia e China até o Irã e a Turquia, tentando preencher os vácuos de poder deixados pelos EUA, como a experiência estadunidense na Síria e a atual guerra entre a Armênia e o Azerbaijão demonstram.

Na América Latina, outra região estratégica para o imperialismo estadunidense, os EUA também tem lidado com uma série de reveses, inclusive a decisiva derrota da ofensiva de extrema-direita na Bolívia após as recentes eleições e as massivas mobilizações contra a austeridade do FMI em países como a Costa Rica. No Chile, um ano após as revoltas contra o neoliberalismo desafiaram Piñera e o legado do golpe apoiado pelos EUA, os chilenos votaram massivamente pela elaboração de uma nova constituição. Essa rejeição da direita na América Latina, onde a direita é mais proximamente alinhada aos interesses estadunidenses, também ocorre enquanto a China expande ajuda pandêmica para países na região e rapidamente se transformou em uma importante parceira comercial para múltiplos países latino-americanos desde o começo deste ano. Para Trump, que teve uma abordagem mais confrontadora para questões latino-americanas, estes reveses recentes para o imperialismo estadunidense desafiam as ambições dos EUA na região no próximo mandato presidencial.

Mesmo com estas incertezas, talvez as diferenças entre Trump e Biden possam ser caracterizadas como diferenças de estilo, mas não de substância. Quer tenhamos Trump ou Biden na Casa Branca, podemos ter certeza de que os Estados Unidos continuarão seu apoio ferrenho a Israel e ao violento regime semelhante ao apartheid na Palestina. Na Venezuela, os EUA continuarão sufocando os recursos do país por meio de sanções e na busca por um golpe ilegítimo. Estes dois partidos do imperialismo podem oferecer diferentes estratégicas para lidar com a conjuntura política atual, mas ambos permanecerão firmes na tentativa de restaurar a posição dos Estados Unidos no mundo, especialmente à medida que a crise global se intensifica.

O próximo capítulo do imperialismo estadunidense

Em meio à esta situação precária, a ameaça do imperialismo estadunidense eleva-se largamente para os pobres e a classe trabalhadora nos países oprimidos ao redor do mundo que são sujeitos à violência e subordinação econômica. As próximas eleições na potência mundial dominante podem agravar a crise interna do regime bipartidário e ter implicações estratégicas para países ao redor do mundo que estão enfrentando suas próprias crises e revoltas. Ainda assim, não importa quem seja eleito, este sistema bárbaro e irracional que nos deu a pandemia, guerras e crises econômicas não vai acabar se a classe operária não utilizar sua posição estratégica na sociedade para arrancar o poder dos opressores capitalistas.

A criação de um partido revolucionário de trabalhadores para organizar e coordenar as tarefas preparatórias à frente seria um passo adiante. Visto que o capitalismo é um sistema internacional, a classe trabalhadora só pode vencer se essas lutas forem coordenadas internacionalmente.

Nos Estados Unidos, a classe trabalhadora tem um papel particularmente importante a desempenhar na liderança do ataque contra a "polícia" mundial que impõe sua vontade brutal aos membros de nossa classe ao redor do mundo. O declínio histórico do imperialismo dos EUA e o aumento da agressividade sob uma presidência de Biden ou Trump apontam para a urgência de lutar contra a dominação imperialista com o único punho das classes exploradas.




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