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Por que o Novo Partido Anticapitalista francês expulsou sua ala esquerda?

Nathaniel Flakin

Por que o Novo Partido Anticapitalista francês expulsou sua ala esquerda?

Nathaniel Flakin

O Novo Partido Anticapitalista (NPA) na França está em crise, já que a direção vem buscando excluir sua principal oposição à esquerda, a Corrente Comunista Revolucionária. Essa exclusão foi consumada. Isso tem muita importância para a esquerda internacional, mas não é necessariamente de fácil compreensão. Apresentamos nota atualizada em 12 de Junho, com uma breve introdução sobre o NPA, respondendo às perguntas mais frequentes.

O que está acontecendo no Novo Partido Anticapitalista na França?

As eleições presidenciais francesas acontecerão em abril do próximo ano. Existe uma polarização entre a direita neoliberal do atual presidente Emmanuel Macron e a extrema-direita de Marine Le Pen. Por muitos anos, a “extrema esquerda”, como é chamada na França, tem sido capaz de apresentar seus próprios presidenciáveis, apesar de muitos obstáculos antidemocráticos. O Novo Partido Anticapitalista (NPA) se dispõe a definir seu candidato presidencial na sua próxima conferência.

Mas na preparação para esta conferência, a direção do NPA está expulsando a principal oposição de esquerda, a Corrente Comunista Revolucionária (CCR). Cerca de 300 militantes do NPA (um terço dos atuais 1.000 membros ativos da organização) enfrentaram as expulsões. Finalmente, a exclusão foi consumada.

O que é o NPA?

O Novo Partido Anticapitalista foi fundado em 2009. Foi criado pela Liga Comunista Revolucionária (LCR), que emergiu do movimento de 1968 e já foi a maior organização trotskista na França e no mundo. Foi também a principal seção do Secretariado Unificado pela Quarta Internacional, uma tendência dirigida por Ernest Mandel.

A LCR teve alguns sucessos eleitorais importantes nos anos 2000. Seu candidato, o jovem trabalhador dos correios Olivier Besancenot, recebeu 1,2 milhão de votos em 2002 e quase 1,5 milhão de votos em 2007.

Nos anos 1990, a LCR havia começado a se distanciar do legado trotskista. Declarou que a “era da revolução de outubro” havia terminado. Uma estratégia rumo a uma greve geral insurrecional e a ditadura do proletariado foi declarada não mais relevante. No lugar disso, os dirigentes da LCR propuseram uma estratégia para expandir a democracia burguesa até que o capitalismo fosse superado.

Esse giro teórico, combinado a sucessos táticos, convenceu a direção da necessidade de fundar um novo partido, sem nenhuma estratégia comum. O Novo Partido Anticapitalista deveria juntar anticapitalistas de todos os tons. O NPA, calculavam, poderia ocupar todo o espaço do espectro político que havia sido abandonado pelo colapso da Social Democracia e do stalinismo. Mesmo Bensaid, dirigente teórico da LCR, preocupava-se que “a extensão da superfície poderia levar a uma perda da substância”. No começo, até 9.000 pessoas se filiaram como membros do NPA.

O NPA conseguiu ser reconhecido como uma força nacional, e isso incluiu vários elementos dinâmicos com uma nova geração que qual programa e qual estratégia eram necessários. Mas o NPA nunca deixou de adotar um programa revolucionário ambíguo e, como resultado, não conseguiu intervir de forma coerente nos processos da luta de classes que sacudiram a França na década seguinte. Sem uma delimitação clara das forças reformistas, o NPA esteve sob pressão constante de formações maiores com mais sucesso eleitoral. Isso se tornou especialmente agudo quando o ex-ministro socialdemocrata Jean-Luc Mélenchon lançou uma nova organização, primeiro a Frente de Esquerda e agora a França Insubmissa. Como um chauvinista típico, Mélenchon combina demandas sociais progressistas com políticas racistas contra imigrantes e a defesa do imperialismo francês.

O NPA viveu uma série de rupturas, com membros se somando à formação de Mélenchon, enquanto o partido de conjunto não chegou a concretizar alianças eleitorais com essa corrente da "esquerda institucional" até este ano. Durante o curso dos anos, o NPA não apenas estagnou, mas declinou. Enquanto a antiga LCR tinha até 3.000 membros e o NPA algum dia falou de 9.000, agora eram apenas por volta de 1.000, ou menos.

Quem compõe a ala esquerda do NPA?

