ARGENTINA

Por Franco, Espinoza e George: a juventude argentina nas ruas contra a precarização

Em tempos em que a brutalidade capitalista parece nos deixar sem ar, o grito da juventude que chega para dizer basta nas ruas é um verdadeiro sopro de ar fresco.

sexta-feira 29 de maio| Edição do dia

As imagens da polícia sufocando George Floyd, com o joelho pressionando o pescoço e a cabeça contra o asfalto, também nos deixam sem fôlego.

  • I can’t breathe! – não posso respirar, era a única coisa que George podia gritar.

Mas o policial que estava o segurando e seus cúmplices não tiveram piedade. As imagens registradas pelas testemunhas do evento são muito claras: se trata de um crime racial, dos mais absurdos, policiais matando um homem faminto, apenas por matar. Fortalecidos pelo discurso da supremacia branca que Trump encarna, eles agem diante da crise desencadeada pelo desemprego e pela fome nos Estados Unidos, percebendo que não há sociedade pós-racial. George só queria conseguir comida.

  • Animais que saem para matar - disse Norita Cortiñas em entrevista nesta terça-feira, no programa Tinha Que Ser Dito do La Izquierda Diario Multimedia. Não estava falando sobre a polícia da potência imperialista, mas sobre a polícia de Tucumán. Um juiz determinou que o que eles fizeram com Espinoza, um trabalhador rural que estava desaparecido por vários dias, foi um desaparecimento forçado seguido de morte. Um crime de Estado, como o que aconteceu com a Gendarmería e Santiago Maldonado. Eles o mataram e queriam se livrar de seu corpo.

Esses eventos tão distantes e tão similares ocorrem em um contexto em que todos os governos respondem com repressão às necessidades daqueles que mais sofrem com as conseqüências da pandemia. Outro exemplo negro foi visto nesta semana na província de Buenos Aires, onde antes do surto de contágio em Villa Azul, 900 soldados chegaram mais rápido para fechar o bairro como um gueto, antes de 200 testes.

Com sua resposta repressiva, os governos apenas cuidam da riqueza volumosa daqueles que acumulam tudo aquilo que serviria para combater a precariedade do trabalho e da vida: a fome, o sofrimento daqueles que ficaram sem trabalho, sem dinheiro, a falta de água ou para suprir hospitais públicos desarmados diante da crise da saúde.

A juventude precarizada sai para protestar nesta sexta-feira nas ruas da Argentina, avançando na coordenação de suas lutas e na organização. Os e as mais jovens estão começando a mostrar, como em outras partes do mundo, que a precarização e a barbárie dos estados capitalistas não podem ser a única resposta à pandemia.

Mais passos na coordenação e organização

A economia de aplicativos tornou-se uma espécie de reservatório para aqueles que são demitidos e deixados à deriva pelas empresas, forçados a trabalhar nas piores condições, com muita pressão e com alto risco de contágio em todo o mundo. Ao desprezo patronal se soma a cumplicidade dos governos e dos sindicatos que lhes dão as costas.

Na Argentina, nos dois meses de quarentena, já morreram quatro trabalhadores de aplicativos, enquanto faziam uma distribuição. Um por quinzena. Franco Almada era um deles. Sua irmã Bárbara também apareceu esta semana no La Izquierda Diario, convocando às ações que a juventude precarizada protagonizará na sexta-feira 29, em um novo aniversário do Cordobazo, na Capital Federal e em outras partes do país.

A convocação a paralisação e a mobilização da Assembléia Nacional dos Trabalhadores da Distribuição convergirá nas ruas com uma nova ação da Rede de Trabalhadores Precários e Informais. O epicentro dos protestos será a cidade de Buenos Aires. Às 10 horas da manhã, os entregadores organizados na Assembléia se concentrarão no obelisco. Lá, eles também convocam trabalhadores de aplicativos que se organizam na Internet com outros setores, como call centers e desempregados da CABA e do Conurbano. Os trabalhadores do setor de alimentos virão da Zona Oeste, domésticos da Zona Norte e desempregados da Zona Sul, para citar alguns exemplos.

