Educação

8 DE MARÇO

Para ler com olhos de fome e ódio

Júlia Santana

Representante Estudantil do curso de Artes Visuais na UFMG e militante da Faísca Revolucionária

sexta-feira 5 de março| Edição do dia

Imagem: Fonte desconhecida

“Bom dia, Lucas! Bom dia, Gabriel! Bom dia, mamães!” cumprimenta a professora para os alunos de 5 anos, que parecem flutuar nas caixinhas da vídeo-chamada, e para as mães que permanecem fora do enquadramento do vídeo, permitindo que possamos ver, por vezes, apenas suas mãos auxiliando os filhos a escreverem o próprio nome ou suas vozes mediando a relação entre a professora e as crianças, repetindo a proposta de atividade pouco antes de desaparecerem porta a fora numa casa que não conheço para além do ângulo do quarto que a câmera permite vislumbrar.

Numa voz robótica, os alunos e as mães respondem bom dia e a aula começa. Presencio essa cena todos os dias no meu estágio. Uma permeia a escola e a alienação da rotina tende a nos embaçar os olhos e normalizar os papéis assumidos pelos indivíduos nessa dinâmica, mas é inevitável: as contradições sociais nos batem o portão, atravessam a sala, rastejam pelas frestas das portas e janelas e pousam no nosso peito até nos tirar o ar. As mães, que assumem múltiplos papéis na criação dos filhos, na administração da casa e na fonte de renda, são quem mais me inquieta o pensamento e quem menos consigo observar. Mas vejo com olhos atentos, vejo a crueldade da exploração de um sistema apodrecido e envernizado pelo patriarcado e pelo racismo.

Não há reforma possível.

Me lembro de Mirtes. Nunca a conheci pessoalmente, mas ela sempre volta à minha memória e à de milhares de pessoas. Seu nome vem à tona junto com a tentativa de imaginar a dor ao perder seu único filho pela brutalidade que não estava apenas nos nove andares que levaram Miguel Otávio à morte, mas no completo desprezo de Sari Corte Real, a patroa que repousava enquanto uma manicure lhe pintava as unhas, e que se levantou apenas para se ver livre de uma criança negra que chorava a ausência da mãe, sua empregada, levando ele até o elevador. Me lembro bem de que na sétima série, um professor costumava nos dizer que o tempo marcava nas mãos o trabalho exercido por cada um. Nunca dei crédito a algo que mais me parecia quiromancia, mas é inevitável imaginar as mãos da esposa do prefeito com unhas longas e bem feitas a pingar sangue negro ao apertar o botão do elevador do condomínio de luxo, cerrando as portas com o menino Miguel dentro, que só seria visto por sua mãe já morto no chão.

O ódio de classe fica entalado na garganta.

Meu feminismo nunca acolherá a primeira dama de Tamandaré e seu desprezo pela vida de uma criança negra enquanto explora até a última gota de suor de seus empregados. O feminismo Socialista é forte por se apoiar justamente no ódio contra tudo aquilo que a Sari Corte real representa e na luta que Mirtes nos inspira.

Miguel tinha cinco anos. A mesma idade do Iago, da Vanessa e do Pedro que estão virtualmente diante de mim enquanto tentam compreender o sentido das demandas engendradas por um Ensino Remoto que não consegue prender a atenção deles por mais de três minutos. É revoltante. Vejo a professora se desdobrar para cativar os alunos em meio ao seu próprio cansaço, as crianças não se reconhecem num processo de aprendizado que nega o corpo, o toque e o afeto. A educação não proliferará em um sistema que foi imposto, que permanece não através do consenso e significação de cada um mas através da decisão autoritária e arbitrária daqueles que se colocam como guardiões da democracia.

Não há democracia enquanto crianças assistem uma aula online enquanto sua casa é alagada num temporal. Não há democracia enquanto pessoas tiverem de padecer em filas enormes à espera de um auxílio que sequer é capaz de sustentar sua família, nem tampouco enquanto pessoas permanecerem sendo assassinadas pela polícia, apenas pela cor da sua pele.

Percebo em mim uma certa angústia por me ver encurralada na tentativa de me formar (de forma remota) contra todas as adversidades, já me lançando sem a perspectiva de estabilidade financeira, direitos trabalhistas, aposentadoria, etc. Muito me dói perceber o cansaço na voz da professora que provavelmente já foi parte do processo de alfabetização de tantas crianças, ensinando a elas escrever e ler o próprio nome. Uma vez perguntei a ela sobre a dinâmica das aulas ao que ela me respondeu após uma longa sessão de desabafos “... mas pior seria estar desempregada”.

Perceba, caro leitor: termos de escolher entre o menos pior, mostra a falência desse sistema capitalista que é capaz de lançar um foguete ao espaço, estudar exoplanetas, mas não é capaz de evitar que pessoas morram de fome.

O “menos pior” não sacia nossa fome.




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