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Retomar o Sinpeem | Por que Claudio Fonseca busca impedir que as educadoras lutem contra os ataques?

Em meio a atual crise política e econômica, com quase 700 mil mortos pela pandemia, o agravamento da fome, desemprego, ataques aos nossos direitos e o retorno inseguro das aulas Claudio Fonseca controla o maior sindicato do funcionalismo municipal o SINPEEM de modo que as e os trabalhadores da educação da cidade de São Paulo não encontrem nessa entidade sindical um ponto de apoio para sua organização contra Nunes, Doria, Bolsonaro e o atual regime político, que castiga não somente nossa categoria, mas toda nossa classe.

Grazieli RodriguesProfessora da rede municipal de São Paulo

Sergio AraujoProfessor da rede municipal de São Paulo e integrante do Movimento Nossa Classe Educação

terça-feira 14 de setembro | Edição do dia

Imagem: Greve dos servidores municipais em 2018, quando já se escancarava o papel traidor da direção de Claudio Fonseca.

Os capítulos da crise política nas alturas entre Jair Bolsonaro (sem partido), o STF e o parlamento não param de ganhar novos elementos. Na última semana assistimos o bolsonarismo em busca de aumentar sua sustentação política, bastante degradada nos últimos meses pela crise social, política, econômica e pela pandemia, apostando suas fichas em inflamar sua base reacionária escalando toda sua retórica golpista colocando na mira sobretudo o STF. O ápice desse movimento foram os atos da extrema-direita do 7 de setembro. Mas muito longe dos milhões nas ruas que agitavam, os atos foram bastante aquém do que poderia ser necessário para Bolsonaro adquirir vantagem nessa disputa. Dois dias depois vimos como precisou fazer um importante recuo, voltando atrás com suas ameaças, dizendo que respeita a harmonia dos três poderes. Mas o que precisa ficar claro para nós trabalhadores e conjunto dos oprimidos, Bolsonaro e os militares ao seu redor, o STF, o Centrão e a direita tradicional, por mais que disputem o poder, compartilham em comum um projeto que segue em curso: que é o de nos fazer pagar pela crise, sendo protagonistas ou garantindo legalmente as privatizações, as retiradas de direitos trabalhistas, atacando os povos indígenas, as mulheres, os LGBTs, os negros, retirando os sonhos de nossa juventude, implementando um verdadeiro projeto de educação para a precarização. Não são alternativas ao Bolsonaro.

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E justamente por isso é absurdo que uma grande parte da esquerda, como PT, PCdoB que dirigem as principais centrais sindicais como CUT e CTB, sigam há tempos se negando a impulsionar que a classe trabalhadora possa assumir o protagonismo no enfrentamento aos ataques que vem sofrendo. Uma paralisia traidora que chega ao cúmulo de, às vésperas dos atos bolsonaristas de 7 de setembro, publicar uma carta em que pedem que o supremo, o parlamento e os governadores assumam de fato as rédeas do país, justamente esses que estão unidos para nos atacar, e ainda assim passarem ilesos das críticas de partidos de esquerda como o PSTU e o PSOL. Atuam como um freio às nossas lutas, se negando a unificar os focos de resistência que temos visto em diferentes lugares do país nos exemplos de resistência que expressaram as terceirizadas da LG, os trabalhadores da MRV em Campinas, da empresa de transporte Carris no Sul e atualmente os trabalhadores da Rede TV, se negando a construir um grande plano de lutas que coloque lado a lado dos trabalhadores, os indígenas que nesse exato momento travam uma luta histórica há semanas contra o Marco Temporal.

