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ELEIÇÕES SANTO ANDRÉ

Paulo Serra do PSDB: o gestor amigo dos patrões e inimigo dos trabalhadores

O prefeito de Santo André, Paulo Serra, está em campanha pela reeleição com popularidade alta e possibilidade de ganhar em primeiro turno. Isso se deve, por um lado, à falsa propaganda de seu governo como uma boa gestão, vista também como responsável com a administração da pandemia. Essa propaganda é veiculada pela grande imprensa local e sustentada pela patronal, que são favorecidos pelas políticas do PSDB de ampliação das privatizações, em detrimento das verdadeiras necessidades da população trabalhadora e pobre. Por outro lado, frente à essa imagem blindada do tucano, não há um adversário político que se apoie na organização dos trabalhadores para desmascarar e combater o verdadeiro legado da sua gestão: os ataques duros no que diz respeito à saúde, emprego, educação e moradia, realizados inclusive neste último ano, em plena pandemia.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André, diretora da APEOESP pela oposição e militante do MRT

sexta-feira 13 de novembro| Edição do dia

O tucano Paulo Serra está em plena campanha por sua reeleição na cidade de Santo André, ocupando o primeiro lugar da pesquisa de intenção de voto divulgada pelo IBOPE no início deste mês, com 57%. A imagem do “bom gestor” explica, em primeiro lugar, sua popularidade. Uma imagem construída com o aval da grande imprensa local, a maior imprensa regional do Brasil, segundo dados da Associação de Jornais de São Paulo, e que opera a opinião pública como negócio a ser tratado com o governante de turno.

Com o slogan “Santo André da gente pra continuar no rumo certo” e coligado com a maioria da direita local, Paulo Serra e o PSDB buscam seguir ocupando o espaço autoritário que o regime do golpe institucional promove no país, marcado nestas eleições por disputas entre a direita e a extrema-direita nas principais capitais, com raras exceções.

Como “gestor responsável”, Paulo Serra iniciou uma série de obras, predominantemente nas regiões centrais da cidade e deu destaque a um programa na área da saúde, o Qualisaúde, onde prometeu “inovar” os aparelhos de saúde básica com reformas e informatização. Neste último ano, com a pandemia ocupando o centro da política mundial, o tucano foi favorecido pela falsa polarização entre PSDB e Bolsonaro, onde o suposto combate de Doria ao negacionismo de Bolsonaro promoveu o primeiro e seu partido na opinião pública da maioria da população paulista, como mostram as projeções eleitorais que seus candidatos e aliados estão tendo.

Mas, visto com maior atenção, os índices da cidade, e mesmo do Estado, no que diz respeito à pandemia, à saúde, ao emprego, à educação e à moradia desmentem tamanha propaganda e artimanhas políticas do PSDB. Trata-se de problemas estruturais que foram agravados pela crise sanitária e pelas políticas pró patronal de Paulo Serra e seu partido. Assim como foi feito também a nível estadual por Dória que, além da falsa oposição a Bolsonaro, não só aprovou todas as reformas e medidas desse governo autoritário contra os trabalhadores, como também foi pioneiro na implementação da Reforma Administrativa no Estado de São Paulo, atacando serviços públicos essenciais e os servidores estaduais.

A saúde ainda mais precária é a verdadeira vitrine da gestão Paulo Serra
Os problemas que afetam a maioria dos andreenses, que é composta por trabalhadores e pobres, ganharam contornos dramáticos com a crise do coronavírus. A demanda mais sentida é a própria saúde, que na cidade com o maior IDH da região ainda não cobre a totalidade da população. Esse é justamente um dos centros da campanha de Paulo Serra pela reeleição, com base nas medidas do município para lidar com a pandemia, quando a verdade é que foram medidas insuficientes e sequer o básico necessário para um combate real ao vírus foi garantido, como os testes massivos.

O governo tucano em Santo André testou cerca de 93 mil pessoas, o que significa menos de 12% da população. Fruto de uma quarentena não organizada racionalmente, mais de 650 pessoas morreram vítimas do coronavírus e mais de 20 mil foram contaminados na cidade, segundo dados oficiais. Números em si alarmantes, mas que são na realidade muito maiores, devido a imensa subnotificação por falta de testes.

