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BRASIL-PARAGUAI | Paraguai pode antecipar fúria contra condição de pária do mundo no Brasil de Bolsonaro

Mobilizações de massas no Paraguai contra o desemprego e a crise sanitária podem ser sinais reveladores sobre como a luta de classes pode golpear Bolsonaro e o regime golpista brasileiro.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 8 de março | Edição do dia

Em outubro de 2019, em meio às jornadas tempestuosas da revolta chilena contra Sebastián Piñera, Jair Bolsonaro recuava pé ante pé diante do perigo de contágio ao Brasil. Estávamos em meio a processos de luta de classes que atravessavam toda a América Latina, do Haiti a Honduras, do Equador à Colômbia. Temeroso, o capitão reformado ameaçou colocar em campo os militares que povoam seu governo caso “o Brasil virasse o Chile”.

Neste março de 2021 o Paraguai apresenta um panorama ainda mais preocupante para o governo, talvez pela semelhança das condições que puseram as massas em estado de rebelião contra o presidente Mario Abdo Benítez. Os paraguaios se encontram na terceira jornada de enfrentamentos com a polícia nas ruas contra as altas taxas de desemprego no país e a terrível situação sanitária, piorada com a péssima gestão governamental da COVID-19.

São problemas que o Brasil imita de modo dramático, e numa escala muito maior que a de seu vizinho oriental. A situação da pandemia no Brasil alcançou o cabeçalho dos principais jornais do mundo. Trata-se da pior situação pandêmica em todo o globo. O Brasil já supera os Estados Unidos em número de mortes por milhão de habitantes: o país se aproxima de 2 mil mortes por dia e dos 300 mil mortos, com o iminente colapso do sistema de saúde em todo o território nacional (as UTIs dos Estados mais ricos se encontram com capacidade praticamente esgotada). As cenas tétricas de caminhões militares carregando cadáveres pelas ruas italianas de Bergamo não estão longe da situação nacional. Como diz Janio de Freitas, o Brasil passou a ser visto como um imenso vírus assassino.


Imagem do segundo dia de manifestações em Assunção

A crise econômica brasileira é um combustível adicional. O PIB caiu 4,1% em 2020, o pior resultado em 24 anos. Pela primeira vez mais da metade da população economicamente ativa não tem trabalho, com 14 milhões de desempregados. A renda dos brasileiros encolheu 5,5% nos últimos dez anos; a queda no PIB per capita na década 2011-2020 é mais intensa que no período 1981-1990, a famosa “década perdida”. O resultado é que a economia brasileira saiu das 10 principais do mundo, estando em 12º lugar, com projeção de queda para 14º em 2021. A crise econômica tem impacto ainda maior com a pandemia, o aumento dos preços dos alimentos e os ataques à Petrobras, com aumentos nos preços da gasolina, do botijão de gás e do diesel (contra o qual lutam os petroleiros em greve, como os da RLAM na Bahia, por preços justos à população, não indexados ao dólar nem dependentes da sede de lucro dos capitalistas).

Bolsonaro não tem nenhuma resposta à crise sanitária e econômica. Agrava permanentemente ambas. Como Abdo Benítez, é um provocador que caçoa da miséria de todos os oprimidos. "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?" foi a reação de Bolsonaro diante da média estarrecedora de 2 mil mortes diárias. Não fica atrás de Abdo, que diante do início dos protestos no Paraguai contra seu governo decidiu rir com menosprezo, afirmando não ler os noticiários porque sua única leitura é a Bíblia…

Três outras características aproximam o desencadeamento da luta no Paraguai de uma explosão social no Brasil:

1) Uma delas é a relação de amizade entre Bolsonaro e Abdo. O boçal presidente brasileiro já apoiou seu homólogo paraguaio em 2019, quando este estava ameaçado de impeachment por acusações de corrupção sobre esquemas ilícitos em Itaipu. Bolsonaro se solidarizou com Abdo, e em visita ao país aproveitou sua companhia para homenagear o ditador Alfredo Stroessner, que aterrorizou com perseguições e torturas a população paraguaia entre 1954 a 1989 (a mais longa ditadura na história recente da América do Sul).

2) Outra razão é a relação do agronegócio brasileiro com a economia paraguaia. De fato, instabilizações no vizinho brasileiro podem ter impacto relevante sobre a produção agrícola tupiniquim. A expansão da agricultura empresarial da soja, por meio dos “brasiguaios”, latifundiários do Centro-Oeste na zona fronteiriça, ampliou a escala e a mecanização da agricultura paraguaia, tradicionalmente de subsistência, submetendo o país a uma maior primarização agroexportadora. A aceleração, a partir da década de 1980, dos fluxos migratórios de brasileiros para o Paraguai iniciou um gradual deslocamento da população rural rumo aos centros urbanos em gestação. Ao mesmo tempo, tornou parte importante do agronegócio do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul sensível aos protestos da população nas zonas agrícolas. Certamente não querem que os protestos avancem para se converter nas greves de trabalhadores rurais que assolam o Peru, no contexto de uma crise de domínio burguês que parece não encontrar fim.

