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Por que Trótski foi o maior defensor da URSS? Parte 4: Segunda Guerra Mundial

Gabriel Girão

Por que Trótski foi o maior defensor da URSS? Parte 4: Segunda Guerra Mundial

Gabriel Girão

Nessa parte do artigo, iremos falar um pouco sobre a natureza da segunda guerra mundial e qual foi o real papel do stalinismo nela.

Um dos feitos mais reivindicados pelo stalinismo seria de que “Stálin teria derrotado Hitler”. Que o exército vermelho foi o principal exército responsável pela derrota do nazismo, isso é um fato, apesar dos bilhões investidos pela indústria cultural americana para reconstruir a história com uma perspectiva pro-yankee. No entanto, concluir automaticamente disso que Stálin teria sido o principal protagonista da derrota de Hitler é atribuir a história à feito de grandes homens, a mais vulgar historiografia burguesa.

A historiografia marxista vai analisar a segunda guerra como um processo profundo que vai muito além do militar, buscando ver as forças e processos sociais envolvidos. No entanto, a historiografia marxista não ignora o papel que figuras individuais podem ter na história, principalmente quando ocupam postos de relevância como Stálin. Por isso, também analisaremos como a política stalinista influenciou a participação soviética na segunda guerra.

Primeiramente, é importante colocar que a vitória do nazismo não foi uma fatalidade da história. A vitória do nazismo foi uma imensa derrota do proletariado alemão, derrota que, como mostraremos, foi fruto da política de suas principais direções, a socialdemocracia do SPD e a direção stalinista do KPD (Partido Comunista Alemão). Estudar esse processo e extrair suas lições mais profundas não é o objetivo desse artigo, mas tentaremos expor sinteticamente um esboço dos fatos.

Em 1929, a crise que explode com o crash da bolsa americana pega a Alemanha em cheio. O desemprego vai às alturas e instaura-se uma imensa crise social, que é seguida por uma crise política fortíssima, com uma forte tendência à polarização. Enquanto os partidos burgueses tradicionais iam perdendo sua base rapidamente, crescia, pela esquerda, os partidos operários como o KPD - nessa época um dos maiores partidos da Internacional Comunista - e também o SPD. A base desse crescimento se dava principalmente com os setores operários que rompiam com os partidos burgueses. Pela direita, crescia o Partido Nacional-Socialista, liderado por Hitler. Esse crescimento era, majoritariamente, na pequena-burguesia arruinada e também em um setor de desempregados.

O partido nazista, além de sua ideologia racista antissemita, também representava a contrarrevolução e tinha tropas paramilitares que atacavam os sindicatos e as mobilizações operárias e populares. Com a crise econômica e os ataques nazistas, a unificação das fileiras operárias para tarefas práticas como a autodefesa e a organização de greves e mobilizações – a chamada frente única operária – se fez necessária. Espontaneamente, surgiram vários exemplos de frente única entre os operários do KPD e do SPD em inúmeros locais de trabalho e até mesmo em cidades inteiras. No entanto, essas iniciativas são desmanteladas pela direção desses dois partidos.

A direção do SPD, por um lado, com sua lógica reformista tinha como estratégia apoiar e fazer apelos à “sensatez” da burguesia alemã para que essa combatesse Hitler. Além disso, culpava os comunistas e a radicalização do movimento operário pela ascensão do nazismo, chegando a usar como símbolo as 3 flechas, contra os monarquistas, os nazistas e os comunistas. Não é necessário comentar que esses apelos foram totalmente ineficazes.

Já o KPD, ao invés de se apoiar no sentimento espontâneo de unidade e buscar impor uma frente única, adota a linha ultra esquerdista da Internacional Comunista ditada por Stálin, de classe contra classe, em que taxava a social democracia de “social fascista” e menosprezavam o nazismo, chegando até mesmo a afirmar que a vitória de Hitler seria uma antessala da vitória da revolução.

Vendo a importância da Alemanha para a situação mundial, Trótski se debruça sobre essa questão com uma série de elaborações. Enquanto isso, a Oposição de Esquerda atua dentro do KPD contra essa linha ultra esquerdista, batalhando por uma orientação de frente única. No entanto, enquanto Trótski estava no exílio, os membros da oposição eram duramente perseguidos pela direção stalinista do KPD. Como resultado dessa política traidora e desmoralizante tanto do SPD e do KPD, em 1933 Hitler consegue dar um golpe fechando o parlamento e perseguindo os comunistas e massacrando o movimento operário sem luta praticamente.

Após o fracasso dessa política ultra esquerdista, o stalinismo dá um giro em 180º e vai aderir a política de frente popular, que foi ratificada no VII Congresso da IC, em 1935. Essa politica consistia, basicamente, em nome de luta contra o fascismo, em subordinar os Partidos Comunistas e o movimento operário à burguesia democrática.