O primeiro dia nacional da Assembléia de Revendedores ocorreu em 8 de maio, fato que abordamos aqui na íntegra. A primeira aparição nas ruas da Rede ocorreu em 14 de maio, sendo a maior mobilização promovida por jovens precários até agora, com amplas repercussões nacionais, como mostramos aqui.

Após essa ação, ocorreu uma assembléia virtual da Rede, na qual mais de mil jovens de todo o país votaram para convergir com a nova ação que os distribuidores estavam convocando nesta sexta-feira, 29 no Obelisco. A partir desse processo, surge o chamado que reunirá centenas de jovens que se mobilizarão até o Ministério do Trabalho em defesa de seus direitos e por diversas reivindicações.

Além de exigir melhores condições para o setor de aplicativos, a Rede se coloca por medidas que respondem à realidade desesperadora de milhões de pessoas que sofrem de precarização e desemprego, como um IFE de 30 mil pesos para todos que precisam, por exemplo o setor de migrantes amplamente excluído desse benefício pelo governo. Correspondentes do La Izquierda Diario, que fazem parte por sua vez da mesma juventude trabalhadora e estudantes que se organizam, relataram todo esse processo de organização em uma crônica altamente recomendada aqui.

Outros Pontos Quentes

Às 10 horas, os motoristas de entrega e a Rede também estão concentrarão em San Miguel de Tucumán. Eles repudiarão as ações policiais que tiraram a vida de Espinoza e que assediam os jovens trabalhadores pelas ruas da capital. De lá vieram imagens de um jovem entregador que foi detido injustamente por dois policiais de Tucuman. Está claro que as forças repressivas não podem cuidar da juventude trabalhadora de nenhuma parte do mundo. Também haverá uma forte demanda por trabalhadores de call center, que têm enfrentado a traição do sindicato, demissões e suspensões.

"Às 10h de Mitre e Pellegrini, haverá uma nova mobilização da Rede de Trabalhadores Precários e Informais no marco da Segunda Jornada Nacional e da paralisação e mobilização nacional de entregadores", relatam os correspondentes de Rosario. Lá a jornada tem o objetivo de conseguir, na quarta-feira 27, a readmissão de Fausto Bonansea, demitido do call center e referência a Rede durante a quarentena.

Além disso, na cidade de Santa Fé, os motoristas da UTA vêm de mais de 10 dias de greve e mobilizações massivas em defesa de seus salários e a Rede expressou sua solidariedade.

Em La Plata, A Rede de Precarizadxs se mobilizou até o Ministério do Trabalho na sexta-feira 22.

Esse protesto foi liderado por trabalhadores da República da Criança, da empresa Amiplast, da barra de Malvinas, distribuidores das diferentes empresas de aplicativos, entre outros setores. O Centro de Profissionais de Direitos Humanos (CeProDH) acompanhou a denúncia. Nesta sexta-feira, os trabalhadores da Amiplast terão uma audiência no ministério do trabalho de Buenos Aires e, em seguida, se mobilizarão com a Rede, que está saindo pelas ruas pela terceira vez e que também está discutindo em assembleias e em turnês nas ruas com trabalhadores de entrega.

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Este VIERNES, volvemos a salir a las calles! Porque cada día se suman más pibxs que fueron despedidos, que están desocupados, que están laburando por dos mangos sin seguridad e higiene. Más de 4millones no recibimos la IFE, se rechazó el pedido, otros no la pedimos y ahora fuimos despedidos o no podemos llegar a fin de mes con la inflación en curso, otros la cobramos y tampoco alcanza porque somos muchos en la casa.. Necesitamos IFE PARA TODXS! Y respuesta urgente del gobernador @kicillofok y del @trabajoar de la provincia. @empleadosmalvinas, @juegosdelarepu, @trabajadoresdeamiplastenlucha necesitan respuestas ya! CONCENTRAMOS EN EL MINISTERIO DE TRABAJO (7 Y 39) DESDE LAS 11HS CON TODAS LAS MEDIDAS DE SEGURIDAD Y A LAS 14HS LOS REPARTIDORES DE LA RED NOS SUMAMOS A LA CARAVANA DE REPARTIDORES EN PLAZA MORENO ✊🏼🚴‍♂️🛵🎒

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Em Mar del Plata, os funcionários de Apps na a Rede e de outros setores precários também participam da convocação às 11 da manhã.