3) Por fim, é uma política do governo paraguaio o retorno presencial da comunidade escolar às salas de aula. Esse retorno, realizado sem qualquer medida de segurança sanitária, enfureceu professores, pais e mães de alunos. No Brasil, Doria e demais governadores (inclusive petistas, no Nordeste) lançaram a mesma política, à revelia da comunidade escolar nos distintos Estados, e se encontraram com forte resistência.

No caso do Paraguai, o direitista Abdo Benítez é identificado como claro responsável pela catástrofe. No Brasil, Bolsonaro deve imaginar o que faria sob as condições paraguaias. A linha da extrema direita brasileira é de aloprada submissão e humilhação ao capital estrangeiro como programa econômico. A cartilha de Guedes e dos golpistas de todo o regime institucional brasileiro (os ministros do Supremo Tribunal Federal e os parlamentares do Congresso) se encontram em um objetivo: destruir todos os direitos trabalhistas e aprofundar os traços semicoloniais de um Estado dependente e atrasado como o Brasil. Isso vai resolver a crise econômica? Obviamente não. Mas se trata de uma espécie de “destino manifesto” da direita bolsonarista converter o Brasil num pária mundial revestido com os trapos da “fazenda do mundo”.

Bolsonaro já se vê afetado nas enquetes de opinião. Segundo levantamento feito pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), Bolsonaro viu cair suas expectativas para 2022: 38% dos entrevistados disseram que votariam com certeza ou poderiam votar em Bolsonaro se ele se candidatasse novamente à Presidência. Lula vence Bolsonaro nas intenções: 50% dos entrevistados afirmaram que votariam com certeza. A rejeição de Bolsonaro é de 56%, 12% a mais do que a de Lula. Bolsonaro também perdeu apoio nos meios digitais, segundo o Índice de Popularidade Digital (IPD), elaborado pela consultoria Quaest: saiu da casa dos 80 pontos no ano passado e agora se fixou no patamar de 60.

O PT, que abriu caminho para o golpe institucional aprofundando os pilares neoliberais que caracterizam a acentuação do atraso e dependência do país, busca aproveitar esse cenário fazendo o que sabe melhor: agradar a direita (como o flerte de Haddad a FHC).

Mas voltando ao eixo do tema Brasil-Paraguai, a pergunta é: o rastilho de pólvora que atravessa a capital Assunção em direção aos aposentos reais de Abdo pode chegar ao Brasil? Nada está descartado, e não se pode prever com exatidão matemática os ritmos da luta de classes na América Latina. A burocracia sindical da CUT e da CTB está de férias e cumpre seu figurino tradicional: calando-se diante da catástrofe organizada pelos golpistas de toda penugem. Essas direções reformistas são um dos obstáculos mais importantes a superar, e um sinal da necessária recuperação dos sindicatos para que os trabalhadores possam estar armados com ferramentas potentes quando explosões sociais vibrarem o tecido social brasileiro.

Mas uma questão é certa: o Paraguai mostra que a luta de classes não esperará o controle da pandemia. A população pobre e explorada pode sair às ruas contra o aprofundamento da catástrofe econômica e sanitária. Os militares – patronos da incompetência grosseira do governo – os governadores, o STF e o Congresso podem se encontrar juntos na linha de fogo de mobilizações que se dêem contra o conjunto do regime do golpe (que como debatemos, deve estar vinculada à imposição pela luta de uma nova Constituinte Livre e Soberana que ponha abaixo os poderes constituídos no Brasil).

Ver declaração do MRT: Entre recordes de mortes por Covid, de desemprego e de ataques: só nossa classe pode impor uma saída de emergência

Merval Pereira, golpista-mor d’O Globo, sugere que o Brasil “se transforme em um Paraguai pelo menos por alguns dias ou meses”, no mesmo fôlego em que defende toda a agenda econômica de Bolsonaro-Guedes. Está encorajado pela patronal paraguaia que quer desviar o movimento encabeçando o questionamento a Abdo Benítez, usando os partidos burgueses do regime (a oposição de Fernando Lugo, e o próprio Partido Colorado) para enquadrar o presidente num eventual processo de impeachment. No entanto, a crise paraguaia não tem como alvo apenas o presidente amigo de Bolsonaro. O grito “que se vayan todos” expressa o desprestígio de toda a casta política e suas instituições. Uma sadia precaução contra Mervais e demais demagogos…

A erupção de luta de classes na América Latina, antes no Chile e agora no Paraguai, é a melhor arma contra a degradação bolsonarista-golpista que torna o Brasil o pária do mundo.




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