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MULHERES NEGRAS E MARXISMO | Por que o livro “Mulheres Negras e Marxismo” é uma arma de luta para nordestinas e nordestinos?

Na última sexta-feira de março, 26, lançamos pela editora Iskra o livro “Mulheres Negras e Marxismo”, uma potente ferramenta teórica que traz conceitos chave para a construção de um pensamento marxista sobre a questão negra e de gênero. Na nossa região, onde negras e negros somos 75% da população; onde mulheres trans são assassinadas das formas mais violentas e 56.4% vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza, refletir sobre saídas de fundo é tarefa urgente.

Cristina SantosRecife | @crisantosss

quinta-feira 8 de abril | Edição do dia

Na última sexta-feira de março, 26, lançamos pela editora Iskra o livro “Mulheres Negras e Marxismo”, uma potente ferramenta teórica que traz conceitos chave para a construção de um pensamento marxista sobre a questão negra e de gênero, resgatando tanto textos clássicos do marxismo que demonstram sua relevância para a organização da classe trabalhadora e de seus setores mais oprimidos, quanto debates contemporâneos que percorrem a luta das mulheres negras. Na nossa região, onde negras e negros somos 75% da população, onde mulheres trans são assassinadas das formas mais violentas e 56.4% vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza, refletir sobre saídas de fundo é tarefa urgente.

No Brasil do governo Bolsonaro, filho indesejado do golpe institucional de 2016, arquitetado por muitos dos que hoje se fazem de oposição mas estão de braços dados com Bolsonaro na hora de aprovar as “reformas” que cortam na nossa carne, como os governadores, o STF e a rede Globo; as mulheres, negros e nordestinos veem se mostrando como o setor que pode fazer frente ao governo e ao golpismo, como mostram pesquisas recentes que colocam que somos os setores que empurram para baixo a avaliação deste governo.

Segundo dados do Banco Mundial, o Brasil é o nono país mais desigual do mundo. A região Nordeste é historicamente a mais afetada por essa desigualdade e segundo o IBGE, o índice Gini - que mede a desigualdade a partir do coeficiente de concentração de renda - foi a única onde a desigualdade aumentou, sendo a cidade de Recife a mais desigual, seguida de João Pessoa e Aracajú. Esta desigualdade não vem do acaso, parte da existência de uma burguesia nacional herdeira da escravidão e apoiada nas oligarquias regionais; que enxerga a região como um enorme exército reserva de mão de obra barata. Destes elementos decorre o fato de que a concentração de pessoas vivendo em situação de pobreza na região é a maior do país – o Nordeste concentra quase metade da pobreza do Brasil, 47.9% –; o que é ainda mais alarmante quando levamos em conta que a região possui menos de um terço do total da população brasileira; e nesse quadro de miséria, também pertence à região cinco das famílias mais ricas do Brasil: Emílio Alves Odebrecht (BA), Maria Consuelo Leão Dias Branco (CE), Bernardo Gradin (BA), Amarílio Proença de Macêdo (CE) e Nevaldo Rocha (RN) – todos bilionários estampados na revista Forbes – .

E o que a desigualdade e a concentração de pobreza e renda tem a ver com “Mulheres Negras e Marxismo”?

A concentração de renda faz parte da natureza do modo de produção capitalista. Isso se expressa nos recentes dados levantados pela Oxfam Internacional, onde colocam que mesmo com a crise econômica de 2007-2008, o 1% mais rico do mundo viu suas fortunas crescerem 60% nos últimos anos.

No livro “Mulheres Negras e Marxismo”, a questão da pobreza e da desigualdade se expressa em distintas passagens, como no relato de Ericka Huggins do Partido Panteras Negras dos Estados Unidos, quando diz que “a pobreza é o resultado de usar pessoas e seus recursos sem deixar a elas benefícios do seu trabalho. A existência dos pobres e da classe trabalhadora, de uma classe média e dos ricos, é intencional. Bobby Seale e Huey Newton que começaram o Partido sabiam que raça e classe andam juntas. E depois nós percebemos que raça, classe e gênero andam juntos. É por isso que nós fundamos uma organização que não era só sobre os negros, mas sobre todos os pobres com os negros.

O marxismo é uma ferramenta não somente para compreender a realidade, mas para transformá-la. Marx condensou esse pressuposto na sua tese XI, no escrito “Teses sobre Feuerbach”, de 1845, onde diz que “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

Entender que não há nenhum fator natural, divindade ou destino que mantenha milhões de mulheres e negros em situação de pobreza enquanto alguns parasitas engordam suas fortunas, ao mesmo tempo que colocar a necessidade e apontar caminhos para nossa organização como classe, é tarefa central do que buscamos construir com as ideias expressas neste livro.

