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Pablo Iglesias renunciou à vice-presidência espanhola para evitar uma derrota eleitoral em Madrid

O dirigente do Podemos anunciou nesta segunda-feira que está deixando a vice-presidência do governo de coalizão liderado por Pedro Sánchez para se candidatar às eleições de Madrid. Com isso, busca conter a crise do Podemos.

terça-feira 16 de março| Edição do dia

O secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, anunciou nesta segunda-feira em vídeo dirigido à imprensa que está deixando a vice-presidência do Governo que divide com os "socialistas" do PSOE, liderados por Pedro Sanchez, para ser o candidato pelo Unidas Podemos nas eleições de 4 de maio para a Comunidade de Madrid.

“Vou disputar as eleições de 4 de maio na Comunidade de Madrid”, hoje controlada pela direita conservadora do Partido Popular (PP), disse Iglesias em vídeo nas suas redes sociais.

“Tenho pensado muito nisso; decidi que se os filiados quiserem, vou apresentar-me às primárias para ser candidato às eleições da Comunidade de Madrid”, disse Iglesias, que defendeu que “um militante deve estar onde for mais útil”.

O dirigente de 42 anos ocupava a vice-presidência dos Direitos Sociais até janeiro de 2020, quando o Podemos decidiu entrar no Executivo como um sócio menor do PSOE.

Iglesias disse ter comunicado a Sánchez a sua "decisão de deixar o cargo no Governo quando começar a campanha" e anunciou que propõe como sucessora no cargo a atual Ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, membro do Partido Comunista do Espanha (PCE) e do Unidas Podemos. Todas essas mudanças aguardam a aceitação ou não do presidente Pedro Sánchez.

Desta forma, o dirigente do Podemos busca oxigenar sua formação, que vem de uma série de derrotas eleitorais. Por outro lado, pretende separar-se da gestão do governo central e do seu sócio PSOE, que acaba de protagonizar um escândalo em Murcia ao tentar negociar um movimento secreto de censura contra o governo local do PP de mãos dadas com um acordo com a direitista Ciudadanos. O Ciudadanos, que surgiu como alternativa de direita ao conservador PP, da mesma forma que Podemos buscou situar-se à esquerda do PSOE, vive uma crise terminal com a renúncia de muitos de seus membros que migram para o PP e pressionado pela extrema direita do VOX. Iglesias vê o Podemos no espelho do Ciudadanos e busca dar-lhe fôlego tentando competir em Madrid.

Além disso, também tentou pressionar seu ex-companheiro e fundador do Podemos, Íñigo Errejon - que há poucos anos se separou e montou o seu própria organização, denominada Más Madrid, a chegar a um acordo comum. No entanto, Errejon e o Más Madrid anunciaram hoje que terão uma candidatura própria nas eleições.

No que se refere ao desempenho eleitoral, as derrotas do Podemos e seus sócios na Galiza e no País Basco, e sua estagnação e irrelevância na Catalunha e os prognósticos das urnas para Madrid, onde poderiam ficar de fora da Assembleia Legislativa, mostraram o fato de o espaço político do neo-reformismo ibérico do Podemos está sendo reconquistado pela pata esquerda do bipartidarismo que eles ajudaram a reconstruir.

Por outro lado, o fracasso da chamada "Operação Murcia" deixou o PSOE e seus atuais parceiros - Unidas Podemos - e potenciais parceiros - Más Madrid - em uma situação muito ruim.

Alejandro Bravo, editor do Izquierda Diario do Estado Español, ressalta que "perder Madrid significaria para Podemos seu virtual desaparecimento do panorama regional, o que poderia ser o primeiro passo para a irrelevância política. É como uma tentativa de garantir a sobrevivência do projeto que devemos entender a decisão de Iglesias. No curto prazo, procuraria evitar um novo desastre nestas eleições. Enquanto, no longo prazo, poderia ser uma nova tentativa do Unidas Podemos de se relocalizar em relação ao PSOE que, segundo a cada nova pesquisa, parece se fortalecer constantemente às custas de seus sócios minoritários."

Pablo Iglesias busca apresentar sua candidatura a partir de um discurso épico de luta contra a direita e a extrema direita e clamando pela unidade da esquerda. Manobra que visa principalmente forçar um acordo com o Más Madrid, mas também colocar toda a esquerda social e política madrilena sob a sua hegemonia.

Mas o endurecimento do discurso de Iglesias e do Podemos não esconde que a receita é a mesma de todos esses anos: continuar apostando no malmenorismo. Para evitar um futuro governo do PP e do VOX, eles estariam dispostos a chegar a um acordo com o PSOE - e talvez até com Ciudadanos.

Sua participação no atual governo de Pedro Sanchez é o melhor exemplo dos resultados das receitas do neo-reformismo. "O ’governo mais progressista da história’ não só falhou em cumprir a vasta maioria dos compromissos limitados da coalizão, mas também transferiu os custos da crise econômica e sanitária para os ombros das classes populares, resgatando grandes empresas, salvando a monarquia corrupta de uma de suas maiores crises, a abertura do CIES, a manutenção da reacionária Lei de Imigração e a repressão aos jovens que saíram em protesto pela liberdade de expressão”, diz Bravo.

Por sua vez, Santiago Lupe, porta-voz da Corrente Revolucionária de Trabalhadores e Trabalhadoras (CRT), analisa que “Esta decisão pode dar errado e colher outro desastre eleitoral. Nesse caso, o Podemos pode acabar compartilhando a data da morte com o ’Podemos de direita’, Ciudadanos. Mas se a aposta for vencedora, existem duas possibilidades. Com um custo elevado, Iglesias conseguiria a preservação por algum tempo do seu projeto político e, aliás, marcar um gesto de força no seio do Conselho de Ministros e Ministras. Se o fará como chefe da oposição a um governo madrilenho do PP-Vox ou como parte de um novo governo autônomo de uma ampla coalizão, que poderia incorporar Ciudadanos, se não se extinguirem, veremos isso no dia das eleições."

Diante de uma nova proposta de escolha pelo mal menor, Lupe destaca que “Desde a CRT, porém, estamos propondo uma proposta que saia desse eterno “mal menor” que encontra formulações cada vez mais à direita. Hoje, freiar a direita do PP-Vox inclui a possibilidade de pactuar com a neodireita de Ciudadanos, amanhã poderá ser apoiar o PP para evitar que termine com Vox. Nossa proposta aos Anticapitalistas, Izquierda Revolucionaria, outros grupos como Corriente Roja e companheiros ativistas sindicais, estudantis, do movimento de mulheres e grupos anti-racistas, é formar uma frente anti-capitalista e de classe que lute por um programa para que esta crise seja paga pelos capitalistas, se comprometa com o desenvolvimento da mobilização social para enfrentar as políticas neoliberais e o avanço da direita e manter total independência da ala "progressista" do establishment que quer nos aplicar os mesmos ataques. Por de pé outra esquerda é cada vez mais uma questão vital. O avanço da direita não pode ser combatido por uma "esquerda" que contribui para a desmoralização e a falta de soluções para graves problemas sociais, terreno fértil sobre o qual Vox tenta avançar. Mas também, sem uma esquerda assim, que coloca o eixo no desenvolvimento da mobilização social e da auto-organização para lutar por um programa anticapitalista, não há saída possível para os grandes problemas do desemprego, da moradia ou da pobreza, nem da horizonte de acabar com um regime monárquico herdeiro da Ditadura".




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