No campo internacional, isso significou buscar se aliar com os imperialismos “democráticos” contra o nazismo. Em 1934 ingressa na Liga das Nações e em 1935 firma o tratado Franco Soviético, um tratado de ajuda-mútua em que também a URSS se comprometia o PC Francês a frear a luta de classes na França. [1]

Evidentemente que tal política não funcionou. Afinal, os imperialismos “democráticos”, de democráticos não têm nada, basta ver sua política colonial. Muito desses apoiaram e deixaram os nazistas se fortalecerem contra o movimento operário e a URSS, esperando justamente que Hitler invadisse a URSS e dessa forma fizesse o trabalho sujo, para depois matarem “dois coelhos com uma cajadada só”. Apenas com a invasão da URSS já consumada que acabaria se impondo a linha de um setor imperialista de aliança com a URSS, nas figuras políticas de Roosevelt e Churchill - que temiam que uma vitória de Hitler contra a URSS desse a base necessária para que o esforço de guerra da indústria alemã se equiparasse ao dos EUA, preferindo apostar que uma URSS stalinizada poderia conter a revolução no leste europeu e oferecer certa contenção contra Hitler. Além disso, a política de aposta em alianças com o imperialismo apenas serviu para desarmar a URSS frente ao risco da Guerra.

A estratégia de Stálin muda visando dialogar com Hitler, resultando no acordo Molotov-Ribbentrop, um pacto de não agressão que consentia com a divisão da Polônia e de outros países do leste Europeu entre os dois. Esse acordo esteve longe de ser um acordo para ganhar tempo como defendem os stalinistas, foi um verdadeiro crime contra a classe operária, pois mudou a orientação da própria internacional comunista, que passou a denunciar o imperialismo democrático como os únicos interessados na continuação da guerra, quando Hitler massacrava os povos da Europa. Em seu discurso no Soviete Supremo, no dia 3 de outubro de 1939, Molotov afirma que o imperialismo britânico e francês eram a principal ameaça à paz mundial, enquanto colocava o Nazismo como apenas uma questão de opinião política:

Se vamos falar hoje sobre as principais potências europeias, a Alemanha se encontra na posição de um Estado que busca o término mais rápido das hostilidades e o advento da paz, enquanto a Inglaterra e a França - que ontem falaram contra a agressão - são hoje a favor da continuação da guerra contra a conclusão de uma paz. (...) O governo inglês declarou como seus objetivos de guerra nem mais nem menos que a aniquilação do hitlerismo. Segue-se que na Inglaterra (...) os propagadores da guerra declararam algo como uma guerra ideológica contra a Alemanha, uma reminiscência das antigas guerras religiosas (...) Essas guerras só poderiam trazer declínio econômico e ruína cultural para as pessoas que as sofreram, fazendo-o voltar à Idade Média. Não estão as classes dominantes da Inglaterra e da França nos arrastando de volta aos tempos das guerras religiosas, da superstição, de regressão cultural? (...) Uma guerra desse tipo não se justifica de forma alguma. A ideologia do hitlerismo, como qualquer outro sistema ideológico, pode ser aceita ou rejeitada, é uma questão de opinião política. Mas qualquer um pode entender que uma ideologia não pode ser destruída pela força (...) Por isso não faz sentido e é certamente um crime travar uma guerra como essa pela eliminação do hitlerismo. [2]

Evidente, não se pode negar o direito de um estado operário fazer pactos militares com um ou outro bando imperialista da guerra, mas a política dos partidos revolucionários internacionais não pode se limitar às táticas militares e diplomáticas de defesa da URSS. Quando Lênin e Trótski defenderam a paz em separado com a Alemanha na primeira guerra mundial, jamais subordinaram o movimento revolucionário no leste europeu ou na Alemanha a esse pacto, ao contrário, os 4 primeiros Congressos da internacional comunista grandes legados para se pensar a revolução na Europa Ocidental até os dias de hoje. Além disso, do ponto de vista estratégico militar, como uma aposta de evitar a guerra mesmo que ao custo de um vitória de Hitler na Europa o que em si já um erro desastroso cometido por Stálin, o pacto deixava a URSS subordinada às decisões da Alemanha, que alimentou a ofensiva contra a França com as matérias primas russas. Além disso, como mostraremos a seguir, a URSS demorou muito a organizar suas defesas contra o ataque alemão, o que mostra que o discurso de “ganhar tempo” é uma falácia.