No capítulo Formação e anatomia da classe trabalhadora feminina e negra no Brasil, Odete Assis e Daphnae Helena colocam que “as mulheres trabalhadoras negras são cerca de um quarto da classe trabalhadora brasileira e representam mais da metade do contingente feminino da classe. Três quartos dessas estão localizadas nas regiões Sudeste e Nordeste. Além de representarem 30% de toda classe trabalhadora nordestina [...] as mulheres negras comandam 55% do total das famílias chefiadas por mulheres. E a desigualdade salarial persiste como marca estrutural da sociedade brasileira, com as negras recebendo uma renda média mensal 40% menor que as brancas e 60% menor que a de um homem branco”. Estes dados ajudam a olhar para nossa região e ver nitidamente: somos uma gigante classe trabalhadora, composta por uma maioria de mulheres e negros; também ajudam a entender que não é mera casualidade os níveis de pobreza que afetam a região. Nos afeta, porque vivemos em um sistema econômico que utiliza das opressões para dizer que nossa vida vale menos e que por isso podem nos relegar aos trabalhos precários, à informalidade e a terceirização.

Nem Bolsonaro, nem os governadores dos estados que fazem demagogia com o “fique em casa”, garantiram que a população pudesse fazer um isolamento racional e reduzir a tragédia atual, como seria um auxílio emergencial que realmente respondesse aos custos de vida das pessoas ou a proibição das demissões. Pelo contrário, no estado de Pernambuco por exemplo, Paulo Câmara do PSB, assim como Bolsonaro a nível nacional, considerou o trabalho doméstico como “essencial”, expondo milhões de trabalhadoras ao risco do vírus. Como consequência disso, aqui na cidade do Recife, enquanto na TV todos diziam que para se proteger do vírus era necessário ficar em casa, Mirtes Renata, mãe do menino Miguel, teve que ir trabalhar e levar seu filho que não tinha com quem ficar. A patroa de Mirtes o abandonou sozinho em um elevador e apertou o botão que o levou ao nono andar, de onde caiu. O caso Miguel é um exemplo extremo da combinação do racismo da burguesia brasileira herdeira da casa grande com os níveis de precarização que atinge milhões de trabalhadoras e nos afeta de maneira ainda mais dura com a pandemia.

Acreditamos que não é coincidência que uma mulher negra, nordestina e trabalhadora doméstica em luta por justiça por seu filho, se torne um dos principais símbolos da resistência antirracista que vem atravessando a pandemia no Brasil. Pandemia que deixa descoberto o racismo velado do estado: somos negros e negras os que mais morremos e somos também os que menos somos vacinados; a violência policial não fez “isolamento social”, continua correndo solta nas comunidades e favelas. Até mesmo quanto à recuperação dos empregos perdidos durante a pandemia, em Pernambuco as mulheres praticamente ficaram de fora: dos postos perdidos durante 2020 no estado e que não foram recuperados, 99.5% eram postos ocupados por mulheres.

Como colocamos, somos parte de uma classe trabalhadora que é em sua esmagadora maioria composta de mulheres e negros. Estamos imersos em uma realidade de pobreza, desemprego e pandemia, com filas de UTI’s, crise de insumos básicos como oxigênio nos hospitais públicos, média de 3000 mortos por dia a nível nacional. Esta realidade nos impões que não podemos esperar as próximas eleições, como propõe o PT e Lula, ou depositar confiança em algum setor burguês do congresso nacional ou o STF golpista. Precisamos nos organizar para atuar como classe, a partir de nossos sindicatos em conjunto com os movimentos sociais exigindo a imediata quebra das patentes das vacinas para produção em massa, atendendo a toda a população; auxílio emergencial de ao menos um salário mínimo, testagem em massa para um isolamento racional e reconversão da indústria para produção de equipamentos médicos, EPI’s e alimentação, com contratação em massa e divisão das horas de trabalho para todos que estejam aptos a trabalhar serem os sujeitos de dar uma resposta à esta crise.

A partir de enxergar estas como batalhas que estão na ordem do dia e que podem colocar as e os trabalhadores à frente, colocamos que este livro é uma arma teórica. Uma arma para que cada mulher negra se levante e se coloque como sujeito ativo do combate a esse governo, a partir da nossa organização independente, sem nenhuma confiança no congresso, nos governadores e no STF; ou em um processo de impeachment que colocaria um reacionário como Mourão no poder e ainda legitimaria este regime golpista. Na nossa região, palco das grandes revoltas negras e indígenas que marcaram todo o período oitocentista e nos inspiram até os dias de hoje, as ideias iniciais que buscamos expressar no conjunto do livro chegam para aportar à construção da nossa ação organizada para a transformação das bases que sustentam essa degradada democracia burguesa.


PS: A partir da próxima semana ocorrerão os grupos de estudos referentes ao curso Mulheres Negras e Marxismo em várias regiões. Seguem abaixo as datas dos encontros na região Nordeste:

Inscreva-se no e-mail: [email protected]




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