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Perseguição política

Perseguição política na Caixa demite delegado sindical em Sergipe

Flaviano Cardoso, bancário e delegado sindical da Caixa, foi demitido pela direção do banco no último mês de agosto após sua atuação no combate ao assédio moral em seu local de trabalho.

quarta-feira 30 de setembro| Edição do dia

O Esquerda Diário entrevistou Flaviano Cardoso, ativista político, advogado e bancário da Caixa há 11 anos, sobre o processo de perseguição política que resultou em sua demissão pela direção do banco no último mês de agosto.

Esquerda Diário: Segundo seus relatos nas redes, o processo que culminou na sua demissão por justa causa foi uma retaliação por conta da sua atuação como ativista sindical no combate ao assédio moral em seu local de trabalho. Você pode contar mais sobre o que ocorreu?
Primeiramente, é com imenso prazer e satisfação que recebo este convite do Esquerda Diário para narrar o problema de trabalho ocorrido durante uma luta sindical. Queria saudar também os companheiros bancários que são parte do Esquerda Diário, com quem atuei na oposição bancária no período em que estive em São Paulo. É muito gratificante esse instrumento ser construído online para apresentar informação de boa qualidade, formação além da informação, para que a gente possa organizar a classe trabalhadora num objetivo nosso de luta.
Bom, o que ocorreu foi um processo de perseguição política que culminou, em primeira instância, na minha demissão por justa causa. Eu tenho uma história como ativista sindical, militante, desde que trabalhei em São Paulo, em organismos de base, como delegado sindical, chegando inclusive a ser presidente da CIPA do Edifício Sé/SP, maior base de cipeiros do país na Caixa Econômica Federal. Dentro do processo de organização das lutas, às vezes a gente tem divergências com a condução dos gestores. Com o então gerente geral da minha agência, em Aracaju, mais do que divergências, que geralmente são superadas e discutidas, houve uma necessidade de um enfrentamento sindical porque o assédio moral que ele estava promovendo era muito nocivo à saúde mental dos trabalhadores, chegando a ter imagens explícitas de colegas chorando, gente sendo perseguida, culminando inclusive com a transferência de uma colega para uma agência distante de sua residência por conta de divergências com a gestão.
Então o que aconteceu lá foi um enfrentamento a esse processo que, inclusive está aberto, pois existe um processo administrativo em curso contra esse gerente, que foi promovido a superintendente, tendo recebido uma espécie de reconhecimento pelo assédio que promoveu. A nossa reação foi a de publicar boletim, fazer falas com carro de som na frente da unidade de trabalho, iniciativas para discutir esse problema com os colegas, o que configura uma ação de defesa da organização no local de trabalho, ou seja, trata-se da proteção das condições de trabalho dos colegas que estão na unidade.
Foi a partir desse processo de luta que o gerente geral iniciou, junto com a AGECEF de Sergipe, um processo administrativo buscando encontrar contradições no meu perfil profissional. Como eu sou advogado há muito tempo, eles fizeram pesquisas detalhadas nos fóruns e descobriram a existência de 3 processos contra a Caixa. Um deles nunca chegou a existir porque a Caixa foi colocada no pólo passivo por engano e os outros 2 eu nunca tive ciência da constituição do processo, nunca tive nenhum ato realizado em qualquer processo judicial contra a Caixa. Então foi algo que foi feito por engano por colegas que fizeram parceria advocatícia comigo e eu não assino procuração, e na procuração colocam o nome e o número do advogado.
Então, foi a partir desse argumento e de uma alegação falsa, de que eu tinha trabalhado em uma audiência durante o meu expediente de trabalho que o processo administrativo foi aberto contra mim. Mas sobre a alegação a gente conseguiu juntar o vídeo da audiência em questão e informar que era falsa, porque no vídeo não consta eu atuando como advogado e sim uma colega minha, além do fato de que a audiência não tinha nada a ver com a Caixa.
A partir dessa constatação, foi instaurado um procedimento e, neste, o JURIR (Departamento Jurídico da Caixa) chegou a se manifestar afirmando que não existe nada que possa ser atribuído em nenhum tipo criminal ou que civilmente deva ser reembolsado, ou seja, nenhum prejuízo financeiro e nenhuma conduta tipificada como crime pelo próprio JURIR, em parecer que consta nos próprios autos do processo administrativo.
Então a partir disso começamos a fazer uma grande campanha nacional que coincidiu com os debates iniciais da nossa campanha salarial dos bancários. Essa demissão é extremamente persecutória e desproporcional e é uma lição de que existe uma tentativa de intimidar a luta dos trabalhadores bancários. Porque o que eu fiz como cipeiro e delegado sindical não é algo que tirei da cabeça e sim fruto da história de luta e de organização dos bancários, e o organismo de base sindical é profundamente importante pra fazer qualquer tipo de resistência política. E num momento que tem um processo de privatização da nossa empresa ter essa intimidação é uma ação coordenada da política do banco, então a gente entende que a demissão é uma grave e forte perseguição política.

