Cultura

CONTO

Ponto de ônibus

Conto sobre alguns dos problemas da realidade brasileira.

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 30 de março| Edição do dia

(imagem: obra " Abandono " de Osvaldo Goeldi)

Naquela madrugada o centro da cidade guardava muitas semelhanças com filmes de mortos vivos: quem madrugava vivia como os mortos. Os trabalhadores respiravam em paisagens sem vida. Em uma Era pestilenta os corpos mal descansados seguiam preguiçosamente para o ponto de ônibus. Ali, naquele ponto de ônibus que assemelhava-se a um cemitério, os trabalhadores conversavam.

Trabalhador 1: - O que aquele gerente tá pensando da vida, mano?! Sou peão mas num sou burro de carga.

Trabalhador 2:- O cara é um folgado. Acha que a empresa é dele, que as peças são dele, mas ganha só um pouquinho a mais que nois.

O sol engravatado que pagava uma fortuna para alugar o céu por 13 horas, não se decidia se valia a pena iluminar aquela rua íngreme em que trabalhadores se aglomeravam no ponto de ônibus. Eram 5:30 h da manhã quando os restos da noite eram despejados pelo ar: o odor de cobertores imundos de mendigos insones, o som da risada histérica de alguém que perdeu o pedaço do espírito numa viela, o gemido mudo de um homem que vindo de fora da cidade não conseguiu emprego e fez da calçada o seu colchão, da luz do poste o seu abajur e da lixeira o seu refeitório. No ponto, uma senhora de cabelos grisalhos comentava com a companheira de trabalho:

Trabalhadora 3: - Deus é quem sabe... O diabo vive nas esquinas soprando no ouvido dos vagabundos. Só cai na lábia dele quem quer. Tem gente que olha para esses “ noias “ aí jogados na calçada e fica sentindo pena. Eu não tenho pena!

Trabalhadora 4: - Nem eu! São tudo malandro... Por que não tomam um banho e batalham para vencer? Sabe, todos os grandes empresários começaram debaixo. É só arregaçar as mangas e trabalhar!

Enquanto a trabalhadora fazia o seu discurso empreendedor, um trabalhador chegou correndo, inutilmente esbaforido porque acabou de perder o seu ônibus. Com a máscara umedecida de suor e os olhos enraivecidos ele fez um comentário colérico:

Trabalhador 5: - Vida amaldiçoada! Além de correr o risco de fritar de febre até a morte por conta do coronavírus, terei o salário descontado por chegar atrasado. É isso aí, sou assalariado! Sei o que sou e não caio na lorota de ser “ empreendedor “.

As trabalhadoras 4 e 3 ficaram extremamente incomodadas com o desabafo do Trabalhador 5. Como aquele homem mal vestido e revoltado poderia desdenhar dos sonhos de enriquecimento individual?

Trabalhadora 4: - Moço, Deus só ajuda aqueles que são merecedores. Trabalhe e prospere!

Trabalhador 5: - Por acaso a senhora prosperou? Por que está aqui com este monte de peões?

Ouvindo a discussão, o Trabalhador 1 se meteu na conversa e tomou partido do Trabalhador 5.

Trabalhador 1: É isso mesmo, vê se para de tapar o sol com a peneira.

Uma jovem de olheiras fundas e rosto machucado também interveio na discussão. Dirigindo-se ás trabalhadoras 3 e 4, a Trabalhadora 6 afirmou:

Trabalhadora 6: - Vocês duas precisam aprender a sentir aonde estão pisando e entender o que estão olhando. Uma grande quantidade de trabalhadores está morrendo por conta da Covid, um grande número sem emprego fixo. Olhem essa miséria ao redor! Em que planeta vocês vivem?

Um trabalhador, na altura dos seus cinquenta anos, aproximou-se e repreendendo a Trabalhadora 6 disse:

Trabalhador 7: - Espera um minuto moça! Somos todos brasileiros, ricos ou pobres. Ame o seu país! As pessoas que prosperaram são patriotas.

Trabalhador 2: - A pátria deles é só deles: é a pátria dos ricos. Quem trabalha e espera pelo ônibus não tem pátria.

Observação: esta é uma pequena obra de ficção inspirada nos problemas da realidade brasileira. Personagens e situações foram inventados pelo autor.




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