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Luta contra a privatização | Precarizar para privatizar: uma velha receita que Bolsonaro e PSB querem para o Metrô do Recife

Após várias semanas de problemas constantes no Metrô do Recife, o governo federal finalmente anunciou seu destino: estadualizar a concessão e transferir para a iniciativa privada.

Cristina SantosRecife | @crisantosss

terça-feira 17 de maio | 17:48

Os problemas no Metrô do Recife não são novidade. Com mais de 35 anos de existência, o Metrô ainda abrange poucas áreas da cidade (por exemplo, não há estações na Zona Norte). Além disso, as reclamações de trens ruins, cheios, longos intervalos, falta de acessibilidade já são de anos.

Apesar de sua pequena malha, o Metrô possui 221 mil usuários diários, um número expressivo se vamos levar em consideração que toda a Grande Recife possui cerca de 4 milhões de pessoas, atingindo municípios como Jaboatão, Camaragibe e Cabo de Santo Agostinho, além da capital. E foram justamente esses 221 mil usuários que viram nos últimos anos a situação que era ruim piorar bastante. Desde 2019, primeiro ano da gestão de Bolsonaro, responsável pela CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), a passagem aumentou 165%. Entre abril de 2019 e março do ano passado, a passagem saiu de R$1.60 para R$4.25, em 7 aumentos no período de 2 anos. O aumento é proporcionalmente maior que qualquer transporte público do país. E vale dizer que estamos falando de uma das cidades com os maiores índices de pobreza e desemprego, além de grande número de trabalhadores informais, ou seja, aumentos que impactam diretamente a vida do trabalhador precário, muitas vezes impedindo-os de se locomover.

E o serviço só fez piorar. As notícias de atrasos e de trens quebrando no meio do trilho, obrigando passageiros a seguirem a pé pelos trilhos - se expondo a todos os riscos – tornaram-se diárias. Em 2020 uma colisão entre dois trens na estação Ipiranga deixou dezenas de feridos; em 2021, um pedaço do muro caiu sobre uma criança de 8 anos ferindo-a gravemente; em março deste ano e na mesma região do acidente do ano anterior, outro pedaço do muro caiu sobre um homem que também ficou gravemente ferido. Mais recentemente, saiu uma denúncia de que haveriam pelo menos 20 trens que foram “abandonados” por falta de peças de reposição ->https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/mobilidade/2022/04/15000389-metro-do-recife-conheca-o-cemiterio-dos-trens-quebrados-do-sistema-pernambucano.html. Dias depois, foi anunciado que se iniciaria o processo de privatização. Inicialmente, a gestão será passada ao governo do Estado para realizar a licitação de concessão à iniciativa privada. Toda uma sequência de acidentes evitáveis, que se mantêm porque para o governo, mostrar um serviço deteriorado faz parte do discurso de convencer a sociedade de que a privatização pode “melhorar” as coisas.

A estratégia de precarizar para privatizar é uma estratégia conhecida, usada em quase todas as grandes privatizações feitas no país. O discurso oficial é que com a privatização será possível não apenas resolver os problemas que vem acontecendo, como também expandir as linhas. No entanto, as experiências de privatização mostram que essa só encareceu e fez piorar o serviço.

Basta olharmos a realidade do Metrô de São Paulo, onde as linhas privatizadas apresentam constantes problemas na prestação de serviço, com serviço interrompido por questões técnicas, usuários do transporte sem nenhum funcionário para auxiliar, acúmulo de funções para os metroviários. As linhas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) que foram privatizadas são verdadeiros “cases de insucesso” do que realmente significa a privatização.

Segundo o Sindmetro Pernambuco, o atual governo federal vem disponibilizando apenas 30% da verba necessária para a operação do sistema, e isso já sinaliza que o funcionamento atual do Metrô de Recife acontece às custas de seus trabalhadores. São eles, junto com os usuários do transporte público, os verdadeiros interessados em um transporte de qualidade para todos e todas. O interesse dos empresários é o lucro, logo, é óbvio que o resultado da privatização, para trabalhadores e usuários, significa um transporte caro, com relações de trabalho destruídas e desenvolvimento de linhas que atendam as potencialidades de lucro, e não o bem estar da população.
Vale ressaltar que a privatização está sendo levada à frente tanto por Bolsonaro e Guedes que são diretamente responsáveis pela CBTU como também pelo governo do PSB, pois a proposta é passar a administração para o Estado que seria quem faria a concessão ao setor privado. Isso mostra que estão juntos quando o assunto é favorecer os empresários. Na sexta-feira, 13 de maio, a vice-governadora Luciana Santos (PC do B) se reuniu com a direção do sindicato na qual prometeu agendar uma audiência dos metroviários com o governador Paulo Câmara e se limitou a criticar a “rapidez” com a qual estava sendo tramitada a privatização, além de parecer ter esquecido de mencionar que Paulo Câmara, seu parceiro de governo, é um grande entusiasta da privatização e conta hoje nas fileiras do PSB com Geraldo Alckmin, o direitista vice na chapa de Lula, que tentou por anos avançar na privatização da linha 2 verde do Metrô de São Paulo, que só foi barrada pela luta dos trabalhadores, uma luta que segue atualmente, pois o legado de Alckmin segue sendo levado por João Dória, atual governador do estado.

É importante que os trabalhadores e trabalhadoras confiem apenas na sua mobilização. Por mais que negociações com o governo possam fazer parte de um processo de luta, nossa principal ferramenta para defender o transporte público e nossos direitos é a greve, a paralisação e a mobilização. Por isso, desde o Esquerda Diário nos solidarizamos com esses trabalhadores, que frente a esse ataque, votaram o estado de greve se colocando não somente contra a privatização mas também reivindicando a redução da tarifa, uma demanda elementar. É fundamental apoiar esta luta e exigir das direções sindicais a construção de comitês de luta contra a privatização, com amplo debate na base dos metroviários e abertos à toda população, onde inclusive poderia se expressar a necessidade de - ao contrário de privatizar - exigir maiores investimentos do estado em um metrô gestionado por seus trabalhadores e controlado pela população, financiado com os recursos que hoje são destinados ao pagamento da fraudulenta dívida pública, por exemplo. A próxima assembleia está sendo convocada para a quinta-feira, 19 de maio.




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