ED: Trata-se de uma evidente perseguição política, uma vez que até mesmo o setor jurídico dessa regional da Caixa emitiu parecer favorável à sua defesa. Pelo seu relato, a perseguição política à sua figura tem uma clara intenção de intimidar todos que se levantam para lutar pelo papel da Caixa como banco público, a serviço do conjunto da população ainda mais nesse momento de crise e pandemia. Como se não bastasse, nesse momento em que a Caixa tem cumprido um papel essencial apesar de todo sucateamento histórico, o governo Bolsonaro tem preparado uma série de ataques buscando pavimentar o caminho da privatização. Como, na sua visão, se relacionam esses ataques e sua perseguição política?

Então, a MP 995 é uma iniciativa inédita na história do Brasil de buscar iniciar um processo de privatização de uma empresa 100% pública. É bom lembrar que uma empresa pública é instituída por lei federal, que se trata de um papel do legislativo, do Congresso Nacional. Então tem o Bolsonaro editando a MP 995, que é uma Medida Provisória unilateral de caráter decretual, que não permite debate. E no período de validade dessa MP, para que ela possa ser revalidada ou convertida em Projeto de Lei, ele quer implementar o maior assalto público na história da nossa empresa permitindo que a Caixa entre em um processo de privatização que permita a venda de suas áreas mais rentáveis, suas áreas mais lucrativas, e fique basicamente com funções que não tem um retorno financeiro imediato. Seria quebrar a dinâmica estrutural da nossa empresa, o que significaria quebrar um patrimônio do povo brasileiro. Porque a Caixa, ao ser 100% pública, é a principal responsável pela execução, é o braço armado do ponto de vista econômico, financeiro e fiscal, do governo brasileiro. O povo brasileiro acaba perdendo muito com isso. E o ataque a esse instrumento de organização dos delegados sindicais, o ataque à organização sindical dos trabalhadores, à própria dinâmica de greve da categoria. E nesse ponto a gente faz um balanço muito negativo da forma que a direção majoritária do movimento (CUT e CTB) conduziu a luta dos trabalhadores no último período, mas o governo ao implementar esse ataque, e a minha demissão vem nesse bojo, quer a desestruturação da organização dos trabalhadores no local de trabalho. Porque eu tenho uma luta histórica construída nesse perfil e tirar um quadro como eu da Caixa é importante para a direção da empresa dificultar a resistência de seus empregados.

ED: Diante disso é fundamental todos terem a clareza de que a perseguição política à sua figura representa uma perseguição ao conjunto do movimento. E deixar passar esse ataque sem luta é uma derrota para o conjunto dos bancários. Como a direção do sindicato dos bancários regional e nacionalmente tem intervido nessa questão?

Eu agradeço muito por essa pergunta. Um sindicato é um instrumento construído pelos trabalhadores para cumprir um papel, defender seus interesses diretos, as chamadas pautas econômicas, o sindicato tem que garantir a defesa de seus trabalhadores, ele tem que tomar lado pelos trabalhadores que ele representa. E a postura do Sindicato dos Bancários de Sergipe tem sido uma postura de gestão da crise. Então é uma postura que busca negociar com a Caixa, mas sem ter uma representação direta e ativa em defesa da luta pela readmissão, lamentavelmente. Porque se essa luta fosse encampada pelo movimento sindical ela representaria um avanço importante no nível de consciência dos trabalhadores, principalmente no que se refere à organização nos locais de trabalho. Infelizmente o sindicato de Sergipe, dirigido pela CTB, tem cumprido um desserviço nesse processo de luta do ponto de vista do que seria possível potencializar. Mas é bom registrar, o sindicato viabilizou a defesa jurídica na segunda instância e girou alguns dirigentes do sindicato para acompanhar o caso. Mas falta uma atuação mais ativa, de defesa política mais aberta. Mas a decisão do sindicato por essa tática de gestão da crise, na minha opinião, tem fragilizado o processo de luta pela minha readmissão.

*

O Esquerda Diário, junto a outras organizações e sindicatos, é parte da luta pela imediata readmissão de Flaviano, reconhecido ativista sindical, e pelo fim da perseguição política na Caixa. Nesse sentido, é fundamental cada bancário e cada um dos sindicatos de bancários de todo o país encamparem essa luta em defesa da organização dos trabalhadores e não deixar ninguém pra trás.




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