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Respondendo à grande imprensa | Para quem pedir socorro? A esterilidade política da grande imprensa no pré dia 7

O que significa "defender a democracia" para a grande imprensa que teve papel central na articulação do impeachment de Dilma e na manipulação da disputa eleitoral de 2018 com a prisão de Lula, sempre articulados numa frente capitalista pelo programa de ataques de Temer à Paulo Guedes?

domingo 5 de setembro | Edição do dia

Complexa é a situação da grande imprensa defensora desse regime golpista, que durante o último período fez uma campanha intensa de oposição discursiva às ameaças de Bolsonaro. Mas antes de focar neste ponto, um detalhe importante: há este regime, que não é mais o baseado na Constituinte de 88, e há sua direção executiva atual, que são Bolsonaro, centrão e militares.

Retornando ao amargurados oligopólios midiáticos, para quem teve papel central na articulação do impeachment de Dilma e na manipulação da disputa eleitoral de 2018 com a prisão de Lula, sempre articulados numa frente capitalista pelo programa de ataques de Temer à Paulo Guedes, opor-se ao autoritarismo bolsonarista é uma tarefa no mínimo, hipócrita e superficial.

Globo aconselha Bolsonaro para que não seja violento

“Empresários, sempre reticentes em criticar quem está no governo por receio de represálias, têm saído a público com manifestos em favor da democracia, uns mais, outros menos explícitos nas críticas ao presidente.” O Globo, em editorial deste Domingo, "Será preciso ter responsabilidade no 7 de Setembro".

“Democracia” para os editores d’O Globo - e de toda grande mídia golpista - resume-se a manutenção do pacto da correlação de forças entre os poderes estatais imposto em 2016 e consolidado em 2018. Assim, buscam a estabilidade para que, os capitalistas que os pagam e financiam, consigam fazer os seus investimentos em paz (se bem que, diferente do que alegam, os dados econômicos mostram muito mais acordos entre Bolsonaro e mercado financeiro do que gostariam).

Análise | O que expressa realmente o manifesto de empresários pela “harmonia entre Poderes”?

O artigo destaca-se pela postura conselheira com o bolsonarismo. Basicamente, pede para que não sejam violentos e mantenham “clima de paz”. Concluem alinhando fileiras com o histórico aliado STF, o centro da outra grande tendência bonapartista do regime que disputa posições com Bolsonaro. Além de um primeiro comício para a disputa de 2022, servirá para um teste de forças para Bolsonaro, aproveitando-se do clima reacionário de privatizações, reformas e votações consecutivas na Câmara. Ainda que a ameaça de golpe não seja concreta neste momento, Bolsonaro testará a possibilidade de avançar em seu intento.

“A democracia, é bom não esquecer, precisa proteger os direitos de todas as minorias, mas ainda é o governo da maioria.” Conclui o jornal que foi parte decisiva no golpe, na sustentação de Temer e depois na eleição de Bolsonaro.

Duas alas do PSDB no Estadão e mais defesa da democracia

Da mesma forma, o Estadão defende a democracia. O mesmo conteúdo expresso no Globo, com um título auto evidente, “Um executivo que ignora o Legislativo”. O tema foi diferente do jornal carioca, não trataram do dia 7, deram seu editorial para a ala tucana de José Serra chorar suas pitangas por ver um PL que era autor e dirigia a discussão no Senado desde 2018 em risco de ser atropelado por uma MP de Bolsonaro. Uma corrida entre executivo e legislativo para ver quem responde melhor aos interesses das grandes empresas de transporte.

“Nota-se um modo autoritário de exercer o poder, como se a Constituição autorizasse o presidente da República a ignorar o Congresso. Ainda que Jair Bolsonaro não queira, o regime democrático exige a política.” Conclui o Estadão. O outro editorial, "O desempenho e as perspectivas da economia paulista", serviu a outra ala tucana, de João Dória. Comparar os dados da economia nacional com o paulista é uma propaganda óbvia para o governador em sua disputa como o nome da terceira via. O descendente de Bandeirantes, tentou proibir os atos da esquerda e dar São Paulo inteiro para Bolsonaro no dia 7, sugerindo de nos incorporarmos no dia 12 junto ao MBL.

O que a mídia pensa | Golpistas em 2016, adeptos da terceira via são tudo, menos defensores da "democracia"

Merval Pereira cogita Mourão, defensor da ditadura militar, como a ’terceira via’

Merval Pereira, em sua coluna no’ Globo, tratou do Santo Gráu da grande imprensa para as eleições de 2022. Muitos nomes circulam na grande mídia, que tenta fazer de tudo para emplacar alguém. Mas o quadro da Globo não cogitou Doria, nem Sérgio Moro, Mandetta, Pacheco ou outros nomes no mercado de ações da terceira via. O golpista, opositor a Bolsonaro e da democracia, escreveu linhas que tiveram o seguinte título: Mourão, terceira via?

