Gênero e sexualidade

POLÊMICA - PSTU

PSTU ultrapassando os limites: não basta apoiar greve de polícia, agora querem que treinem as mulheres!

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

terça-feira 8 de março de 2016| Edição do dia

O 8 de março desse ano se dá numa situação atípica. Tendo como pano de fundo os debates e o recrudescimento da ofensiva da direita e da operação Lava Jato, setores governistas querem se utilizar do dia 8 de março para transformar os atos convocados numa defesa de Lula. Isso em si já deixa mais complexo o debate sobre as questões relativas à luta das mulheres que marca o 8 de março, e que nesse ano coloca a necessidade de ter ainda maior de clareza estratégica. Algo que está faltando em organizações da esquerda.

O PSTU é uma organização conhecida por suas posições de apoio às greves policiais, e por acreditar que esses seriam parte da classe trabalhadora. Em inúmeras ocasiões defenderam uma política de apoiar as reivindicações dos policiais. Dentre outras medidas como a desmilitarização da polícia, defendem, por exemplo, a política utópica e, portanto, reacionária de que a polícia (armada) – parte do Estado burguês - deveria ser controlada pela população (desarmada), além de exigir direito de greve para os policiais e de sindicalização, como para “todo funcionário público”, além de já terem apoiado várias greves policiais. Como setores desarmados da população poderiam eleger, revogar e controlar a polícia armada, como quer o PSTU, permanece sendo um mistério.

O que reside de fundo nessa absurdidade, é uma concepção que ignora completamente o caráter de classe da polícia. Que se comprova todos os dias como uma das principais instituições a serviço da burguesia, através da qual se resguarda a propriedade privada, mediante a mais brutal violência contra os trabalhadores e a juventude negra e pobre da periferia. Violência essa que cobra seu preço em sangue dos trabalhadores e da juventude. Mas como explicar tamanha sandice?

Primeiramente isso se deve a uma boa dose de sindicalismo pragmático, alimentada pela mais superficial ideia de que por receberem salários do Estado e prestarem um serviço àquele, seriam “trabalhadores de farda”, e, portanto, deveriam ter suas greves apoiadas pela esquerda. Agrega-se ainda o bom e velho objetivismo do PSTU, para quem tanto faz quem são os sujeitos dos levantes ou ações em curso. Em outras palavras, se a polícia faz greve isso em si mesmo seria progressista, independente do fato de se tratar de uma das instituições mais reacionárias do Estado burguês, pois isso por si mesmo abriria perspectivas para que a situação fosse à esquerda. Essa lógica do PSTU se provou desastrosa tanto nos grandes conflitos internacionais, como no caso da Síria, como no apoio em nosso país aos caudilhos ligados à polícia militar, como o Cabo Daciolo, expulso do PSOL, que defendeu publicamente os policiais envolvidos no assassinato do pedreiro Amarildo.

Como se não bastasse tudo isso, agora o PSTU dá mais uma demonstração de que o critério básico para qualquer marxista revolucionário de definir aliados e inimigos a partir de um corte de classe, lhe escapa totalmente. No material que soltaram frente ao 8 de março, oferecem uma “saída” absurda para a violência contra as mulheres. Defendem: “direito das mulheres à autodefesa. Liberação do porte de armas para as mulheres com subsídio do Estado e treinamento garantido pelas organizações de classe das polícias federal, civil e militar”.

É impressionante como numa passagem tão breve, pode haver tamanhos erros. Os revolucionários não são pacifistas. É evidente que frente à violência contra a mulher, que se dissemina pela sociedade e é responsável pela morte e mutilação de mulheres, reivindicamos o direito das mulheres de se defenderem. Mas daí a fomentar ilusões de que justamente a instituição mais machista dentre todas no Estado burguês, que assassina mulheres, principalmente pobres e negras, seria responsável por treiná-las para sua autodefesa extrapola todo e qualquer limite da razão. Ou alguém aí não se lembra da cena de Claudia Silva Ferreira, a mulher negra, cujo corpo foi arrastado por uma viatura policial em plena luz do dia no Rio de Janeiro, após ter sido morta com um tiro? A polícia que debochou da mulher de Amarildo, quando essa buscava saber o paradeiro de seu marido? Que assassina tantas outras? Que humilha aquelas que muitas vezes buscam a polícia para relatar os maus tratos e agressões sofridas em casa? Caberia à PM de cidades como São Paulo, que matou mais que os Estados Unidos durante a guerra do Iraque, “treinar as mulheres para se autodefenderem”? Isso não pode ser levado a sério.

A isso o PSTU poderia responder: mas defendemos que esse treinamento seja feito pelas “organizações de classe” da polícia. Outro absurdo. Quem disse que as “organizações de classe”, isto é, os sindicatos e associações de policiais, teriam um caráter mais progressista que a própria corporação? Além de isso não ter nenhuma base na realidade, o que se demonstra nas greves policiais é justamente o oposto. Nelas os policiais defendem "melhores condições de trabalho", ou seja melhores condições para reprimir os trabalhadores e o pobre.

Mesmo que a polícia fosse desmilitarizada isso não significaria que deixaria de ser uma instituição repressiva, voltada contra os trabalhadores, mulheres e a juventude pobre das periferias. A unificação das polícias, e o fim da vinculação com o Exército e com a Justiça Militar, não alterariam o papel da polícia como detentor do monopólio da violência estatal em defesa da propriedade privada. Por isso, as mulheres não podem ser levadas a acreditar que que a polícia, seja qual for o tipo, poderia se encarregar de promover sua autodefesa.

A saída para as mulheres, e para os trabalhadores, passa justamente pelo polo oposto. Isto é, deve se constituir através da confiança nas suas próprias forças, para organizarem-se de maneira independente, o que envolve o entendimento da natureza de classe da polícia, de modo a ligar a luta contra o machismo e a violência contra as mulheres à luta contra o capitalismo.

Trotsky em sua obra “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha” respondendo a socialdemocracia, que minimizava o perigo da repressão alegando que havia estruturado diversos militantes seus na polícia, afirmava que um socialdemocrata que entrava na polícia deixava de estar ligado aos trabalhadores para ser um cão de guarda da burguesia. Algo que o PSTU ignora com essa posição absurda, que vem a se somar a tantas outras assumidas na presente situação nacional, como a adaptação à Lava Jato, o Fora Todos, e à passividade frente às centenas de demissões na GM, onde dirigem o sindicato. As mulheres, que lutarão nesse 8 de Março, por suas demandas em uma situação política extremamente complexa, precisam refletir e não cair nessas posições.




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