Política

Eleições 2020

Pantanal em chamas e 28 mil famílias sem terra: um panorama das eleições no MS

A campanha eleitoral de 2020. No estado dominado pelo latifúndio, com uma das maiores populações indígenas do país e com a maior parcela do Pantanal dentro de suas fronteiras, as atuais eleições transbordam contradições e escancaram a realidade nua e crua: o regime do golpe institucional não pode ser meramente administrado e precisa, na verdade, ser confrontado na luta de classes.

quinta-feira 8 de outubro| Edição do dia

No Mato Grosso do Sul, hoje, temos cerca de 28 mil famílias sem terra e niveis alarmantes de suicídio e assassinato de indígenas. Diversas etnias, tais como as Terena, Guarani Kaiowá, Ofayé-Xavante e Guarani Nhandevapela ainda tem seu direito à auto-determinação negados sistematicamente, ainda mais agora em meio a um governo de extrema-direita fruto do golpe institucional e que governa para o latifúndio de Reinaldo Azambuja - esse que ameaça também as terras já demarcadas.

A juventude bem sabe que estamos em um dos estados com a burguesia mais conservadora do país, com uma classe média cada vez mais arruinada. Mas essa situação não cai do céu: estamos no estado dominado pelo latifúndio, com uma das maiores populações indígenas do país e com a maior parcela do Pantanal dentro de nossas fronteiras. O agronegócio transborda sangue e o Pantanal queima por causa dele.

São nessas circunstâncias que temos eleições no Mato Grosso do Sul. Portanto, é cada vez mais utópico acreditar que o regime do golpe institucional pode ser meramente administrado a partir de “polos progressistas” em alguns municípios. A tarefa da esquerda, na verdade, precisa ser confrontar o regime de conjunto, a partir de uma estratégia que vá para além das eleições e organize nossa classe na luta para combater o regime do agronegócio que queima o Pantanal, trás ainda mais seca para a pequena propriedade, mata os povos indígenas e a joga a crise nas costas da classe trabalhadora.

Um panorama geral das eleições no regime do golpe

São 8.582 candidaturas no estado, contando vereador e prefeito, um recorde. No entanto, a esmagadora maioria dos candidatos são o mais do mesmo das legendas do centrão fisiológico e coronelista, da extrema-direita demagoga, restando algumas para uma esquerda institucional como o PT e PCdoB fazendo alianças com a direita golpista, e algumas poucas candidaturas da esquerda mas sem apelo na classe trabalhadora do estado.

Tanto é que, o PSTU, a UP e o PCB, por exemplo, não tem nenhum candidato (nem para vereador) nas principais cidades como Dourados, Corumbá, Três Lagoas e Campo Grande. Mesmo o PCdoB apresentou apenas candidatos à vereador em Campo Grande dentre as cidades citadas - as maiores e mais relevantes economicamente do MS. Já o PSOL apresenta alguns candidatos à vereador nessas cidades, mas não passa de 6, como em Campo Grande.

Além disso, para ilustrar melhor as “regras do jogo” no regime do golpe, 5 deputados federais e 2 estaduais serão candidatos à prefeito, a sua maioria para concorrer em Campo Grande; temos duas cidades com apenas um candidato para prefeito (Japorã e Alcinópolis); dentre 79 municípios, há mulheres concorrendo em apenas 29 cidades (sendo a maioria delas reacionárias); e 51 prefeitos disputam sua reeleição. Essa situação apenas demonstra que se dependermos pura e simplesmente das eleições em meio ao regime do golpe, não poderemos achar uma saída à altura dos problemas mais profundos da classe trabalhadora, do povo pobre e dos oprimidos diante de uma crise histórica do capitalismo.

Nos próximos tópicos tratarei especificamente de cada cidade citada acima, dando um panorama geral das eleições no estado.

Campo Grande

Na capital, o maior colégio eleitoral do estado, temos 14 candidatos - sendo que 10 deles possuem patrimônios milionários.

Na extrema-direita temos Vicente Siqueira do PSL, substituindo o fascista “Tio Trutis”, após a cassação de sua chapa pela justiça. Nada mais que uma disputa entre poderes podres que disputam diferentes fatias de lucro capitalista - bem longe de qualquer tipo de democratismo do judiciário.