O NPA e a LCR antes disso, sempre permitiram liberdade de tendência e de grupos. Até mesmo antes da sua fundação, numerosos grupos se somaram ao NPA. Hoje, grupos da ala esquerda incluem:

- Anticapitalismo & Revolução (A&R), que emergiu da antiga juventude da velha LCR. A&R tem conexões com Ação Socialista e Ressurgência Socialista nos Estados Unidos, assim como com outros grupos da ala esquerda do Secretariado Unificado.

- L’Étincelle (A faísca). Este grupo é chamado de “Fração do Lutte Ouvrière" (FLO) porque foram um dia uma fração opositora dentro de um outro partido de extrema esquerda, Lutte Ouvrière (Luta Operária). Eles foram expulsos do LO em 2008 e se somaram ao NPA, têm relação com o Speak Out Now nos Estados Unidos.

- Democracia Revolucionária (DR) já era um grupo de oposição dentro da LCR, eram originalmente parte do LO.

O que é a CCR?

A Corrente Comunista Revolucionária é um grupo que fazia parte, até agora, da ala esquerda do NPA, há 12 anos. Os ativistas que formam a CCR tem sido parte do NPA desde a sua fundação. A CCR e seus antecessores nunca fizeram qualquer tipo de segredo ao redor da sua diferença fundamental com o “novo anticapitalismo" do partido. Eles sempre expressaram sua defesa de abandonar os princípios fundadores pouco claros do NPA e relançar o partido em uma base revolucionária e da classe operária.

A CCR publica o jornal online Révolution Permanente que tem se transformado em uma importante voz da extrema esquerda na França, recebendo milhões de visitas por mês. Observadores independentes o chamam de “jornal militante em ascensão" e foi elogiado pelo New Left Review e o International Socialism Journal.

Mas a CCR não só faz coberturas. Também foi capaz de dirigir importantes movimentos de greve, incluída a última greve na refinaria Total em Grandpuits. Quando os patrões tentaram fechar a fábrica como parte de um suposta “transição ecológica”, militantes revolucionários foram capazes de dirigir uma greve que unificou trabalhadores do petróleo com movimentos ambientalistas, por uma transição sob controle da classe trabalhadora.

Em experiência similar, militantes da CCR construíram assembleias de trabalhadores de base entre motoristas de ônibus, ferroviários e metroviários durante a greve contra a reforma da previdência, assim obrigando a burocracia a manter a greve até muito depois de quando queriam capitular.

A CCR é parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional e na batalha atual se uniu a camaradas que, sem serem parte dessa tendência internacional, compartilharam a batalha política no NPA. O Left Voice [jornal em língua inglesa que é parte da rede internacional de diários Esquerda Diário, NdT] também está conectado à mesma tendência internacional. Por isso, esta nota não se reivindica neutra.

Por que existe hoje um conflito no NPA?

O NPA está se preparando para realizar uma conferência que definirá seu candidato presidencial, caso decida apresentar um. Um congresso do NPA é esperado há muito tempo e já foi adiado múltiplas vezes.

Para duas eleições regionais, em Nova Aquitânia e Occitânia, a direção do NPA formou alianças com o partido do Mélenchon. Portanto, a conferência teria que decidir se essa política de apoio à esquerda reformista deveria ser reivindicada nas eleições nacional. Se é assim, o NPA teria que escolher um candidato que represente tal orientação. Isso é especialmente importante dadas as pressões do "mal menor" no caso de um segundo turno entre Macron e Le Pen.

Por vezes, a direção é conhecida como “a maioria”. Mas na realidade, agora, parece que uma maioria evidente de membros do NPA são opostos a essa frente política com reformistas.

É certo que para impedir com que a ala esquerda imponha sua linha em uma conferência democraticamente eleita, a ex-maioria decidiu dividir a organização.

O pretexto para a divisão é a “pré-candidatura” de Anasse Kazib, um ferroviário de origem marroquina e membro do NPA e da CCR. Kazib é uma figura conhecida no movimento operário francês. Ele fez aparições numerosas na TV para debater com políticos burgueses. Ele cumpriu um papel importante nas assembleias de greve de trabalhadores e dirigiu contingentes trabalhadores no movimento dos Coletes Amarelos.

No 1º de Maio, Kazib (e a CCR) anunciaram que gostariam que ele fosse o candidato presidencial do NPA. Até então, nenhum outro membro do NPA havia anunciado que queria cumprir este papel. Isso nunca foi apresentado como um ultimato, e sim como uma proposta, colocada em debate. Kazib (e a CCR) apresentaram a sua pré-candidatura em uma reunião da direção, depois de debaterem a questão com diferentes grupos da ala esquerda do partido, e então fizeram o anúncio público.

