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Crônicas UFABC | "Primeiro dia de aula e já fiquei sem a marmita de 11 reais prometida pela Reitoria que o DCE apoiou”

Nesta segunda-feira (06), finalmente os estudantes da UFABC começaram a retornar ao ensino presencial. Ainda dentro do Quadrimestre Suplementar com regras especiais para o ensino remoto e híbrido, os estudantes retornam, mas a permanência estudantil não. Filas para pegar o fretado e sem Restaurante Universitário, muitos alunos foram prejudicados. Veja a crônica de uma aluna do BCH para o Esquerda Diário.

quarta-feira 15 de junho | Edição do dia

Acordei às 4:50 da manhã, atrasada. E pensei: como pode alguém já estar atrasado antes das 5 da manhã? Tomei um banho rápido pra esquentar o corpo e sair. Atravessei a cidade toda passando de um trólebus a um trem, depois o metro. Longas pausas, porque a linha que foi privatizada sempre apresenta algum problema novo. E então, mais um ônibus. Vou chegar atrasada de novo, pensei. Os olhos ainda estavam no celular. Tentando me preparar para voltar às aulas. Decorar os nomes gregos que deram pra cada prédio, Alfa 1, Alfa 2, Delta, e por aí vai. Só aí que percebi que o código da matéria que eu peguei era da versão remoto, o que atrapalhou toda minha grande. Três matérias presenciais e uma remoto, meu deus. Será que tem como usar os laboratórios para assistir a aula e depois correr para a sala de aula?

Não deu tempo de chegar alguma conclusão. 8 horas e meia atendendo telefones, o guichê, crianças correndo de lá e pra cá, eu e meus 800 sobrinhos que me chamam de tia para pedir máscaras ou pra ligar pra suas mães pedindo pra ir embora mais cedo. Ai como eu queria ir embora mais cedo também. Enfim, chegou a hora de sair, e corri igual um foguete. Mais um ônibus, mais um metrô, aí o trem, e então chegamos em Santo André e precisava de mais um ônibus pra passar em casa antes de ir para aula.

Voei e desci pro ponto do fretado dentro do campus. Lá encontrei meu amigo que faz BCT e é professor de Física. Pegamos o fretado e fomos cedo pra universidade, pelo horário, conseguimos não pegar muito trânsito. Antes das 18:30 tínhamos chegado. Meu estômago já estava reclamando, desde o meio dia, sem nenhum docinho ou besteira para me enganar. Eis que chegamos no campus e começamos a turistar. Primeira vez pisando no campus como aluna regular. Fomos de bloco em bloco ver como estava a universidade. Encontramos outras amigas nossas, uma que também trabalha na educação, mas com bebês e outra na saúde, que saiu do trabalho às 7h da manhã, foi para aula de manhã e estava até de noite na universidade para produzir uma faixa chamando as manifestações do próximo 9 de Junho.

Entregamos alguns panfletos de recepção e apresentação das ideias da Faísca Revolucionária para alguns estudantes que paravam para olhar a faixa e depois no ponto do fretado. Então, finalmente paramos pra comer. Preparamos o bolso porque a marmita está custando $11 reais. "Grande política de permanência", pensei. Quase o valor do Prato Feito perto do meu trabalho, e não aceita VR que minha amiga tava guardando pro retorno às aulas. Mais uma fila. Aguardamos... Aguardamos... Eis que chega nossa vez. Eu morrendo de fome e minha amiga preocupada se podia retirar mais tarde, porque ela queria comer mais tarde. E então que às 18:30 a moça da cantina diz: Acabaram as marmitas, a partir de amanhã tem!

Como pode as 18:30 ter acabado as marmitas e não ter nenhuma iniciativa de pedir mais, ou garantir outra alternativa? Os salgados a partir de $7,50, sem condições. Era essa a "inclusão com excelência" que falou a Reitoria? Que poderíamos ficar tranquilos, bastava eleger quem "estava melhor preparado" para administrar a universidade? Enfim, não havia o que fazer. Estávamos no alto do monte, onde fica o Campus de São Bernardo, com fome e sem Restaurante Universitário, sem marmitas, sem qualquer acompanhamento das entidades estudantis que falaram - na verdade, fizeram vídeos, textos, fotos e uma campanha em defesa da reeleição dessa gestão da Reitoria - e que diziam que senão tivesse RU ou Fretado iam fazer um escândalo. Que escândalo? O DCE nem estava lá para saber que estávamos com fome.

Era o nosso primeiro dia, e o clima não era de retorno após 2 anos. Não havia fiscalização se as promessas da reitoria seriam cumpridas. Mas assim como eu, vários estudantes ficaram sem jantar naquela noite. Alguns compraram um salgado pra enganar, outros ficaram no café e outros voltaram para os transportes públicos com fome. Um colega tinha trago marmita e disse: "eu já nem contava com essa marmita deles... É sempre esse discurso de inclusão, mas a gente nunca pode contar com eles. Aqui não foi feito pra trabalhador". E ele estava certo. Essa era a gestão que tinha sido apoiada pelo Diretório Central dos Estudantes e nem ela e nem o DCE estavam lá.

Decidimos então terminar a faixa chamando a lutar para expulsar o bolsonarismo e os militares da política, e fomos então pedir a permissão para colar o cartaz. Eis que descobrimos que a Prefeitura Universitária estava fechada. Ela fecha justamente quando os estudantes do noturno chegam, quando nós que em geral estudamos depois do trabalho tentamos nos engajar. Guardamos a faixa para voltar amanhã. Será que terá marmita? Será que terá algum espaço para discutirmos sobre as nossas demandas? Onde está o DCE e as entidades estudantis que falam em nosso nome, quando estamos com fome? Não podemos esperar saídas individuais, é preciso dar um tom coletivo a este problema. E se as entidades que não estão do nosso lado, não são nossas ferramentas pra organizara a nossa raiva, vejo que cada um vai ter que encontrar a sua saída.

Passou-se uma semana. Todos os dias, ouvi relato de meus colegas que não compraram a marmita. Que na sua vez, tinha acabado. Ou que acabou primeiro foi o seu salário e agora não podia comprar mais nada. Passou-se uma semana, e os atos do 9J nem foram conhecidos pela maioria dos estudantes. Parece que só depois do ato que o DCE decidiu chamar uma assembleia. Permanência Estudantil, não era a mesma pauta dos atos? É, parece que vamos ter muito trabalho pela frente, pra poder construir uma perspectiva onde os estudantes sejam sujeitos e possamos colocar nossas bandeiras de luta dentro e fora da universidade. Ainda acredito que se a gente se juntasse com os trabalhadores, poderiamos reivindicar a abertura dos livros de contabilidade e decidir por comida para todos sem trabalho terceirizado e precário, mas com direitos à aqueles que podem garantir a nossa permanência aqui dentro. Por que não batalhar por essa perspectiva, você, meu colega desconhecido, também?


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UFABC    Juventude



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