“Seria, por caminhos transversos, uma terceira via com apoio militar, depois de idealmente ter colocado ordem na bagunça institucional em que vivemos.” O analista liberal sugere, assim, a hipótese alucinada de Mourão como alternativa às "ações antidemocráticas” de Bolsonaro. Caminho que somente seria possível com o impedimento de Bolsonaro participar das eleições, ou seja, na verdade, apenas ocuparia o espaço do bolsonarismo. Além disso, aceita com bom grado o apoio militar. Merval já sabe que tal apoio será imprescindível para governar em 2023 e até o agrada.

“O feitiço virou contra o feiticeiro, e Mourão passou a ser visto por setores militares e políticos como possível solução para o problema em que Bolsonaro se tornou.”, aponta Merval.

“A democracia” resume-se à estabilidade neste momento histórico. Em 2016, a política golpista da grande imprensa burguesa, com toda sua coluna de quadros, materializou-se na paulista junto com o Pato da Fiesp e bonecos do herói Sergio Moro, defensores da Ditadura e bolsonaristas, até então minoritários. A instabilidade política naquele momento era chave para ser possível a imposição de um novo regime e agenda de ataques. Hoje, o feitiço Bolsonaro se voltou contra os feiticeiros da grande imprensa, que realizam um "brainstorm" da terceira via com o prazo cada vez mais apertado. Talvez o antipetismo forte não seja suficiente diante de Lula, provado na capacidade de trazer a estabilidade institucional para os capitalistas em geral lucrarem mais tranquilos.

Folha busca vias institucionais para enfraquecer polícias e militares

Um jornal golpista arrependido? Tudo leva a crer que não. No editorial deste final de semana, diferente do’ Globo que falou diretamente do dia 7, a Folha pensou nas medidas posteriores para enfraquecer a base bolsonarista na Segurança Pública e da burocracia estatal. Numa separação reducionista, que estabelece um tipo ideal da constituição do Estado democrático, o editorial advoga na causa de que as instituições de Estado não devem se misturar com as de governo, e vice e versa. Portanto, estamos ainda na mesma questão: tudo em nome da estabilidade e respeito dos papéis dos poderes.

“Na República democrática, a toga e a farda funcionam como uma segunda pele. Não deveriam ser trocadas pelo paletó e a gravata dos políticos como se muda de camisa” concluem, após discorrer sobre PLs para que esses grupos tenham mais dificuldade em “entrar na política”. Conclui a folha, obviamente, o STF está completamente excluído desta questão.

A esquerda e a classe trabalhadora devem combater a farda sem cair nas mãos da toga

Terminou a Folha, assim, seu artigo. A grande imprensa em geral, são os que se acolheram embaixo da toga autoritária de Sérgio Moro e STF. Agora, preocupam-se com Bolsonaro que lambe as botas de milicos. Neste momento, e as manifestações bolsonaristas serviram para isso, os dois bandos - a toga e a farda - disputam quem deve ser o primeiro violino do autoritarismo estatal ou, primeiramente, uma nova disposição de forças entre ambas tendências bonapartistas. A agenda de ataques? Continuará da mesma forma, a não ser que a classe trabalhadora se coloque como sujeito.

Para isso, no dia 7, os atos que vão ocorrer pelo Brasil em resposta às ameaças de Bolsonaro não podem se subordinar à tutela do STF como o grande defensor da “democracia”, o que seria um tiro no próprio pé na luta contra o bolsonarismo e a agenda de ataques que o sustenta no poder, somada aos privilégios que o ex capitão dá aos militares, as verbas bilionárias para o centrão, e os lucros para o agronegócio e evangélicos.

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A grande mídia fará de tudo para subordinar o ódio e raiva para o STF, ator central na suspensão do sufrágio universal em duas oportunidades, na estabilidade que garantiu a aprovação do Teto de Gastos, as reformas da previdência e trabalhistas, as privatizações e um grande etc, tornam a tarefa de postular-se como defensores da democracia um cálculo de soma zero.

É preciso que a classe trabalhadora se coloque em cena de forma independente das oposições burguesas internas do regime. Não podemos deixar que as manifestações bolsonaristas no dia 7 sejam protagonizadas pelo STF e os defensores da ‘terceira-via’, que farão de tudo para manter as organizações operárias e populares na luta contra Bolsonaro fora do protagonismo. Já vimos o que acontece quando se deixa avançar a direita, sem dar uma resposta com a força dos trabalhadores paralisando o conjunto da economia. Acabamos sofrendo um golpe institucional, e Bolsonaro no governo.




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