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Eleições 2022 | Petismo inicia operação de "esquerdização" do reacionário picolé de chuchu, Geraldo Alckmin

A possível aliança entre Lula e Alckmin está dando o que falar. Lideranças, intelectuais e mídias petistas já estão operando o extravagante movimento de “esquerdizar Alckmin”. O que está por trás dessa operação?

sábado 13 de novembro | Edição do dia

Nessa semana vimos uma curiosa troca de afagos entre Lula e Alckmin. Um disse que o outro é o “único tucano que gosta de pobre”, o outro “ficou honrado com a lembrança” de seu nome. Entre trovas e chavecos na coluna da Mônica Bergamo, a militância petista saiu enfurecida dizendo que era tudo fofoca, mas até agora ninguém desmentiu o namoro. Em seguida, um conhecido cientista político petista desenterrou comentários de Alckmin contrários ao impeachment de Dilma em 2015. Luiz Marinho, presidente do PT de São Paulo e ex-prefeito de São Bernardo, admitiu que Alckmin pode ser o vice de Lula. Mídias petistas estão trabalhando suas manchetes para adocicar a aliança.

Está em curso, a um ano do pleito, uma gradual operação de “esquerdização” do reacionário Geraldo Alckmin a fim de suavizar a aliança que pode selar o projeto de conciliação de classes e de estabilização do regime político. Se o namoro não der em casamento, pouco importa para ambos, pois a lei do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” ainda conserva sua importância nos cálculos políticos, seja para o Planalto, seja para o Palácio dos Bandeirantes. Para onde irá esse flerte todo, nós não sabemos, mas podemos traçar hipóteses e, sobretudo, compreender o que há por trás dessa importante operação ideológica.

O tweet de Alberto Carlos Almeida ilustra perfeitamente essa operação. Ele pode ser visto aqui, mas nós resumimos: são quatro fotos de manchetes mostrando como Alckmin disse que era contra o impeachment de Dilma Roussef em 2015 e que Dilma preferiria Alckmin a Bolsonaro ou Dória, em 2018. Já estão pintando o picolé de chuchu de vermelho. Almeida não é propriamente militante, mas, petista, cumpre bem o papel de conselheiro do rei.

A fala sobre Alckmin ser o único tucano que gosta de pobre (sic) saiu na coluna da Thais Oyama, do UOL, que adicionou o fato de o ex-presidente ser "o maior entusiasta” da aliança. A tropa de choque lulista saiu em polvorosa dizendo que era boato, que era mentira, que era o jogo da direita, etc. Mas até agora nem Lula nem ninguém próximo dele negou a fala e, pouco a pouco, vão desenhando um Alckmin sensível às mazelas da população, da pobreza e da desigualdade social (!!!). Será que Lula estava se recordando do dia em que o picolé se fantasiou de cangaceiro nas eleições de 2018? Nas incontáveis vezes em que Alckmin arregaçou com os direitos dos professores e funcionários de escola do estado? Ou quando enviou uma tropa de milhares de PMs para despejar e massacrar famílias na ocupação do Pinheirinho em São José dos Campos?

A hipótese da chapa, na verdade, não é propriamente “nova”. Em abril deste ano, Renato Rovai, da Fórum, já a aventava após fazer entrevista com Gleisi Hoffmann e disse que a aliança com Alckmin “fazia sentido” para “reconstruir o Estado brasileiro e garantir governabilidade”. A sugestão implícita é de que nem Gleisi negou essa possibilidade já em abril.

O ex-governador de São Paulo já acenou à possibilidade e disse ter ficado “honrado pela lembrança”. Completou com uma piscadela, dizendo que não possui diferenças intransponíveis com o petista e que a política deve ser feita com civilidade. Onde estava toda essa civilidade quando Alckmin enviava sua tropa para espancar secundaristas durante as ocupações em 2015? Ou quando demitiu metroviários por fazer greve? Ou todas as vezes em que enviou a PM, uma das mais assassinas do mundo, diga-se de passagem, para despejar famílias pobres em ocupações?