No famoso centrão, temos: o liberal que morou e estudou nos Estados Unidos com a grana dos pais e não sabe nada de Brasil, Guto Scarpanti (Novo); o pior do fundamentalismo religioso com Paulo Matton do PSC (coligado com o PROS) e Sérgio Harfouche do AVANTE (coligado com o DC e o PRTB); o centrão diretamente herdeiro da ditadura com Márcio Fernandes (MDB) e Esacheu Nascimento (PP); e outros partidos nanicos que só sobrevivem pelo fundo eleitoral representados pela delegada Sidnéia Tobias (Podemos), o multimilionária Marcelo Miglioli (Solidariedade, coligado com o PMN), o empresário João Henrique (PL) e Marcelo Bluma (PV).

O atual prefeito, Marquinhos Trad, do PSD concorre à reeleição. Mas bem se sabe que ele não passa de mais do mesmo. Ele é um dos membros da família Trad, uma das famílias mais ricas do estado e de “tradição” que conta com Fábio Trad - deputado federal que apoiou a reforma da previdência - e Nelson Trad - ex-prefeito de Campo Grande, senador que também votou a favor na reforma da previdência, e que estava na comitiva de Bolsonaro por onde pegou COVID-19 no começo da pandemia. Importante também citar o parentesco próximo com o amante da saúde privada e higienista Henrique Mandetta, antigo ministro federal da saúde. Ele teve uma desastrosa gestão da pandemia, com direito à uma quarentena policial, estabelecendo toque de recolher desde março deste ano. Mais de 1.200 pessoas morreram na cidade, sendo que boa parte da classe trabalhadora, sobretudo a mais precária, negra e indígena, não teve direito à quarentena e está tendo que arcar com o desemprego e a fome.

Dagoberto Nogueira do PDT tenta se colocar como alternativa ao bolsonarismo e o PT, mas não podemos ter nenhuma ilusão enquanto a isso, visto que esse mesmo partido, nas eleições de 2018, teve como candidato o ultra-privilegiado juiz Odilon - esse que, no final das contas, apoiou Bolsonaro nas eleições.

Já o PT apresenta como candidato Pedro Kemp, com direito à quatro mandatos como vereador. Pedro Kemps não representa nada senão uma tentativa inglória do PT de se mostrar com um cara nova. O próprio governo de Zeca do PT no estado (1999-2007), no final das contas não realizou uma reforma agrária no estado e também não defendeu a auto-determinação indígena na região: boa parte deles, inclusive, vive nas zonas mais perigosas e precárias da capital hoje, sem direito à terra. Desde a Assembleia Legislativa, Kemp aprovou dois projetos de lei que beneficiam a polícia racista: uma que declara de utilidade pública estadual a Associação dos Praças da PM e do Corpo de Bombeiros Militar do MS; um PL que prevê que viaturas policiais sejam revestidas de blindagem nos para-brisas dianteiros. Se Kemp quer defender a classe trabalhadora, poderia começar combatendo a violência policial, não dando melhores condições para que elas reprimam a população. Não preciso nem citar as promíscuas relações do próprio Lula com o latifundiário Bumlai, esse mesmo quem possui diversas fazendas em terras indígenas no estado. O PT, portanto, demonstrou não ser uma alternativa para a classe trabalhadora, pois sempre se alia com a direita e o próprio golpismo, esses que sempre despejam a crise nas costas da nossa classe.

Por fim, temos Cris Duarte do PSOL. Uma candidatura vista com bons olhos pela juventude da cidade, mas que peca em erros fundamentais, os quais o PSOL vem repetindo sistematicamente e principalmente com o atual giro à direita do partido nessas eleições. Por exemplo: a bizarra defesa de mais policiamento nas aldeias urbanas da cidade - como se os povos indígenas precisem de mais violência policial e assassinato e não de uma defesa intransigente de sua auto-determinação e, portanto, de sua auto-defesa. Isso mostra que, mesmo com uma vice indígena e uma candidata mulher, não basta representatividade se não existe um programa para a classe trabalhadora e para os oprimidos que seja anticapitalista e radical.

Veja com mais detalhes um panorama geral das eleições na capital do estado aqui.

Dourados

No polo agroindustrial do estado, Dourados, temos 7 candidatos para prefeito.

Na extrema-direita, Mauro Thronicke é o representante do PSL - primo da senadora Soraya Thronicke, advogada especializada em defender a propriedade privada do latifúndio e que votou a favor da reforma da previdência. Também na extrema-direita, temos Racib Harb do Republicanos com a prioridade da pauta “anti-corrupção” - um boi de piranha golpista, como se fosse possível fazer políticos ultra-privilegiados pararem de roubar do povo num Estado que foi feito como um balcão de negócios da burguesia.

