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EDITORIAL MRT | Porque o nosso feminismo socialista não é só no 8 de março

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 2 de março | Edição do dia

No começo do século XX em uma Conferência Internacional de Mulheres da II Internacional era votado o dia 8 de março como Dia Internacional das mulheres. Um marco para a luta das mulheres em todo o mundo, superando o que várias pioneiras já haviam lutado antes, de Mary Wolstonecraft à Flora Tristán. Entretanto, o que era um grito de revolta e uma necessidade de reconhecer a opressão patriarcal dentro da sociedade capitalista jamais poderia reduzir a nossa luta a um só dia. As mesmas socialistas que batalharam por uma data específica na luta das mulheres também foram parte de construir a maior experiência revolucionária no combate a opressão de gênero: a grande Revolução Russa de 1917.

Há 104 anos os temas básicos da luta das mulheres foram tratados por um estado operário de maneira visceral, humilhando as mais avançadas democracias capitalistas que, em alguns países até hoje não tem a legalização do aborto. Naquele momento os revolucionários começavam a implementar a socialização do trabalho doméstico para liberar as mulheres desse fardo imposto pelo patriarcado e garantindo que este trabalho não remunerado e socialmente necessário para a reprodução da força de trabalho fosse arrancado do âmbito privado e levado ao âmbito público. Deram passos em extirpar todos os resquícios patriarcais das leis e códigos de conduta, defenderam o direito das mulheres de se divorciar sem burocracias e lutaram pela independência financeira das mulheres, com medidas de transição como a pensão obrigatória. Enfrentaram qualquer tipo de conservadorismo para legalizar o aborto defendendo o direito das mulheres ao próprio corpo e por isso, também, debatiam a possibilidade de que no socialismo, sem as amarras capitalistas, pudesse existir o amor livre. Medidas que depois retrocederam pela atuação nefasta da burocracia estalinista.

Isso não é pura propaganda nostálgica de um passado distante, é exemplo vivo de até onde nossa classe chegou. Pensando nisso, até onde podemos dizer que o capitalismo chegou? Vivendo uma crise econômica, que já dura mais de 10 anos, vemos que o capitalismo segue produzindo miséria, destruição e se mostra incapaz de lidar com um vírus que leva a milhares de mortes, desemprego e colapso da saúde pública, enquanto os ricos tem vacina vip e atendimento preferencial no sistema privado. Mas nesse mesmo capitalismo vimos não somente a resistência feroz do movimento de mulheres que se levantou desde 2015 contra o patriarcado e a violência de gênero, mas vimos também empresas e governos buscarem se apropriar da nossa luta para transformar em um produto rentável ou em uma conduta do “politicamente correto” que não se choca com a manutenção da exploração capitalista.

Esse paradoxo é, entretanto, reflexo distorcido da força da luta das mulheres, e em particular das mulheres negras. Mas somente reafirma que não basta “ser feminista” é preciso ter uma estratégia. Do contrário terminamos comemorando que uma mulher negra como Kamala Harris entrou no poder... para bombardear o Oriente Médio. Nosso feminismo trás a necessária luta das mulheres junto à classe trabalhadora contra o imperialismo. E é justamente por isso que o nosso feminismo socialista, resgatando a tradição não somente das grandes organizadoras das mulheres socialistas como Clara Zetkin, mas também dos principais dirigentes do socialismo internacional como Leon Trótski, Vladimir Lênin e Rosa Luxemburgo, tem no 8 de março um momento importante, mas não se reduz a ele. Porque não se trata somente de levantar bandeiras em apenas um dia, se trata de levantar uma estratégia para enfrentar o patriarcado, o racismo e essa sociedade capitalista.

E essa luta não se dá em momentos “a-históricos” ou por fora das configurações políticas que delineiam as disputas de classe em cada país. No Brasil de Bolsonaro e sua cruzada anti-aborto, anti-mulheres e LGBT´s levada adiante pela Ministra Damares Alves e toda a tropa bolsonarista, devemos estar do lado do STF que foi articulador do golpe institucional que tantos ataques proferiu contra as mulheres como a reforma da previdência e a reforma trabalhista? Não nos enganemos: a recente decisão de Dias Toffoli para retirar a possibilidade de argumentação de “legítima defesa” em casos de ataque à “honra” do homem para justificar um feminicídio é fruto especialmente do movimento de mulheres cuja força é internacional e da insustentabilidade de valores deste tipo, do que de uma tomada de consciência do STF. Afinal, como vimos, medidas ainda mais elementares e também muito mais amplas e avançadas foram tomadas há mais de 100 anos, não por ministros de toga mas pela classe operária auto-organizada em sovietes.