Fato é que de duas uma: ou Lula não sai com Alckmin, e toda essa história serviria a dois propósitos simultâneos – o de fortalecer Alckmin em São Paulo numa eventual candidatura pelo PSB ou PSD contra Rodrigo Garcia (PSDB) e o de fortalecer a imagem de um “Lulinha paz e amor” reconciliado com os golpistas e neoliberais do establishment brasileiro; ou, segunda hipótese, daqui até o ano que vem o caminho da frente ampla vai sendo pavimentado para que PT saia com PSB de Márcio França, PSD de Kassab ou mesmo a mistureba reacionária que vier da fusão entre DEM e PSL – o tucano ainda está ciscando as siglas e ainda não se decidiu em qual ninho vai dormir.

Em ambos os casos, de o casamento dar certo ou não, a operação terá sucesso. Em termos políticos, trata-se da chamada dog whistle politics, onde a mensagem veiculada por Mônica Bergamo e Thais Oyama, talvez “vazada” conscientemente por algum dirigente petista, servem para medir o ânimo das classes e enviar uma mensagem “cifrada” ao capital financeiro de que Lula, definitivamente, não romperá com o establishment e não afetará os interesses das classes dominantes. Isso é o que está em jogo. Lula e o PT estão dispostos a administrar esse regime golpista, conservando o teto de gastos e as reformas neoliberais aprovadas desde 2016, a fim de lhe conferir estabilidade depois do vendaval bolsonarista. Essa é a mensagem principal, independentemente se a chapa esquentar ou não.

Antes do PT guinar definitivamente à direita, é preciso reconfigurar a imagem do tucano e trazê-lo à esquerda. Até ontem Alckmin era, na retórica petista, praticamente um fascista da Opus Dei. Quem já ouviu Marilena Chauí falar na USP sabe disso muito bem. Hoje ele está virando um homem sensível às desigualdades sociais e à pobreza, uma exceção entre o tucanato por ter ido “contra o impeachment” (esqueceram que Alckmin dava catraca livre no metrô de SP na época dos atos contra a Dilma?), alguém necessário para “reconstruir o Estado”… está correndo um tweet petista comparando Lula com Luis Carlos Prestes em 1950, quando apoiou Vargas à presidência, mesmo ele tendo enviado sua esposa, Olga Benário, para a câmara de gás no campo de concentração nazista em Bernburg (uma comparação desastrosa por, além de não ter cabimento algum, reivindicar o caso do então stalinista Prestes apoiar a burguesia nacional e um representante que acabava de encabeçar uma ditadura). É nesse clima “épico” que os petistas pintam de vermelho o reacionário médico de Pindamonhangaba, destruidor do Tietê e dos direitos dos trabalhadores paulistas, operador do propinoduto, mestre das privatizações e insosso e legítimo representante dos herdeiros de barões escravocratas, bandeirantes e mauricinhos do Higienópolis e Jardins.

A tarefa de esquerdizar Alckmin é inglória, impossível para quem tem o mínimo de memória ou pitadas de bom senso, mas para quem já escolheu Michel Temer ou José Alencar, do PL (o mesmo que daqui duas semanas Bolsonaro se filiará), o que é um Geraldo Alckmin de vice, não é mesmo?

Quem dorme com cachorro acorda cheio de pulgas, diz a sabedoria popular. E quem dorme com cachorro do Tietê, acorda como? A bem dizer, Lula e o PT estão repetindo os passos que nos trouxeram ao buraco de hoje. A aliança com a direita pavimentou o caminho do golpe e abriu espaço para que o bolsonarismo se fortalecesse, bem como aos defensores da nefasta Lava-Jato. Alckmin, e os oligarcas emedebistas que Lula vêm se reunindo recentemente, foram e são aliados fundamentais em 99% dos ataques perpetrados por Bolsonaro, das privatizações às reformas. Como combater esses ataques se aliando com os mesmos algozes?

Para acabar, um último sentido dessa operação ideológica é esticar a corda à direita, capturar cognitivamente os setores à esquerda do PT nessa Frente Ampla, deixá-los espernear, para depois fechar uma chapa com alguém um pouco menos reacionário e ser aplaudido pelos pomares arcaicos da esquerda do PT ou do PSOL. Ou seja, uma operação feita para tentar neutralizar qualquer setor à esquerda do PT. Tipo assim, Lula ouviu os conselhos da “esquerda radical” e não vai sair com Alckmin...

De mal menor em mal menor, o PT vai construindo o mal pior, rebaixando as aspirações e pouco a pouco caminhando à direita. Basta disso, é preciso construir uma alternativa dos trabalhadores e de esquerda desde já, e é a serviço desse projeto que nós do MRT e do Esquerda Diário batalhamos.




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