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Movimento Estudantil | Por que a política da UNE esvaziou os atos do Dia do Estudante?

A última quarta, 11 de agosto, foi dia do estudante, com pequenas manifestações em algumas cidades do país. Motivos não faltariam para que essa data expressasse uma enorme indignação, mas por que a política da União Nacional dos Estudantes, dirigida pelo PCdoB/UJS, PT e Levante Popular da Juventude, resultou no esvaziamento dos atos?

quinta-feira 12 de agosto | Edição do dia

Apenas um dia antes do 11 de agosto, Bolsonaro e os militares desfilavam seu autoritarismo em Brasília enquanto na Câmara a classe trabalhadora, sobretudo suas camadas mais jovens, foram alvo de mais um brutal ataque. Se a pressão autoritária de Bolsonaro e dos militares com a fumaceira de seus tanques dividiu a direita do PSDB e outros partidos que se dizem oposicionistas do governo sobre o voto impresso, estiveram todos unificados para avançar em atacar ainda mais a classe trabalhadora. A MP 1045 aprofunda a precarização do trabalho e impõe condições quase de escravidão à juventude, com salários de R$550,00, sem férias, FGTS ou 13º, além de manter a redução e suspensão de salários e contratos e outras medidas. Ao mesmo tempo, burocracias acadêmicas como a da USP e outras universidades discutem o retorno das aulas presenciais por fora de qualquer debate com a comunidade acadêmica.

Isso tudo num contexto de 600 mil mortos por covid e profunda crise social, com desemprego recorde, insegurança alimentar atingindo mais da metade da população, privatizações como dos Correios e Eletrobrás sendo impostas, além de interventores encastelados em universidades federais pelo país todo. Nas universidades as políticas de permanência e assistência estudantil estão ameaçadas e ficando mais restritas, o que ataca principalmente os estudantes negros e de baixa renda. Não há dúvidas de que motivos não faltariam para que as manifestações do dia do estudante fossem uma forte expressão de indignação dos estudantes de todo o país, podendo se colocar porta-vozes não só de suas próprias demandas, mas de denunciar a degradação de conjunto das condições de vida da classe trabalhadora e do povo mais pobre. Poderia ainda ser um forte grito de exigência às grandes centrais sindicais, como a CUT e a CTB, que organizem um plano de luta nacional e uma greve geral para parar o país, seguindo o exemplo dos trabalhadores da MRV em Campinas que há quase um mês se enfrentam com a empresa, e cercando de solidariedade essa luta.

Entretanto, nada disso foi o que se deu. O que vimos foram manifestações esvaziadas e isoladas, que a massa dos estudantes sequer sabia que ocorreriam. Os discursos inflamados dos dirigentes da UJS e do PT pareciam um deboche diante dos atos que reuniram poucas centenas. Em muitas cidades sequer ocorreram manifestações, e no RN a juventude da UJS e do PT ainda postaram fotos de seus parlamentares, felizes e sem sequer denunciar as detenções ocorridas antes da polícia atirar pra cima para intimidar manifestantes.

O que pode parecer contraditório, na verdade, faz bastante sentido quando pensamos de conjunto a política dessas organizações. Desde que manifestações de rua voltaram a acontecer, expressando disposição de luta, a política do PT e do PCdoB na direção da UNE e das centrais sindicais sempre foi de convocar de maneira burocrática e dispersa os atos, sem nenhum tipo de construção nas bases, sem batalhar para que estudantes e trabalhadores sejam sujeitos da mobilização. Isso para garantir seu controle sobre os atos, para que sirvam para fortalecer sua busca pela frente ampla com a direita em torno da candidatura de Lula em 2022. O super pedido de impeachment foi mais um episódio dessa política, que subordina nossa força nas ruas à mesma direita que aprova a MP do trabalho precário. A entrega do super pedido rendeu cenas simbólicas, como de Iago Montalvão, então presidente da UNE, ao lado de Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, enquanto os indígenas enfrentavam o PL 490 e o Marco Temporal do outro lado da praça dos poderes em em Brasília. Na sequência, Arthur Lira garantiu o "super arquivamento" do pedido, enquanto o Centrão se acomodava ainda mais no coração do governo Bolsonaro.

O esvaziamento das manifestações em geral e do dia do estudante em particular é resultado dessa política, que combina a busca pela aliança com a direita rumo às eleições com a completa ausência de qualquer construção nas bases. Sobre a isso a esquerda, que dirige diversos DCEs e CAs pelo país, além de ter dezenas de mandatos parlamentares e também ter peso em alguns sindicatos, poderia levantar uma política alternativa, dando exemplo nos locais onde tem peso e exigindo da majoritária da UNE e das centrais sindicais a construção de um plano de lutas nacional rumo a uma greve geral. Entretanto, o que fazem organizações como o MES/PSOL, junto à UP/Correnteza e PCB/UJC é repetir os mesmos métodos burocráticos da UJS e do PT, mas com o nome de "Povo Na Rua Fora Bolsonaro". Como se reuniões entre as organizações e suas bases substituíssem espaços de auto-organização a partir dos locais de estudo e trabalho. Divergem sobre as datas e fazem disso um "grande debate" porque no fundamental da política (a defesa quase utópica do impeachment e a construção da candidatura de Lula e sua frente ampla com a direita rumo a 2022) estão todos de acordo. Juntos se calam sobre a paralisia das centrais sindicais e acompanham a UJS e o PT em discursos inflamados nos atos, encobrindo pela esquerda sua política. E quando convocam assembleias, pouquíssimos estudantes ficam sabendo delas e impedem a realização de votações.

É por isso que as manifestações do dia 11 foram incapazes de expressar a insatisfação dos estudantes com a situação das universidades e do país de conjunto. A esquerda deveria romper com essa política de subordinação à majoritária da UNE e articular nacionalmente um polo antiburocrático, que batalhe pela construção de assembleias de base com direito a voz e voto em todos os locais onde têm peso, votando exigências unificadas à UNE e às centrais sindicais e colocando a base dos estudantes como sujeitos dos rumos da mobilização. É somente a força da classe trabalhadora, junto aos estudantes, os indígenas, os negros, as mulheres e todos os oprimidos, que pode responder à grave situação pela qual passa o país. É essa aliança que pode derrubar Bolsonaro, Mourão e seus interventores, e também enfrentar o conjunto do regime político cada vez mais autoritário e degradado, que destrói nossas universidades e nossos direitos. A aliança entre estudantes e trabalhadores é o que pode responder à crise das universidades e batalhar por uma universidade a serviço da classe trabalhadora e do povo. É também através da luta de classes que se pode impor um programa de emergência à crise social e sanitária, e avançar na luta por uma assembleia constituinte livre e soberana, que coloque nas mãos das maioria da população as principais decisões sobre os rumos do país, onde possamos batalhar pela revogação das reformas, pela reversão das privatizações e por outras medidas que façam com que sejam os capitalistas que paguem pela crise.




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