RIO DE JANEIRO

PT do RJ decidirá se policial citado na CPI das milícias poderá se candidatar pela legenda

Sargento da PM citado na CPI das milícias quer se candidatar a vereador pela legenda. Presidente do PT Rio diz que diretório estadual decidirá sobre a filiação.

quinta-feira 6 de agosto| Edição do dia

O sargento da Polícia Militar, Alex Beraldo, negocia entrada no Partido dos Trabalhadores do Rio para concorrer às eleições deste ano candidatando-se a vereador. O PM é citado no relatório final da CPI das Milícias realizada na Alerj em 2008, apontado pela Assembleia como integrante do grupo de milicianos que atuava em Paciência, Santa Cruz e Sepetiba, na Zona Oeste da capital do Rio.

Apesar de tudo isso, o PM, que saiu candidato em 2014 e recebeu 14.954 votos para deputado federal, foi recebido pela direção do PT do Rio de Janeiro para conversar sobre sua possível filiação e candidatura. Segundo Tiago Santana, presidente do PT no município do Rio, as conversas com o Beraldo começaram há cerca de um mês, e Beraldo já teria se reunido inclusive com Washington Quaquá, cacique do partido no Estado do Rio.

Mesmo com todo este histórico absurdo, segundo o relatório da CPI das milícias, e mesmo se tratando de Rio de Janeiro, aonde a vereadora Marielle Franco, do PSOL, foi assassinada por milicianos pistoleiros, ainda sim o PT municipal vai deixar a discussão se desenvolver e a executiva nacional decidir se filia ou não o policial. Ainda segundo Tiago Santana:

— Existe sim essa procura, essa intenção de ele vir para o PT e a gente está analisando porque não há uma efetivação. Até porque essas informações todas que as pessoas estão se referindo só surgiram depois das primeiras manifestações do interesse dele e isso abre um debate. A direção estadual terá que debater sobre a admissibilidade ou não.

Segundo o relatório da CPI das milícias, Beraldo faria parte da Liga da Justiça, grupo miliciano liderado por Natalino Guimarães e Jorge Babu - este segundo se elegeu como vereador do Rio e depois deputado estadual em 2006 pela legenda do PT, antes da CPI. As origens do grupo miliciano Liga da Justiça remonta ao passado dos grupos de extermínio montados na Zona Oeste por policiais durante a ditadura militar. Na atualidade, os grupos vivem de cobrar por serviços de segurança, distribuição de gás e energia, dominando territórios que utilizam como currais eleitorais, escolhendo quem pode fazer campanha nos locais etc.

Uma candidatura que deveria ser impensável para quem se diz de esquerda, completando 2 anos e 5 meses do assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes sem que os mandantes estejam presos. Mas ao invés de imediatamente negada, a candidatura irá para discussão na executiva estadual do partido. Mas esse procedimento é no partido que convive amigavelmente com André Ceciliano, deputado Estadual do PT que serviu de fiel apoio ao governo do sanguinário Wilson Witzel. Ceciliano recebeu um suspensão das atividades partidárias por alguns meses por atuar em favor da privatização da Cedae e do pacote de ajustes e ataques aos trabalhadores aprovado no governo do Pezão. Depois foi convenientemente "esquecido" nas polêmicas partidárias, por ocupar o cargo de presidente da Alerj.

O PT não só abaixou a cabeça para a dominação das milícias no Estado, como ainda participou com cargos nos Governos de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, tomando parte ativa no projeto estatal que liberou a atuação das milícias. Se hoje tenta se recompor após o golpe institucional, ficou ao lado de Cabral e Paes até o final, ocupando postos dentro destes dois governos.

Por isso, o que para a esquerda é um absurdo, para as cúpulas partidárias do PT é motivo de debate na executiva estadual. A discussão em si mostra que a tradição da conciliação de classes, os cálculos eleitoralistas, as alianças políticas com a burguesia naturalizaram todo tipo de absurdo oportunista no partido, mostrando até onde é possível chegar com uma política de conciliação: desmoralização dos trabalhadores e de suas ferramentas políticas. Por isso é necessário tirar lições para construir uma esquerda dos trabalhadores que não repita os erros da conciliação de classes do PT.




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