Já falamos aqui como a burocratização soviética dá saltos a partir da segunda metade da década de 30. O exército também vai ser atingido por ela. Num regime cada vez mais burocrático e autoritário, esse vai ganhando cada vez mais peso social e seu alto escalão ameaçava o poder de Stálin. Sendo assim, Stálin começa um expurgo dentro do exército, prendendo e matando milhares de oficiais, sendo notável o caso do Marechal Mikhail Tukhachevsky, que após te se destacado na Guerra Civil, foi morto em 1937 pelos processos de Moscou. Além disso, Stálin simplesmente ignora os alertas da inteligência soviética de que Hitler se preparava para invadir o país. Como resultado, em meados de 1941 Hitler dá início à Operação Barbarossa e invade a URSS. Encontrando um pais com o exército destroçado (e Hitler sabia disso através dos seus serviços de inteligência), a operação em seu princípio obtém muitos sucessos. Em questão de meses chegam à Moscou e cercam Leningrado.

No entanto, aí que se mostra como a questão política e militar estão imbricadas. Buscando defender a primeira república operária da barbárie nazista, os trabalhadores e a população dessas cidades se mobilizam massivamente, o que atrapalha os planos de uma vitória rápida alemã. Apesar dessa mobilização, contavam com pouco ajuda do exército vermelho, que, como já vimos estava destroçado, o que faz com que o conflito se prolongue e resulte na morte de milhões de civis. Situação parecida vai se dar com o cerco de Stalingrado, iniciado no ano seguinte.

Com a invasão já consumada, a burocracia soviética começa a mudar sua política e fazer efetivamente os preparativos para a Guerra - depois do descalabro do aparato burocrático para coordenar os primeiros esforços de guerra e do início de uma feroz resistência operária com combates casa a casa contra as tropas nazistas em cidades importantes. Aí também, a economia planificada vai mostrar a sua superioridade, visto que, apesar de tardia, a URSS conseguiu reequipar e reestruturar seu exército de forma relativamente rápida se comparada com um país capitalista.

No entanto, a contraofensiva soviética só virá no final de 1942, com a operação Urano e depois a operação Saturno, que conseguem derrotar os alemães em Stalingrado e viram definitivamente a guerra contra a Alemanha, enquanto os aliados adotavam uma estratégia de avanço lento, seguindo primeiro para o norte da África e mediterrâneo antes de abrir uma frente na Europa ocidental. No entanto, a tamanha demora já tinha feito com que milhões fossem mortos, além de um imenso estrago econômico.

Ao mesmo tempo que os soviéticos fazem a contraofensiva, a resistência dos trabalhadores e partisans [3] na Itália e nos países ocupados pelos nazistas aumentam, tanto que, em 1943, Mussolini é derrubado por processos de mobilização.

Mesmo com a situação crítica, a política da burocracia nunca foi de impulsionar a mobilização, muito pelo contrário, esta temia que as forças desatadas na resistência ao nazismo impulsionassem processos mais profundos que questionassem a própria burocracia. É por isso que se esforçaram para encobrir o caráter revolucionário de defesa do Estado Operário Soviético com um verniz nacionalista da Grande Guerra Patriótica [4], culpando inclusive o povo alemão pela guerra e não a burguesia imperialista alemã e dos outros países imperialistas. Além disso, para conseguir firmar os acordos com as potências capitalistas aliadas, Stálin simplesmente dissolve a terceira internacional em 1943.

Além disso, Stálin participa de todos os pactos de divisão do mundo entre as potências imperialistas vencedoras, como os pactos de Teerã, Ialta e Potsdam. Como resultado disso, a URSS orienta os Partidos Comunistas dos países imperialistas a “pausarem” a luta de classes e ajudarem suas burguesias a reconstruírem os países.

Portanto, como vimos aqui, se é verdade que o exército vermelho foi um dos principais responsáveis pela derrota do nazismo (junto à mobilização nos países ocupados) – muito mais que os exércitos americanos e de outros países aliados, isso se deu apesar da política stalinista. A política stalinista, longe de preparar a URSS para a guerra, na verdade facilitou a invasão nazista nos primeiros momentos e fez com que a resistência tivesse custos em vidas e na destruição da economia soviética, sendo muito maiores do que seria necessário. Não à toa que a URSS foi o país com o maior número de mortos.

Portanto, o autoritarismo burocrático stalinista, longe de ter atuado para “conter os contrarrevolucionários”, deixou o país muito mais despreparado para a invasão alemã. Além disso, a lógica política de confiar a defesa da URSS mediante acordos com a burguesia imperialista – consequência da teoria do socialismo em um só país – quase levaram ao fim da União Soviética 50 anos antes do que quando ele ocorre efetivamente. Na próxima parte do texto, buscaremos entender um pouco mais sobre essa degeneração teórica e quais as consequência que tiveram sobre a URSS.

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FOOTNOTES

[2O significado da Segunda Guerra Mundial - ERNST MANDEL

[3Integrantes da resistência armada nas regiões ocupadas pelos nazistas

[4Forma como a burocracia chamava a resistência aos nazistas na URSS
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