Em outro plano, não foi garantido equipamentos de proteção de qualidade à todos os profissionais de saúde e dos serviços essenciais, nem a reconversão industrial da potente estrutura local para manutenção dos empregos e produção de insumos e equipamentos voltados a um verdadeiro combate à pandemia na cidade e na região. Seguindo a gestão da catástrofe de Dória e Covas no Estado e na capital, Paulo Serra esteve confortável e em segurança, enquanto não garantiu um verdadeiro plano de guerra para combater a Covid-19 e foi um dos primeiros a pressionar pela abertura que favorece os capitalistas em detrimento da vida e saúde dos trabalhadores.

O tucano faz, também, propaganda das obras para uma suposta “inovação” das unidades de saúde e chega a dizer que a população andreense está levando uma vida digna, sendo “mais bem cuidada e mais feliz” (sic), enquanto tentou entregar a UBS da Vila Guiomar, em plena atividade, para donos de uma escola privada, em troca de um terreno sem construção e muitas vezes menor. Essa tentativa foi barrada pela denúncia e revolta da população, que relembrou o drama dos fechamentos de sete Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s) no início da gestão de Paulo Serra, em 2017.

O Estado de São Paulo está liderando o ranking em números de casos e mortos pela Covid-19, contribuindo nas mais de 160 mil mortes no Brasil, que por sua vez está entre os primeiros lugares do ranking mundial dos países mais afetados pela pandemia. Um enorme impacto que se explica pela precarização e descaso históricos com a saúde pública, que vai desde postos sem infraestrutura adequada, falta de profissionais e de insumos, terceirização das administrações via OS’s e uma série de políticas privatistas do governo PSDB ao longo das últimas décadas no Estado e em diversos municípios.

Desemprego, falta de moradia digna e de vagas nas creches
Santo André também é uma das líderes no desemprego da região, segundo dados do Caged acumulados desse ano, ficando atrás apenas de São Bernardo, por uma margem pequena. Mais de 8,7 mil postos de trabalho com carteira assinada foram fechados neste ano na cidade e o aprofundamento da crise econômica é um agravante. Enquanto isso, a prefeitura aplicou prontamente a MP 936 de Bolsonaro, permitindo a suspensão de contratos, cortes de salários e retiradas de direitos, para proteger os lucros dos patrões.

Soma-se a essa realidade cruel a crise da habitação, com um déficit de mais de 30 mil famílias sem moradia digna e/ou garantia de saneamento básico. A precariedade da moradia também se tornou mais dramática em meio à pandemia, com famílias inteiras confinadas em pequenas casas, passíveis de riscos e que são alvos fáceis dos alagamentos das chuvas. A população que mais sofre com essa situação é a mais pobre, os trabalhadores informais e precários, além de imigrantes e migrantes de outros estados que chegam na Grande São Paulo em busca de emprego. Mesmo nesse direito elementar o tucano buscou favorecer em primeiro lugar as construtoras com subsídios, fazendo do direito elementar à casa um negócio rentável, que a maioria que precisa não pode pagar.

A essa lista se somam a falta de vagas nas creches que de fato atendam a demanda das mães trabalhadoras. O déficit, que é histórico na cidade, não foi sanado como prometeu a prefeitura de Paulo Serra. São mais de 4400 crianças sem vaga, segundo dados oficiais publicados pela prefeitura. Esse descaso com as demandas das trabalhadoras e suas duplas jornadas, também se expressa nas políticas tucanas que historicamente são contra os professores e profissionais da educação. No Estado Doria aprovou com manobras, bombas de gás e balas de borracha a reforma da previdência, com a polícia situando a ALESP e tratando mais de 3 mil professores e servidores como cacetete.

Paulo Serra representa a velha política tucana e o plano de ajustes pós-golpe
Paulo Serra, em sua primeira eleição e mandato, buscou se mostrar uma “cara nova” na política, e por ser jovem isso lhe favoreceu. Mas a verdade é que “Paulinho”, como ficou conhecido antes de assumir a prefeitura, começou sua carreira há cerca de 16 anos, em um dos partidos mais integrados à política corrupta tradicional, o antigo PFL e atual DEM, passando pela Câmara com o PSD até sua filiação atual no PSDB, além de ter sido secretário da última gestão petista, de Carlos Grana. E a experiência adquirida ao lado dos políticos representantes dos interesses patronais seguiu se aprofundando, como mostram as relações com grandes empresários nos programas públicos e até mesmo no endividamento do município, que ultrapassou o valor de 1 bilhão de reais, segundo dados da Universidade Municipal de São Caetano do Sul sobre impactos da pandemia nas dívidas das cidades região.