Já o deputado estadual, Barbosinha do DEM, também não ficou de fora. O milionário Barbosinha não poupou esforços em costurar uma “frente ampla democrática” - nada mais longe da verdade, sendo que ele é o candidato dos grandes latifundiários do estado, do PSDB de Reinaldo Azambuja, esses mesmos que fazem fortunas na cidade e estão sistematicamente queimando o Pantanal para que este vire pasto. Em sua coligação está a extrema-direita do Patriota, o golpismo do PSDB, MDB, PSD, Solidariedade e Avante; vergonhosamente, também o apoiam o PSB.

Já no centrão, temos Alan Guedes pelo PP, com apoio do Cidadania e do PL; Wilson Mattos do PTB, com apoio oportunista e sem nenhum princípio em prol da classe trabalhadora do PDT; Jefferson Bezerra do PMN. Novamente, mal consegue-se descrever o que esses partidos defendem - a exceção de apoiar as reformas de Bolsonaro e os ataques à classe trabalhadora e o povo pobre.

Por fim, o único candidato que tenta se colocar à esquerda é o professor da UFGD, João Carlos, do PT. No entanto, o que defende o professor para a UFGD, por exemplo? Infelizmente, o candidato passa longe de defender algo como a efetivação sem concurso público dos terceirizados. Para defender algo assim, o professor deveria defender o fim do reitorado a partir da auto-gestão de estudantes, professores e técnico-administrativos - algo que pode solucionar, inclusive, a intervenção autoritária desse governo Bolsonaro na UFGD. Mas evidentemente, o professor não defende isso, da mesma forma que o PT, que dirige a UNE, não defende. A política do PT de conjunto é essa e para Dourados não seria diferente - um governo para conciliar com o agronegócio e não promover a organização da classe trabalhadora para combater a extrema-direita além das urnas e garantir emprego e renda, por exemplo.

Para saber mais sobre uma outra política para as universidades e contra as intervenção de Bolsonaro veja aqui, aqui e aqui.

Dourados fica, portanto, sem alternativa à esquerda do PT e suas fracassadas tentativas de conciliação de classe que apenas alavancam mais o agronegócio capitalista racista e ecocida.

Corumbá

Já na “cidade do pantanal”, na divisa com a Bolívia, temos 6 candidatos à prefeitura.

A começar pelo empresário bolsonarista Elano de Almeida, que misteriosamente tinha cerca de R$ 500.000 nas eleições de 2016, mas nessa disse ao TSE que não possui nada. Ele ainda diz que pretende fazer uma “gestão comunitária” da cidade - claro, uma em que os latifundiários possam falar livremente contra os ribeirinhos, indígenas, trabalhadores e pequenos comerciantes - afinal, um bom bolsonarista apoia ardentemente os interesses do agronegócio de queimar o Pantanal para fazer pasto, não é mesmo?

Temos também o atual prefeito, Marcelo Iunes do PSDB, o mesmo partido do latifundiário Reinaldo Azambuja, deseja perpetuar uma gestão que deixou o pantanal queimar para dar lugar ao pasto. A coligação é com os “ditos de esquerda” PDT e PSB, o centrão do PV, PP, PTB e PODE, mas também com a extrema-direita do Republicanos. Pior mesmo é o PCdoB que, sem nem pensar duas vezes, apoia o latifúndio se coligando na frente ampla com Marcelo Iunes.

A única mulher na disputa é Joseane Garcia do PRTB - mas não se engane, ela é tão reacionária quanto qualquer homem na disputa. Temos também o golpismo representado com Paulo Duarte do MDB e Dr. Gabriel do PSD. O PT, fazendo valer sua falta de princípios do vale-tudo eleitoral e sua sanha interminável por negociar com os mesmos partidos que apoiaram o golpe institucional contra ele, se coligou com o centrão do MDB, Solidariedade, PL e DEM - e pior com a extrema-direita do Patriota. Tudo para evitar que o PSDB de Marcelo Iunes assuma.

Dessa forma, Corumbá, a capital do Pantanal, não tem um candidato nenhum de esquerda para essas eleições. Isso apenas mostra a necessidade de termos uma alternativa da classe trabalhadora, dos ribeirinhos, do povo pobre e do campo para combater esse regime de conjunto para além das eleições e que supere a lógica de alianças “democráticas” com o golpismo e a extrema-direita no vale-tudo eleitoral de PT e PCdoB.

Três Lagoas

Uma das cidades mais industrializadas do estado, Três Lagoas, conta com também 7 candidatos para prefeito.