O descalabro da gestão de Claudio Fonseca e a Compromisso e Luta

O papel que cumprem as centrais e esses partidos já é absurdo, mas quando olhamos para o que é hoje o SINPEEM sob a direção de Cláudio Fonseca, ex-vereador pelo partido golpista Cidadania e base fiel dos governos do PSDB na câmara de São Paulo, é difícil encontrar palavras para descrever o quão inerte e burocratizado está a entidade de uma categoria que tem um histórico de lutas travadas pelas guerreiras e guerreiros educadores da rede municipal. Quando acessamos o site do sindicato parece que estamos em outro país ou tempo. É como se não tivéssemos milhões de pessoas passando fome, quase 700 mil mortos pela pandemia, com tudo ficando mais caro a cada mês, enquanto milhões estão desempregados ou como nossos alunos e ex-alunos em trabalhos mal pagos e extremamente precários. Mas além disso seguimos com ataques aos direitos trabalhistas, reforma administrativa (do nível municipal ao federal), um aprofundamento do SAMPAPREV sendo gestado, o reacionário Ricardo Nunes (MDB) apoiando a pauta obscurantista da bancada da bíblia na prefeitura, as condições sanitárias inseguras das escolas na pandemia - que na educação infantil no município chega ao absurdo de receber 100% das crianças sem segurança sanitária, o estafante e excludente ensino híbrido... É tanta coisa, mas para Claudio Fonseca e a direção do SINPEEM esse caminho de paralisia, controle e completa inatividade política, mantendo ao mesmo tempo a, também fraca, dinâmica corporativa de oferta de cursos e convênios, esconde uma estratégia política defendida também pelos governos que são nossos inimigos: a construção de uma terceira via, ao invés da polarização de Bolsonaro e Lula, com o fortalecimento de uma “alternativa” à direita que conta com o controle dos trabalhadores e por consequência da luta de classes. O presidente do SINPEEM e o conjunto de sua direção atuam conscientemente para separar politicamente nossa categoria do que acontece no país e sobretudo impedir que sejamos parte das lutas em curso, esvaziam o caráter político dos sindicatos. Mas, como dissemos, esse silêncio nada tem de isenção, mas é parte de dar um “empurrãozinho” para a política da direita tradicional, que hoje se coloca como oposição ao governo Bolsonaro. Um último grande exemplo foi o dia nacional de luta contra a reforma administrativa em 18 de agosto, quando o SINPEEM, mais uma vez, não fez nada, absolutamente nada para mobilizar a categoria, além de um pequeno cartaz escondido em seu site chamando. Ou mesmo agora nessa chamado dia Nacional de Luta com mobilização dos servidores públicos municipais chamado para 14/09, que diga-se de passagem deverá ser apenas mais uma data no calendário, já que não está sendo construído por entidade alguma com assembleias nos locais de trabalho, por exemplo. Mas o fato é que o SINPEEM sequer assina esse chamado.

Seu papel de burocrata à frente de nosso sindicato atuando como um agente dos patrões e governos dentro deste instrumento de luta da categoria já é desempenhado por ele há anos e mais anos. O que aconteceu desde o início da pandemia foi ter escalado a um nível de barbárie. A primeira atitude frente ao agravamento da pandemia que levou ao fechamento das escolas foi o de acompanhar o governo PSDBista com sua política do “fique em casa”, ignorando a realidade da grande maioria dos trabalhadores que jamais tiveram o direito a fazer isolamento social, seguiram em transportes lotados e com condições de trabalho inseguras. E mais grave ainda ignorando a necessidade de lutar por medidas reais de combate a pandemia, pela extensão do direito ao isolamento social aos trabalhadores não essenciais, como é o caso de grande parte dos familiares de nossos alunos. Muito longe disso, o que aconteceu foi que o sindicato foi literalmente fechado para a categoria, interrompendo todas as instâncias de discussão e deliberação (REs e Conselho) que seguem fechadas até hoje, mesmo que desde o início do ano a categoria estar trabalhando, desde então sequer reuniões virtuais foram realizadas. Fez isso como parte da preparação para as fraudulentas e ilegítimas eleições que realizou enquanto a categoria apenas começava a chorar seus mortos pela pandemia. Eleições que passaram por fora da maior parte da categoria e resultaram no fato de que agora temos com, Claudio Fonseca e a chapa Compromisso e Luta, uma direção ilegítima à frente de nosso sindicato, afinal foram eleitos nessas condições que denunciamos com 90% de abstenção da base sindicalizada no SINPEEM. Desde então é cada vez mais criminosa sua atuação como um obstáculo à organização e luta de nossa categoria. Durante os ataques de Bruno Covas (PSDB) no ano passado, especialmente o que ficou conhecido como PL 452 que avançava com a privatização e precarização da educação no município, não só não fez nada para mobilizar a categoria para barrá-lo como ainda votou favorável ao projeto na CCJ. Bom, e depois disso a greve em que privou os educadores de qualquer aparato material, e simplesmente impediu que a categoria pudesse decidir qualquer coisa sobre sua luta em assembleias.

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O papel que cumpre Claudio Fonseca é tão importante para os governos e patrões, justamente porque busca impedir aquilo que eles mais temem, justamente o potencial que nós educadores a partir das escolas, temos de nos ligarmos com as demandas dos jovens e dos demais trabalhadores, das mais diferentes categorias, que são os familiares de nossos alunos. A última coisa que querem é que a partir de nossa luta possamos amplificar as vozes e insatisfação de classe como um todo e ser parte de unificar as lutas do conjunto dos trabalhadores e da juventude. Por isso nos querem passivos e apartados de tudo que acontece politicamente no país.

