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Pão e Rosas e LEMARX debatem livro “A precarização tem rosto de mulher” e sua importância na luta

No último sábado, o coletivo de mulheres do “LEMARX: grupo de estudos Angela Davis”, da Universidade Federal da Bahia, convidou o grupo de mulheres Pão e Rosas para apresentar e debater o livro “A precarização tem rosto de mulher” (que já está em sua 3ª edição), que conta a história das fortes greves das trabalhadoras terceirizadas da limpeza da USP.

quarta-feira 9 de junho| Edição do dia

No último sábado o coletivo de mulheres “LEMARX: grupo de estudos Angela Davis”, da Universidade Federal da Bahia, convidou o grupo de mulheres Pão e Rosas para apresentar e debater o livro “A precarização tem rosto de mulher” (que já está em sua 3ª edição), que conta a história das fortes greves que as trabalhadoras terceirizadas da limpeza da USP já protagonizaram contra a exploração e opressão que sofrem no cotidiano de seu trabalho na maior universidade da América Latina, onde são essenciais porém invisibilizadas.

Marie Castañeda (estudante da UFRN, professora e parte do Pão e Rosas) e Cristina Santos (professora em Recife e parte do Pão e Rosas) fez a apresentação do livro, contextualizando com as lutas atuais de outros setores de trabalhadores terceirizados que a partir de conhecer as batalhas descritas no livro o tomaram como parte de suas ferramentas de combate. Surgiram muitos debates sobre o problema da fragmentação da nossa classe a partir das divisões que a burguesia tenta nos impor e a importância de batalhar pela unificação das fileiras operárias.

De acordo com a trabalhadora doméstica Andreia Pires, do Pão e Rosas, que também participou da discussão “foi de uma importância imensa estar com mulheres, homens e pessoas trans, tantas pessoas que estão na luta mesmo por um mundo melhor, por um mundo sem opressão sem exploração né. Então foi lindo e a luta contra a terceirização é uma luta de toda a classe trabalhadora, o livro mostra potência que tem a luta quando nós todas estamos unidas, na atividade ficou muito claro isso”.

Rosângela, que também trabalha com serviço doméstico ressaltou também a potência da história dessas lutas: “eu li, e depois que eu li eu resolvi emprestar uma colega trabalhadora doméstica assim como eu. Ela leu também e depois a gente passou para mais outra e mais outra e mais outras... Aí no total até agora são cinco trabalhadoras e tem mais uma que eu emprestei o livro hoje. (...) nós já começamos a imaginar se aquilo que estava ali naquele livro saísse hoje para nós enquanto trabalhadoras domésticas, começamos a pensar na possibilidade de uma greve para nossa categoria... E nesse momento com o intuito de pedir a vacina né, e para além disso até pensar na possibilidade de greve para que todas as nós tivéssemos mesmo a carteira assinada, porque isso ainda é uma utopia… Embora seja uma realidade pela lei não acontece de fato. E aí a gente foi pensando em várias coisas, então o livro trouxe isso para nós. E assistindo também e participando de atividade no sábado isso veio cada vez mais forte, a gente começou a pensar - e eu principalmente - que não é uma coisa impossível que pudesse vir acontecer uma greve, numa segunda-feira, todas as trabalhadoras domésticas não chegassem em seus locais de trabalho... Como será que ficaria a vida desses patrões e patroas que tanto nos negam direitos?”.

Ela ainda relata: “somos nós que sustentamos esse país. Na maioria das vezes nós somos arrimo de família, e a nós falta o respeito, e a nós falta o cuidado, e a nós falta atenção... Imagina o mundo sem nós, o apagão que seria um mundo sem nós! (...) a leitura do livro trouxe para mim muitas perspectivas de lutas, que eu espero que a gente cada vez mais siga pensando nesse sentido, de não só pensar na categoria mas pensar no gênero, um gênero feminino, e nós mulheres, mulheres lésbicas, mulheres trans também, né, porque somos maioria nos trabalhos precarizados, somos maioria nos trabalhos onde não somos respeitadas”.

Dora, que também participou do debate, ressaltou que “o livro traz a experiência de mulheres lutadoras, com suas dificuldades, e concretiza e sistematiza e torna isso uma possibilidade de se tornar força material”. Destacou uma parte do livro que a marcou, que fala sobre como começou a organização das trabalhadoras na greve da Dima, se estabelecendo uma espécie de rede de informações pela qual alguns trabalhadores de diferentes unidades transmitiam informações uns aos outros sobre o que acontecia em cada unidade, e aos poucos aquilo foi se transformando em um instrumento de discussão e organização, com os trabalhadores percebendo que não bastavam ações individualizadas, precisavam lutar de forma conjunta. Segundo ela, ao sinstematizar experiências como essas, o livro acaba “dando vida ao que aconteceu, não ficando para trás, trazendo para a classe trabalhadora que é possível sim fazer a transformação, sair da interpretação né, sair da interpretação e ir para a prática concreta, para uma transformação a partir de uma revolução”.

Tito, um companheiro trans que também fez parte do debate, ressaltou também a importância do livro e dos debates que o LEMARX tem feito. Segundo ele, o livro trouxe “várias discussões em que a gente pode fortalecer o entendimento sobre as artimanhas de sistema estruturado em relações de exploração e opressão da classe trabalhadora e todos os grupos subalternizados dessa estrutura perversa, que segue matando quem é mais vulnerabilizado, que enriquece uma minoria aos custos da exploração e desumanização da gigantesca maioria da população. (...) para que a gente construa também um enfrentamento a isso é fundamental o acesso à toda essa história que nos tem sido historicamente negada, e esses encontros são movimentos de rebeldia (...). Que a gente siga aprofundando esse olhar e partilhando essa semente de rebeldia que a gente tem acessado com quem não tem o mesmo direito garantido, até que todes estejamos livres. É isso, só a luta coletiva mudará as nossas vidas”.

Hildete Damasceno Vergne também reivindicou bastante a atividade. Segundo ela, “Cris e Marie apresentaram maravilhosamente, quando elas falavam passava um filme na minha cabeça! Isso é profundo principalmente nessa pandemia. Eu agradeço pelo privilégio que tenho em participar de um grupo acolhedor, potente, que se importam com vidas, que nos incentiva para seguir na luta coletiva, cada encontro é um alimento mais sustentável”.

As atividades do LEMARX ocorrem toda semana, e para os que se interessarem, podem acompanhar o instagram @coletivodemulhereslemarxufba. Interessades em conhecer mais o livro, podem entrar em contato com o Pão e Rosas (@pãoerosasbrasil) ou a Editora Iskra (@editora_iskra).




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