A começar pelo coronel da PM, Ênio de Souza, pelo PSL. Apenas um representante do latifúndio, um fascista que, tal qual a “corporação”, está disposta a tudo para defender a propriedade privada da burguesia e do latifúndio - mesmo que isso signifique apoiar os jagunços do latifúndio que exterminam dia após dia os indígenas da região. Em meio as revoltas históricas do Black Lives Matter nos Estados Unidos, precisamos seguir as massas negras e ir contra a polícia e não confiar em nenhum momento nela, apenas na força da nossa classe. Também na extrema-direita, temos Fabrício Venturoli do Republicanos e Renné Venâncio do Patriota.

No centrão fisiológico, temos Sebastião Neto do Solidariedade, o empresário Divino Lajes do Avante. Não é a toa que ninguém sabe o que defendem esses partidos, pois apenas sobrevivem do fundo eleitoral e não tem base real de militantes.

Por outro lado, temos o atual prefeito do PSDB, ngelo Guerreiro. Mais um prefeito “mais do mesmo”, recentemente envolvido na chamada “farra das cotas”, na qual o prefeito teria recebido ilegalmente cerca de R$118 mil - para se mostrar como um empresário sabe bem administrar as contas de um município, não é mesmo?

Na esquerda, um fenômeno curioso ocorreu: o PSOL lançou como candidata Kaelly Saraiva e quem a apoia é o PT, este abrindo mão de sua candidatura própria. Para alguns, isso poderia significar um verdadeiro avanço do campo progressista na cidade, mas não nos enganemos. Na realidade, isso apenas demonstra uma tendência geral do PSOL de se colocar cada vez mais à direita e tentando ocupar os espaços do petismo, a partir de políticas de conciliação com o agronegócio, os evangélicos e militares. Isso se comprova com o apoio do PT a essa candidatura ou mesmo em seu programa frouxo e pouquíssimo denunciador da polícia assassina e racista que tanto mata e tortura os povos indígenas da região.

Por uma esquerda anticapitalista e revolucionária no Mato Grosso do Sul

Diante da atual situação no estado como podemos ver nessas eleições, é fundamental superar o PT pela esquerda. A lógica do “mal menor” eleitoreiro do PT e PCdoB, como foi exposto acima, não tem nenhuma força séria para combater a extrema-direita ou mesmos os ataques à classe trabalhadora que DEM, PSDB e o centrão farão com o maior prazer - como já fizeram no parlamento e no nosso próprio estado. Se aliar com o agronegócio em Corumbá, como faz o PCdoB; se aliar com a extrema-direita em Campo Grande e Corumbá como faz tanto o PT como o PCdoB; ou mesmo apresentar programas diluídos que tentam forjar “ilhas de progressismo” para administrar a obra do golpe institucional não conseguiram prosperar.

Nessa medida, é fundamental construirmos um saída da classe trabalhadora e dos oprimidos no Mato Grosso do Sul - uma esquerda que tenha um programa anticapitalista e revolucionária para organizar nossa classe e utilizar o parlamento como um palanque para a luta de classes. É essa a política que o MRT está levando nacionalmente nessas eleições, como por exemplo com a candidatura à vereador da Bancada Revolucionária de Trabalhadores em São Paulo, bem como a de Flávia Valle em Contagem/MG e Valéria Müller em Porto Alegre. As batalhas eleitorais do MRT se dão na medida em que é fundamental colocar a necessidade de conquistar sim cargos no parlamento, mas para fazer deles “tribunos do povo” - como dizia Lênin -, para denunciar o regime de conjunto do golpe institucional e fortalecer e fomentar a organização independente da nossa classe para que os capitalistas paguem pela crise.

É por isso que, nacionalmente, defendemos uma Assembleia Constituinte livre e soberana imposta pela luta da nossa classe e dos oprimidos, num sentido claro de ruptura com o capitalismo e rumo a um governo dos trabalhadores; sem nenhuma confiança nos “democratas burgueses” do STF, da Lava Jato e dos governadores - que tentam passar uma postura “crítica” à Bolsonaro. Em uma Assembleia como essa, poderíamos batalhar ativamente em todo o país e também desde o Mato Grosso do Sul por pautas como a expropriação completa do latifúndio e uma reforma agrária radical; a legalização do aborto de forma segura e gratuita; o não pagamento da dívida pública; pela auto-determinação dos povos indígenas, entre outras coisas. É isso o que nos diferencia. Não temos ilusões nas instituições do golpe. Queremos organizar nossa classe para lutar, se auto-defender e garantir as liberdades e direitos fundamentais que nos são negados.

Para entrar em contato com o MRT na região centro-oeste, envie um email para: [email protected]




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