Afinal de contas, quando os sindicatos se resumem às suas pautas mais corporativas, de uma única categoria, naquele espírito de “lutar só pelo nosso”, sem batalhar por demandas políticas mais gerais como é o combate à pandemia, a fome, o desemprego, contra Bolsonaro e Mourão, se ignora o fato de que mesmo aquelas conquistas que uma categoria ou outra pode conseguir de forma isolada poderão ser perdidas, assim como suas condições de vida. Especialmente em momentos como agora, em que os trabalhadores de um modo em geral estão tendo seus direitos atacados, em que a inflação atinge as massas, ou os serviços públicos são privatizados e atacados. Além disso, deixamos de mostrar para a grande parcela da população pobre e oprimida, como são as famílias dos nossos alunos, que é a sua própria classe que pode dar uma saída para as mazelas sofridas. Sempre que os sindicatos abandonam as pautas políticas estão enfraquecendo sua luta e ajudando a manter nossa classe dividida (e mais enfraquecida). Quem agradece são os patrões e os governos a serviço deles. Então como Claudio Fonseca é um político filiado ao Cidadania, a um partido golpista da base governista, vemos que sua atuação não é um mero acaso.

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Como alternativa a todo esse engessamento e controle de nossas vozes, de nossa potência e história de luta, precisamos retomar o sindicato para nossas mãos e impor com a nossa organização em cada escola e região, na da base de categoria e também com a reorganização de um forte pólo de oposição, que unifique todas as correntes e coletivos que se mantenham numa perspectiva de independência de classe. Somente esse caminho pode nos dar condições efetivas para enfrentar o retorno inseguro às aulas, mas também nos colocar entre as primeiras fileiras de resistência contra os ataques de Nunes, João Doria (PSDB), Bolsonaro e Mourão, além do Congresso e STF e o conjunto dos atores do atual regime, que atuam para nos fazer pagar pela crise sanitária, política, econômica e social - sendo a escola uma das instituições que refletem profundamente as mazelas desse momento.

Nossa categoria composta majoritariamente de mulheres,uma categoria cada vez mais negra e profundamente ligada à vida das trabalhadoras terceirizadas, das comunidades e dos trabalhadores, certamente tem um papel importante na construção de alternativas de independência de classe contra toda miséria do possível que quer os deixar em stand-by até 2022 passando os ataques que tiverem que passar e nos colocam como opção Bolsonaro, PT e Lula ou o perdão aos golpistas que tentam construir uma 3ª via da burguesia com partidos como o de Claudio Fonseca. Retomemos o lugar que sempre ocupamos na história, às ruas em luta, revivendo a moral que nos fez derrotar o SAMPAPREV de Doria e mostrar um caminho de resistência com a Reforma da Previdência de Bolsonaro que foi exemplo nacional em 2018.

Sobre o papel da comunidade escolar: Que cada escola e comunidade escolar se organize em comissões para amplificar nossa força, alcance e voz

Lutar pela construção de um pólo antiburocrático para lutar pelo retomada do SINPEEM para as mãos dos trabalhadores.

Ao final das eleições fraudulentas no ano passado, nós do movimento Nossa Classe defendemos, inclusive durante o processo de composição de chapas para o Conselho de representantes escolares, que a oposição a Claudio Fonseca precisaria atuar em direção a conformar um pólo antiburocrático, que unificasse os setores combativos de nossa categoria, mas a partir do princípio de independência de classe, ou seja que defende que a classe trabalhadora é a protagonista para derrotar os ataques e os governos a serviço dos patrões, sem qualquer ilusão de que possamos confiar na justiça da burguesia ou se relegar aos métodos de pressão parlamentar. Ou seja, em contraponto a como atuam o PT, o PCdoB à frente das principais centrais sindicais do país, CUT e CTB. Para nós essa perspectiva é imprescindível se queremos enfrentar a burocracia de Claudio Fonseca e retomar o SINPEEM para as nossas mãos.

Também é imprescindível superar a separação entre a vanguarda dos lutadores da base da nossa categoria, de cada professora e professor das escolas que como fruto da atuação traidora da burocracia, de isolar e desmobilizar, não acompanhou a greve. É papel da vanguarda da nossa categoria mais do que nunca buscar se ligar a cada professora e professor e batalhar para que sejam parte de construir uma alternativa à CF, é nosso papel combater o ceticismo e a atomização das escolas, que apenas beneficia as direções traidoras, os governos e os patrões.

Portanto nós do Movimento Nossa Classe Educação defendemos que os setores da oposição precisam construir uma grande plenária da categoria, reunindo os lutadores e todas e todos os educadores que querem batalhar para recuperar o sindicato, para debater e construir ações conjuntas para que possamos nos ligar a base da categoria e lutar em unidade, mas sempre com independência de classe apoiados em nossos métodos de luta e organização com total democracia e retomar os sindicatos em nossas mãos. Essa plenária poderia ser realizada de forma presencial, com segurança sanitária, reunindo todos aqueles que já receberam a segunda dose da vacina, mas que permita que aqueles que tiverem necessidade que participem de forma remota.




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