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Porto Alegre | “Passei 1 hora esperando o T10 e perdi a aula" diz estudante da UFRGS sobre a crise do transporte

Redução de linhas, ônibus lotados e sem cobradores, atrasos nas rotas, sobrecarga de trabalho, diminuição e burocratização do acesso ao meio passe e isenções nas passagens que são cada vez mais caras, a juventude e os trabalhadores sem conseguir se locomover na cidade: essa é a situação do transporte público em Porto Alegre. Frente a esse projeto do bolsonarista Melo, precisamos lutar pela reversão de todos os ataques ao meio passe estudantil e aos rodoviários, reposição de todas as linhas cortadas, assim como pela permanência do cargo de cobrador e por um transporte 100% público, sob controle dos trabalhadores e usuários.

Izabella TorresEstudante de biblioteconomia na UFRGS

sábado 9 de julho | Edição do dia

Sebastião Melo segue na capital o mesmo projeto neoliberal de país que Bolsonaro, Randolfo Vieira Junior, sucessor de Eduardo Leite, o Congresso Nacional, o STF e toda a corja política quer aprofundar para descarregar os efeitos da crise econômica em cima da classe trabalhadora e dos mais pobres. Na agenda dos ataques do governo, como a MP 1045, a reforma da previdência, os cortes na educação, a privatização dos Correios e da Eletrobrás, agora vemos Melo avançar a todo vapor com a aprovação da privatização da Carris, com a extinção dos cobradores, a limitação do meio-passe estudantil e a suspensão das isenções tarifárias para determinados grupos.

O que Melo quer, na verdade, é enriquecer ainda mais os barões do transporte de Porto Alegre, que não possuem nenhum compromisso com a população e em nada se importam com a qualidade do serviço prestado, como bem demonstra o recente exemplo da pandemia, entre 2020-2021, onde as empresas privadas largaram algumas linhas porque não “davam lucro”, deixando a população a própria sorte nas paradas e o prejuízo no colo dos rodoviários da Carris que tiveram que cobri-las. Fazem isso para garantir seus lucros às custas de precarizar a vida da população, como vemos com o retorno presencial na UFGRS, com muitos estudantes sem poder ir às aulas por não conseguirem pagar passagem ou mesmo porque as linhas que pegavam foram extintas.

Como previsto, com a privatização da Carris passando, ataque histórico contra o qual nós da Faísca estivemos lado a lado dos rodoviários em greve, outros ataques viriam ainda mais rápido. A extinção do cargo de cobrador foi um ataque brutal a inúmeras pessoas que garantiram por anos o serviço de transporte e que hoje engordam as filas de desemprego em meio à crise.

Veja: Rodoviários de Porto Alegre denunciam assédio da patronal para aceitar dupla função.

Após acabar com os postos de trabalho dos cobradores, Melo estende os ataques à extinção da linha D43, alegando que era pouco movimentada, quando na verdade, é a única linha que passa pelos campi da UFRGS e pela PUCRS, sendo muito utilizada pelos estudantes. Não satisfeito, Melo ainda aplica mais um ataque, dessa vez ao meio-passe estudantil e às isenções nas tarifas, reduzindo de 14 para 6 o número de grupos que recebem isenções no transporte. Dentre eles, retirou o benefício dos professores, no estado com um dos piores pisos salariais para a categoria. No caso dos estudantes, o meio-passe foi limitado por critérios de renda, manobra que burocratiza e dificulta o acesso ao benefício, tanto pela quantidade de requisitos a serem cumpridos, tanto pela dificuldade no processo de validação dos documentos socioeconômicos solicitados, como desenvolvemos mais detalhadamente nesta matéria.

