ATO INTERNACIONAL CONTRA O RACISMO E A VIOLÊNCIA POLICIAL

Pablito diz que "a violência policial passa a ser questionada no mundo todo" e convoca ato internacional 11/7

Como parte da convocação do Ato Internacional Simultâneo contra o racismo e a violência policial, entrevistamos Marcello Pablito, que será um dos oradores pelo Brasil.

quarta-feira 8 de julho| Edição do dia

No próximo sábado, dia 11 de julho, às 15h, ocorrerá o Ato Internacional Simultâneo impulsionado pela FT (Fração Trotskista) pelo Facebook e Youtube, com militantes dos EUA que estão nas ruas contra o racismo; da França, que lutam em defesa dos imigrantes; brasileiros, que estão lutando contra a violência das balas da polícia e o racismo bolsonarista; e saudações de revolucionários da Grã Bretanha, Alemanha, Chile e Bolívia.

Entrevistamos Marcello Pablito, dirigente da agrupação de negras e negros Quilombo Vermelho e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), organização que impulsiona o Esquerda Diário.

Esquerda Diário: Pablito, pode nos contar como a luta dos negros no Brasil se conecta com a luta antirracista nos outros países, em sintonia com o "Black Lives Matters"?

Pablito: A nossa luta nunca foi desconectada. Hoje no Brasil os negros sofrem com os assassinatos da polícia nas favelas fruto do racismo de um país herdeiro da escravidão. O assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, que serviu de estopim para uma massiva mobilização naquele país, chegou a ter algumas expressões de impacto no Brasil, país onde os negros a todo momento veem suas vidas serem ceifadas pelas balas da polícia assassina do racista Bolsonaro e de governadores como João Doria em São Paulo ou Wilson Witzel no Rio de Janeiro. Mesmo na pandemia, Doria ou Witzel e outros governadores não deixaram em paz o povo negro e os mais pobres que moram nas favelas e periferias, com operações e assassinatos de crianças, repressão e morte, como foi o mais recente caso de João Pedro.

A repressão aos negros e ao povo pobre é herança de um país que, assim como os EUA, foi fundado na escravidão dos negros, raptados na África e vendidos como mercadoria nas colônias da Europa. Esta herança da escravidão vive até hoje em nosso país, onde são os negros que ocupam a imensa estatística de desemprego, e é o rosto negro a imagem do trabalho precário nos aplicativos de entrega ou na terceirização, e é também o rosto negro e pobre o da maioria daquele dos que nesta pandemia não tiveram a opção de fazer a sua quarentena.

Esquerda Diário: Mesmo com a abolição da escravidão, o racismo persiste em pleno século XXI. Como e por quais vias?

Pablito: Sim, o racismo persiste e é alimentado tanto por figuras da nova extrema direita, como Bolsonaro que se referiu a índios e quilombolas tratando em "arrobas", usando os termos dos proprietários de escravos que se referiam aos negros como animas, quanto persiste na própria forma como a economia capitalista se adaptou após a abolição da escravidão. Os negros não tiveram acesso à terra no Brasil ou nos EUA, foram jogados para os piores postos de trabalho permanecendo nas condições de escravo, só que agora assalariados. Vimos que no último dia 1º, a massa dos trabalhadores dos aplicativos de entrega realizou uma paralisação nacional e o rosto destes trabalhadores é negro, assim como é negra a maioria dos trabalhadores terceirizados, os garis e outros setores onde o trabalho é duro e se tem menos direitos. Esta mesma estrutura também persistiu nos anos do governo do PT de Lula que, se é verdade que implementou cotas raciais em algumas universidades, também é verdade que ampliou massivamente o trabalho precário através da terceirização, se "vangloriando" da criação de empregos com enorme exploração, e ainda cumpriu o papel vergonhoso de liderar a invasão militar no Haiti, comandada por generais que hoje servem fielmente a Bolsonaro.