Apesar das polêmicas, meramente eleitorais, a direita tradicional do PSDB e a extrema-direita de Bolsonaro e seus seguidores estão juntas, em um pacto de ataques aos direitos da classe trabalhadora e seus setores mais oprimidos. Inclusive, é preciso lembrar que Paulo Serra, como fez Doria, se ligou à imagem de Bolsonaro e o apoiou nas eleições de 2018. Esse pacto abrange outros representantes políticos dos grandes empresários, como o Congresso Nacional e também o judiciário arbitrário. Uma ilustração disso está nas coligações que estão fazendo em todo o país e na região do Grande ABC.

Nesse regime autoritário e ainda mais degradado desde o golpe institucional de 2016, a direita tradicional do PSDB veio aplicando reformas duríssimas e medidas econômicas para garantir os interesses dos grandes capitalistas, inclusive em meio à brutalidade da pandemia. Frente a isso, as grandes centrais sindicais, sobretudo a CUT que é dirigida pelo PT, estão em uma verdadeira trégua, não utilizando sua inserção para organizar os trabalhadores em resistência e combate à essa situação.

A aspiração do PT é voltar a governar em acordo com a mesma direita golpista e não defender de fato os interesses da nossa classe contra os capitalistas. Uma concepção conciliadora que foi aplicada durante os 13 anos de governo federal petista e que seguiu, mesmo no pós-golpe, nos estados e municípios que ainda governa, sendo o aplicador destes ataques contra a nossa classe. Esse caminho, que abriu espaço à direita e trouxe Bolsonaro ao poder, segue sendo trilhado pelo PT e se expressa nas asquerosas coligações que este partido vem fazendo com partidos bolsonaristas, como com o PSL em mais de 140 cidades nestas eleições municipais. Com esse conteúdo, a candidatura de Bete Siraque não consegue convencer os trabalhadores e a juventude e ocupar uma posição de destaque no pleito contra Paulo Serra.

Diante das traições do PT, o PSOL poderia buscar ocupar um espaço político organicamente ligado à classe trabalhadora e seus setores mais oprimidos, que não podem ter seus anseios correspondidos pelo PT e que estão sendo duramente atacados pela direita tradicional e extrema-direita. Mas, na cidade de Santo André e em outros municípios o PSOL está cometendo os mesmos erros conciliatórios petistas, se ligando com os partidos golpistas, como a Rede Sustentabilidade. Na cidade, a Rede ajudou a eleger Paulo Serra e foi parte de seu governo, assim como defendeu junto a Doria a Reforma da Previdência a nível estadual contra os professores e servidores públicos. Contra esse vale-tudo eleitoral a professora Maíra Machado, que era candidata à vereadora do MRT pela legenda democrática no PSOL, retirou sua candidatura.

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Mesmo em cidades onde não está com essas coligações, como é o caso da capital paulista, a lógica do PSOL não é de enfrentamento aos que atacam os trabalhadores, mas de uma moderação do discurso e de compromissos declarados com as patronais ultra exploradoras e mafiosas, como são os grandes empresários do comércio do Brás.

A tentativa de governar um país, um estado ou uma cidade sem romper os ataques e vários dos mecanismos que fazem dos governos apenas gerentes dos lucros capitalistas implica em não governar pra maioria trabalhadora e pobre da população, mas sim em administrar o capitalismo e, em momentos de crise, implementar planos de ajustes.

Uma alternativa política com um programa anticapitalista deve apresentar a perspectiva de que para levar adiante propostas que respondam às demandas mais sentidas somente a organização dos trabalhadores é capaz. Por isso, é fundamental a confiança exclusiva na necessária mobilização da nossa classe, que pode decidir sobre os rumos do país, pela via de uma nova Constituinte, livre e soberana, é fundamental. Essa é a visão que as candidaturas do MRT está levando nestas eleições, como a Bancada Revolucionária na cidade de São Paulo, pois é preciso fortalecer as lutas dos trabalhadores para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.




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