Sociedade

CHACINA PAU D'ARCO

Principal testemunha da chacina de Pau D’Arco é assassinada com tiro na nuca

Quase 4 anos após a chacina cometida por 16 policiais responsáveis pelo processo de reintegração de posse do assentamento Pau D’Arco na Fazenda Santa Lúcia, uma das vítimas do atentado e principal testemunha foi assassinado com tiro à queima roupa na nuca.

terça-feira 16 de fevereiro| Edição do dia

Foto: Lunaé Parracho/Repórter Brasil

Fernando, que foi assassinado no último dia 26 de janeiro, estava entre o grupo que foi executado pelos policiais no dia 24 de maio de 2017. Dez camponeses, um deles seu companheiro, foram torturados e mortos a tiros naquele dia. Em entrevista para o jornal Repórter Brasil, a vítima relatou o ocorrido, contradizendo completamente o discurso dos policiais, que dizem ter sido um confronto com troca de tiros;

“Eu só ouvi uma voz dizendo assim: ‘é a polícia, corre não, bando de bandido se não morre’. Eu ouvi isso e tiro em cima. Todo mundo sentado no chão, não deram chance pra ninguém nem levantar a mão. Eles pegaram muitos amigos ainda vivos, a gente ouvia: ‘por favor não faça isso’. Os outros tavam chorando. ‘Eu não vou correr, não, pelo amor de Deus’. Eles estavam vivos. Ouvi as pancadas. [Os policiais] riam e gritavam: ‘É pra matar. Pega, pega! É pra matar mesmo. Vamos matar todos. Isso, bota a mão na cabeça pra morrer. Morre velha safada. Que velho difícil de morrer’”.

Fernando ficou preso de baixo do corpo de seu namorado e se fingiu de morto. Por ter vivido de perto a situação possuía o relato mais detalhado e fiel contra os policiais, que estão sendo investigados até hoje e seguem em liberdade e na ativa, atuando na mesma região em que cometeram tal crime.

Durante todos esses anos, Fernando e outros sobreviventes receberam constantes ameaças com a mensagem: “os policiais estão pensando em vir aqui dar um jeito de não haver mais testemunha antes do julgamento. Não há testemunha, não há julgamento”. Os policiais tentaram de diversas formas amedrontar os sobreviventes para que alterassem o depoimento favorecendo aos assassinos no dia do julgamento, entretanto por ordens judiciais não podiam chegar perto das vítimas. O sem-terra resolveu abandonar a fazenda e morar na cidade em decorrência das ameaças, no entanto, na noite antes de se mudar foi alvejado pelas costas.

O advogado que defendia as vítimas do atentado, José Vargas Júnior, foi preso no início do ano acusado, de forma suspeita, de homicídio. Ao que tudo indica, sua prisão se trata de perseguição, por atuar contra os policiais e o Estado neste caso, defendendo Fernando e as famílias das vítimas e contra os latifundiários no processo de reintegração de posse da fazenda Santa Lúcia. As evidências contra Vargas eram mensagens de WhatsApp e um vídeo manipulado. Ele era militante dos direitos humanos e defende diversos outros casos de sem-terras na região. Foi concedido a ele prisão domiciliar na véspera do assassinato de Fernando.

Este brutal caso, que se estende desde a chacina até a queima de arquivo com o assassinato de Fernando demonstram que a polícia não existe para defender a população pobre, seja ela urbana ou rural, e sim para defender os interesses da burguesia, no caso, latifundiária e perpetuar a dominação e exploração capitalista.




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