Pela Tarde

O dia do protesto continua à tarde em outras partes do país. Em Córdoba, a Rede e os trabalhadores da entrega convocam mobilização às 17h.

A classe trabalhadora de diferentes ângulos, os mais jovem e os nem tanto, tem abalado o governo de Schiaretti e Llaryora. Lá, trabalhadores da saúde, funcionários municipais e motoristas da UTA vêm se manifestando em massa.

Bom momento para rever a história do Cordobazo, aquele marco em que trabalhadores e estudantes desafiaram o poder:

Em Jujuy, terra onde 9 em cada 10 jovens trabalham sem se registrar, a jornada também começa às 17:30. A dura realidade vivida pelos jovens nas terras de Gerardo Morales também vem sendo relatada pelos correspondentes deste diário. Essa crônica de um trabalhador de fast food de San Salvador também é altamente recomendada.

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Venite este viernes a marchar con la Red de trabajadores precarizados ✊🏾 Movilizamos de nuevo en todo el país!!! 📢📢📢 Este sábado nos conectamos más de 1100 en todo el país y votamos en asambleas virtuales 📲 Estamos tejiendo una enorme Red de laburantes de distintos sectores. 🕸️🕸️ Nos comprometimos a volver a las calles (con distanciamiento social😷), otra no nos queda. Porque hay pibes que cobraron 0 pesos😡. Si nos despiden por WhatsApp📞. Si nos mata la precarización. Y si a los que pedimos cobrar la IFE no se nos entrega 😒. Los empresarios aprovechan la cuarentena para quitarnos nuestros derechos, los gobiernos miran para otro lado y los dirigentes sindicales, bueno ya sabemos, arreglan todo🙄🙄 Nosotros nos levantamos todos juntos, porque no lo vamos a permitir👫👫👫 #LosJóvenesTenemosDerechos, y nos estamos organizando.

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"No fim de semana passado, realizamos uma assembléia em Salta e Jujuy, onde decidimos fazer parte do dia de luta e visibilidade na sexta-feira 29 de maio para nos reunirmos com a convocação da Assembléia Nacional dos Trabalhadores da Distribuição para multiplicar forças e coordenação. Em Salta, nos reuniremos às 17h30 nos séculos Plazoleta IV para tornar visíveis nossas reivindicações. Convidamos todos os trabalhadores precários a fazer parte ", informa o correspondente de Salta. Lá, a ação também é chamada em um contexto que desafia uma tremenda brutalidade policial e onde a pobreza tirou a vida das crianças wuchis da fome, muito antes da chegada da pandemia.

Por fim, a última ação de rua de que este diário tomou conhecimento ocorrerá às 17 em Neuquén. Trabalhadores do setor de alimentos e comércio, juntamente com os funcionários de aplicativos, se esforçarão para levantar sua demanda contra cortes de salários e demissões, bem como a demanda do IFE para todos.

Sua resposta e a nossa

O ódio pelo assassinato de George desencadeou enormes mobilizações e ações nas ruas.

Eles se reúnem com uma onda cada vez maior de protestos contra a precarização, convocados espontaneamente, conforme relatado pelos correspondentes dos Estados Unidos da Left Voice. Dizem que é difícil para eles acompanhar os protestos que ocorrem dia após dia em todo o coração da besta. A juventude dá resposta a uma crise que já golpeou fortemente, com uma taxa de desemprego que avança de milhões semana a semana e diante de uma crise de saúde que, como resultado do próprio racismo, pune com mais força a população migrante e afro-americana.

De outros países, correspondentes de nossa rede internacional de mídia também nos informam sobre ações promovidas por jovens. Nesta mesma sexta-feira, haverá um protesto de entregadores e jovens precarizados na Costa Rica, por exemplo.

As novas ações de rua que estão ocorrendo na Argentina têm como pano de fundo esse mundo conturbado. Esses são novos passos na organização e coordenação, tão necessários para enfrentar o destino que querem impor os empresários, sindicatos traidores e governos que cuidam das fortunas dos poderosos.

Nos tempos em que a brutalidade capitalista parece nos deixar sem ar, o grito da juventude que chega para dizer basta nas ruas é um verdadeiro sopro de ar fresco.




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