A atual direção afirma que este anúncio foi algum tipo de quebra da democracia interna. Isso simplesmente não é verdade. Kazib apresentou sua vontade de concorrer como candidato presidencial do NPA no interior dos organismos partidários. Já os acordos com a LFI nas duas regiões nunca foram debatidos internamente em nenhum organismo partidário, ou seja, a ex-maioria levou adiante esses acordos por fora de toda a instância partidária.

Como a esquerda está reagindo ao divisionismo da ex-maioria?

Para sermos diretos: nada bem. A&R, FLO e outros grupos de esquerda têm repetidamente enfatizado que são contrários a alianças com o partido de Mélenchon. Na realidade, uma maioria evidente entre os membros do NPA parece ser oposta a estas frentes.

Mas, no lugar de Anasse Kazib, eles queriam que o NPA tivesse um candidato presidencial “unitário”, como Philippe Poutou. Poutou foi candidato do NPA duas vezes e cumpriu um importante papel como operário de fábrica anticapitalista na política nacional.

No momento, no entanto, Poutou está pessoalmente envolvido nas alianças regionais com o partido de Mélenchon. Assim, se a maioria dos membros do NPA apoiam a esquerda, como eles podem nomear alguém que é da ala direita minoritária?

A ala esquerda do NPA, com a CCR inclusa, tinha forças para tomar a direção do partido no próximo congresso. E é precisamente por isso que a ex-maioria fez uma manobra preventiva de expulsão.

A&R e FLO se opuseram a passos da ex-maioria que excluem membros da CCR de assembleias da pré-conferência, mas se negaram a votar resoluções clara contra essas expulsões de fato.

Esses grupos têm dito há anos que defendem uma reorientação revolucionária. Mas quando uma oportunidade concreta se apresenta para confrontar a ala direita, eles fortalecem a ala direita do partido e permitem a expulsão da principal oposição de esquerda à ex-maioria.

Uma carta aberta de Rob Lyons, que tem sido membro do Secretariado Unificado pela Quarta Internacional por mais de 50 anos, chama os grupos da esquerda do NPA a se levantarem pela direção, se oporem às expulsões e batalharem pelos próprios princípios.

Por que tudo isso é importante?

O NPA pode parecer distante. A extrema esquerda francesa não é muito debatida nos Estados Unidos. Entretanto, dois dos grupos da ala esquerda do NPA têm organizações-irmãs nos Estados Unidos: Socialist Action, Resurgence Action e Speak Out Now. Esses grupos deveriam se posicionar sobre o que sua direção está fazendo.

Mas o NPA não é importante somente pela sua longa tradição de uma organização trotskista num país imperialista. O partido foi um teste piloto para a estratégia de construir partidos “amplos de esquerda”. Os dirigentes do Secretariado Unificado formularam a hipótese de que os revolucionários poderiam conquistar influência de massas diluindo seu programa, substituindo o marxismo revolucionário com um anticapitalismo deliberadamente vago.

A capitulação do NPA ao reformismo nas eleições regionais e o giro à direita na política nacional mostra os limites de tal estratégia. O Secretariado Unificado, em mais de doze anos desde a fundação do NPA, já foi longe demais nesta estrada. Apoiou o Syriza logo antes de assumirem o governo grevo e ao Podemos até este se transformar no sócio júnior do governo imperialista espanhol.

Mas ao passo que estratégias de “esquerda ampla” chegue à falência, nós também vemos os esboços de uma nova tendência internacional que representa o melhor do que a LCR e outras tradições trotskistas defendiam. Isso não é limitado à CCR, mas é formada por uma nova geração de trabalhadores comunistas militantes. Muitos dos membros do NPA, alguns dos quais são parte do movimento trotskista há décadas, vêm respondendo ao giro à direita do NPA com uma campanha por um novo partido revolucionário dos trabalhadores.

Nós podemos ver a mesma coisa nos Estados Unidos: ao passo que grandes setores da esquerda capitulam ao Partido Democrata, nós também vemos iniciativas para reagrupar os revolucionários socialistas em base à independência de classe. A mesma coisa está acontecendo no México e no Chile, e mais notavelmente na Argentina, onde um polo trotskista tem sido capaz de se estabelecer como força nacional e ganhar mais de um milhão de votos.

Nós apresentamos um manifesto que busca dar voz a esta tendência revolucionária de trabalhadores e jovens emergente. Nós acreditamos que os revolucionários ao redor do mundo precisam se unificar em base à independência de classe. Socialistas de diferentes tradições podem batalhar por acordos sobre os principais eventos da luta de classes global. A crise do NPA está servindo de base para esse tipo de esclarecimento político.

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