O regime do golpe institucional é inimigo direto das mulheres. Um regime que até hoje não respondeu quem mandou matar Marielle?, uma das feridas abertas do golpe institucional. O nosso grito de revolta para derrubar Bolsonaro deve estar ligado a um combate contra todas essas instituições que sustentam um governo no qual as mulheres seguem sendo as que tem os piores postos de trabalho, são a cara da precarização no país, continuam morrendo por abortos clandestinos que nem mesmo o PT, em 13 anos, se dignou a legalizar por seus acordos com a bancada evangélica, um partido que tem em suas fileiras uma governadora no RN que fortalece a repressão, enquanto deixa que faltem insumos básicos.

São as mulheres as mais afetadas pela pandemia, trabalhando na linha de frente nos hospitais, no comércio e nas fábricas que não pararam, em casa no home-office com aumento da jornada e lidando com filhos e tarefas domésticas. Por isso, desde o Pão e Rosas estivemos lado a lado das lutas dessas mulheres trabalhadoras, como as terceirizadas da Odontologia e do Hospital Universitário da USP.

Que este combate político frontal seja motivo para um veto, apoiando inclusive por setores do PSOL, contra às mulheres socialistas e revolucionárias do Pão e Rosas no próximo 8 de março é emblemático: desde sempre as mulheres que escolhem lutar, não pelo feminismo liberal da Avon ou pelo feminismo que quer reformar o capitalismo, mas sim pelo feminismo socialista, terão que enfrentar também todos os tipos de burocracias que querem impedir a expressão das posições do marxismo revolucionário e impedir a organização democrática das mulheres junto a classe trabalhadora. Não fosse isso, também, não veríamos que CUT e CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB, mesmos partidos que estão nas direções do movimento de mulheres, e estão em uma verdadeira “quarentena” da luta justamente no momento em que os golpistas de todo o tipo, do STF e das Forças Armadas, começam a brigar e ter “fissuras” entre si o que seria uma grande oportunidade para organizar a resistência em cada local de trabalho e estudo, com as mulheres trabalhadoras à frente, para enfrentar o governo Bolsonaro e todo esse regime do golpe institucional cercando de solidariedade petroleiros, professores e todos os trabalhadores que resistem aos ataques.

Veja também: Carta do Pão e Rosas Brasil ao movimento de mulheres

Por todos esses elementos é que podemos dizer que para aqueles que se consideram marxistas revolucionários o nosso feminismo socialista não se reduz ao 8 de março, ao contrário, se entrelaça com todos os aspectos políticos que estão em jogo rechaçando a divisão entre a luta das mulheres e a luta de classes, buscando não somente cada demanda elementar que estamos sempre na primeira fileira para arrancar com nossa luta, mas também uma estratégia que aponte no sentido de lutar por uma revolução operária e socialista que como dizemos terá rosto de mulher e no Brasil de mulher negra.

Nesse caminho defendemos todas as demandas democráticas necessárias para em nosso país enfrentar esse governo Bolsonaro e essas instituições que nos atacam e também fazem demagogia com nossa luta: lutemos para ter um plano de emergencial real frente a pandemia, pela legalização do aborto para que mulheres pobres e negras parem de morrer por suas consequências, e por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que possa revogar todas as reformas e avançar em tarefas como a separação da Igreja do Estado. Seriam medidas que para se fazerem valer enfrentariam a repressão estatal impondo a necessidade da auto-organização das massas. É nessa perspectiva que lutamos para defender um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

A partir do Esquerda Diário, do MRT e do grupo internacional de mulheres Pão e Rosas levamos essa batalha política no cotidiano e nas nossas vidas combatendo o machismo e o racismo como prática fundamental para construir um mundo novo. Uma batalha construída por mulheres organizadas em mais de 14 países na América Latina, Europa e EUA. É por isso que rumo ao 8 de março construímos a Plenária Aberta Nacional do Pão e Rosas com nossas companheiras Letícia Parks, Maíra Machado e Carolina Cacau à frente, no próximo dia 6 de março, às 16h30. Para debater essas ideias e estender nacionalmente a defesa deste feminismo socialista usando como ferramentas a nova publicação das Edições ISKRA “Mulheres Negras e o Marxismo” e o Podcast Feminismo e Marxismo do Esquerda Diário. Venha construir o feminismo socialista do Pão e Rosas prestando toda homenagem à grande revolucionária Rosa Luxemburgo aos 150 anos de seu nascimento no próximo dia 5 de março.




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