Os salários dos negros são os menores e o racismo e a repressão policial são completamente aos interesses da classe capitalista de aumentar a extração do mais-valia produzido no trabalho. Para isso lançam de uma opressão brutal contra os negros que são maioria do nosso país, e também aos indígenas aos nordestinos. O objetivo desta opressão é disciplinar a ampla classe trabalhadora para que ela não se organize para lutar pelos contra seus patrões, que lança mão das armas do capitão do mato moderno, a sua polícia, para isso. Mas as mobilizações nos Estados Unidos trouxeram tanto o apoio da juventude branca para a luta antirracista, quanto agora também entraram em cena grandes batalhões da classe trabalhadora em apoio ao Black Lives Matters exigindo o desfinanciamento da polícia, chegando ao caso de algumas centrais de sindicatos começarem a debater sobre a possibilidade de desfiliar os policiais de suas fileiras. Lutamos para, aqui no Brasil, traduzir também esta luta antirracista em um país de maioria negra, este ato Internacional Simultâneo tem o objetivo de nos armar para aqui no Brasil combatermos os racistas Bolsonaro, assim como o judiciário racista e os governadores, com uma estratégia de aliança com a classe trabalhadora.

Esquerda Diário: Poderia nos dizer o que esperar deste ato internacional?

Pablito: O racismo e a violência policial passam a ser questionados no mundo todo e isso também chegou aqui no Brasil. É chocante observar que justamente no momento em que muitos se revoltam no mundo todo com a barbárie promovida pelas mãos da polícia, deixando abertamente explícito o quão racista e o quão atrelada ao Estado é essa instituição, organizações de esquerda passem a fazer atividades defendendo a polícia, defendendo mais verbas ou ainda, no "melhor" dos casos, desmilitarização. É preciso deixar claro que principalmente para nós, negros, que essa polícia é ferramenta de um Estado capitalista que nos vê como mão de obra barata.
Esse ato é parte de uma política para inspirar setores na tradição internacionalista da luta de classes, assim como a tradição internacional da luta negra que, durante a escravidão, já se guiava por revoltas negras como a revolução do Haiti e a resistência dos Quilombos no Brasil. É preciso resgatar a estratégia capaz de quebrar este sistema racista. Como Malcolm X diria, não existe capitalismo sem racismo, e desta maneira, para enfrentar o capitalismo, é necessário conectar a luta nacional com o terreno internacional.

Esse ato, além de expressar esse sentimento mais imediato de ódio ao racismo e à violência policial, serve para apontar que a saída passa necessariamente pela construção de uma organização de trabalhadores. Sim, precisamos falar disso: a classe trabalhadora precisa de um partido. Partido seu, com independência de classes. Não um partido atrelado a empresários, a banqueiros. Não um partido com mil laços com capitalistas de todo tipo. Precisamos de um partido operário, socialista, revolucionário. E não é possível fazer isso por fora de uma perspectiva internacionalista. Marx não falava da boca pra fora quando levantou a palavra de ordem "trabalhadores do mundo todo, uni-vos!". Trata-se da necessária batalha de uma classe que não tem fronteiras e que deve se organizar. Sem a organização da classe operária em partido, as manifestações espontâneas podem até ter importantes expressões nas ruas, ter grandes impactos inclusive na subjetividade, mas é impotente para transformar profundamente uma sociedade que possui raízes na escravidão, na exploração, na opressão. É preciso transformar isso pela raiz e é isso o que propõe a FT, organização internacional que impulsiona esse chamado ao ato. A FT quer ser parte dessa batalha pela organização da classe trabalhadora internacional com uma perspectiva revolucionária. E é nesse sentido que convidamos a todos que têm ódio. Sim, ódio ao racismo, ódio à polícia, ódio ao capitalismo. Queremos fomentar que as negras e negros, ao lado dos trabalhadores, ergam uma estratégia capaz de colocar abaixo toda essa miséria e degradação. É por isso que convoco a todos para assistir ao ato de 11/7 às 15h, nas páginas do Youtube e do Facebook do Esquerda Diário.




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