Essas medidas já impactam profundamente na rotina dos estudantes que dependem do transporte público, dificultando a locomoção para as escolas e universidades com a extinção e redução de linhas, ônibus lotados, atrasos que deixam os estudantes por tanto tempo nas paradas, muitas vezes correndo risco à noite, que em alguns casos, acabam desistindo de ir às aulas. Assim como relatou uma estudante da UFRGS ao Esquerda Diário, "passei 1 hora esperando o T10 e acabei perdendo a aula". Essa situação é ainda mais complicada para os estudantes que moram na região metropolitana, que agora tem o direito ao meio-passe negado por Melo.

Enquanto isso, a A UMESPA (União Metropolitana dos Estudantes Secundários de Porto Alegre), dirigida pelo PCdoB/UJS, considerou, delirantemente, o projeto de Melo de desmonte ao o meio-passe e isenções das passagens como uma “vitória”, já que garante passagem gratuita para alunos do fundamental com baixa renda, mesmo junto a isso passando graves ataques à permanência estudantil que vão acarretar em mais evasão nas escolas e universidades. Em um cenário de profunda crise internacional e nacional, inflação crescente, desemprego e carestia de vida, como os estudantes darão conta de pagar quase 5 reais por viagem para chegar até seus locais de estudo e trabalho? Considerando ainda que muitos estudantes necessitam pegar 2 ônibus ou mais para chegar nos campi da Universidade, por exemplo. Não há nenhuma vitória nisso. Um ataque duro que, como se já não bastasse ser aplicado pela direita asquerosa sem uma forte mobilização para barrá-lo, foi aplicado com a abstenção das vereadoras do PCdoB, que simplesmente não se posicionaram durante o plenário e se isentaram durante a votação.

O PCdoB, assim como o PT, que dirigem as maiores entidades estudantis e operárias do país, como a UNE, CUT e CTB, ao invés de negociar nosso futuro com os patrões e semear esperanças em saídas institucionais para nossos problemas, deveriam organizar desde bases estudantes e trabalhadores para que, em unidade, se enfrentem contra todos esses ataques, pela via da luta organizada, com assembleias nos locais de trabalho e estudo. As organizações de oposição de esquerda, que possuem parlamentares na câmara de vereadores e que dirigem entidades como o DCE da UFRGS (PSOL, UP e até pouco tempo o PCB) e vários centros acadêmicos de diferentes universidades, também poderiam utilizar sua projeção e entidades para organizar o descontentamento da população e dos estudantes contra esses ataques, como fez a Faísca + independentes a frente do Centro Acadêmico CADi, do Teatro da UFRGS, apoiando ativamente a greve da carris em 2021 e impulsionando um fundo de greve para os trabalhadores. Ao contrário, o DCE não usou seu potencial de mobilização para apoiar a greve, isolando as lutas dos trabalhadores e as dos estudantes, o que é um completo erro, já que são os rodoviários que movem a cidade e que podem, portanto, pará-la e barrar todos os ataques, tendo os estudantes ao seu lado. É necessário também exigir o fim da passividade escandalosa que as burocracias do PCdoB e PT fazem, desviando qualquer indignação para a estratégia eleitoral da chapa Lula-Alckmin de conciliação com a direita.

Para nós da Faísca e MRT, as demandas dos rodoviários e dos estudantes estão profundamente ligadas. Os ataques ao transporte e aos seus trabalhadores afetam diretamente não só a vida do conjunto dos estudantes, mas de toda a população que tem seu direito à cultura e a cidade negados com os ataques ao meio-passe e as isenções. Acreditamos que somente a aliança entre estudantes e trabalhadores organizados desde as bases, em cada garagem, em cada local de estudo, junto à maioria da população e aos rodoviários das empresas privadas, pode apontar o caminho para barrar a totalidade dos ataques de Melo, Leite, Bolsonaro e seus aliados. E assim, através da auto-organização, batalhar por um transporte 100% Carris sob controle dos trabalhadores e usuários, estatizando sem indenização as empresas da ATP, e usando o lucro dessas empresas para ampliar as linhas de ônibus, criar mais postos de trabalho, readmitindo todos os rodoviários demitidos durante a pandemia, com a manutenção do cargo de cobradores e a ampliação do meio-passe a todos os estudantes.




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