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CRÔNICA | Professores e estudantes de SP: os ratos de laboratório para testes da Reforma do Ensino Médio

Crônica de uma professora da rede pública de São Paulo sobre a realidade que a reforma do Ensino Médio representa para os educadores e estudantes que estão sendo usados como ratos de laboratório para os avanços da precarização da educação.

Tatiana CardosoProfessora da rede municipal e estadual de São Paulo e militante do Movimento Nossa Classe Educação

terça-feira 6 de julho | Edição do dia

Não basta a pandemia que já matou mais de 525 mil brasileiros por conta do descaso e do desrespeito pela vida dos governos de Bolsonaro, Doria e Nunes no enfrentamento e combate à Covid-19 sem ofertar testes massivos para a população que segue trabalhando exposta ao vírus, correndo risco de perder a vida sem a garantia de uma vaga na UTI do SUS que foi sucateado ao longo de décadas de abandono sem investimento, enfrentando a fome que o auxílio emergencial não dá conta de suprir. Não bastasse todas as mazelas que o capitalismo impõe na vida dos trabalhadores, Rossieli Soares, secretário da Educação do Estado de São Paulo, quer impor à toque de caixa a reforma do Ensino Médio e aprofundar ainda mais a defasagem de aprendizagem entre os alunos da rede pública e privada. Esta é apenas a ponta exposta do iceberg dos ataques sofridos pela educação pública paulista.

Há mais ou menos 15 dias, em meio a avalanche de trabalho pedagógico e burocrático que a SEDUC impõe nas nossas costas, ficamos sabendo da noite para o dia que o estado de São Paulo será o primeiro a implementar a reforma do Ensino Médio segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que oferta possibilidades de escolhas aos alunos por meio dos itinerários formativos com foco nas área do conhecimento e na formação técnica e profissional.

Pois bem, vamos por partes. Pensemos sobre a possibilidade de escolha dos estudante pelos itinerários formativos. Estamos falando de estudantes de 15 anos, alunos da 1° série do Ensino Médio que estão há quase um ano e meio fora da escola e longe da rotina de estudos e orientações dos professores. Será que esses jovens possuem condições objetivas e subjetivas para assumir neste momento a responsabilidade para decidir e escolher a área do conhecimento que querem aprofundar? Provavelmente não. Será que os itinerários formativos vão contemplar as demandas que alunos periféricos, pobres e pretos precisam? Com certeza não, os itinerários formativos estão vindo de cima para baixo, prontos e formulados sem a participação dos professores e/ou estudantes. Parece que, para a SEDUC, não temos capacidade profissional para ter autonomia para organizar itinerários formativos para nossos alunos e isso é um ataque direto à liberdade de cátedra dos professores que já se sentem podados com a pressão para estimular os alunos a assistirem as aulas e entregarem as atividades do Centro de Mídia, servindo como um tutor, um orientador apenas.

Outra ferida aberta que preciso cutucar é o foco nas áreas do conhecimento. São palavras bonitas e pedagógicas, quem vê de fora da realidade da Educação parece que Rossieli Soares realmente se preocupa com o conhecimento científico trabalhado em sala de aula, mas é balela… A partir da segunda série do Ensino Médio a carga horária das áreas do conhecimento será reduzida para dar espaço para os itinerários formativos, isso significa prejuízo acadêmico para os estudantes, risco de desemprego para professores e o cerco se fechando para a privatização da rede pública de ensino.

O que provoca desejos insanos de revolução é a propaganda de garantia de ensino técnico e profissionalizante com as escolas do Novotec. Primeiro que não terá vagas para todos os alunos que “escolherem” cursar o Novo técnico e, segundo, que as escolas não serão equipadas com os instrumentos necessários para o ensino técnico, muito menos terá profissionais qualificados para ministrar as aulas. O objetivo é um só: mantendo a carga horária apenas em Língua Portuguesa e Matemática, os alunos sairão da 3° série do Ensino Médio alfabetizados e sabendo as operações matemáticas básicas para servir de mão-de-obra barata, precarizada e explorada para manter a lucratividade desse capitalismo selvagem.

Mais uma vez somos cobaias nessa rede de opressão que nos envolveram, somos ratos de laboratório que medirão os êxitos na implementação do Ensino Médio em SP para o governo e as instituições privadas da educação parceiras, como o Instituto Ayrton Senna. Entretanto, eles não contam com uma ponta solta nesse experimento: os professores-cobaia. Temos a real dimensão do porquê tantos ataques, do porquê a pressa desatada de passar a boiada enquanto a pandemia persiste. A Educação sempre foi o freio que barrou reformas, que lutou por direitos, condições estruturais para garantir ensino público e de qualidade para todos… se acham que ficaremos calados, de cabeça baixa, dominados, estão enganados, faremos um escarcéu, lutaremos junto com nossas comunidades, diremos em alto e bom som que não seremos uma ferramenta do Estado para produzir mão de obra barata, pelo contrário, formaremos cidadãos que enfrentarão esse sistema de exploração!




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