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PSTU, assim como a direita bolsonarista, apoia o motim policial miliciano no Ceará

O bolsonarismo não está sozinho no apoio ao reacionário motim de milicianos policiais no Ceará: o PSTU rapidamente saiu em sua defesa. Trata-se de um salto de qualidade na política direitista dessa organização, cuja teoria e prática levaram a aprofundar seu papel de quinta roda do golpismo.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

sexta-feira 21 de fevereiro| Edição do dia

Nesta quarta-feira (19/2), uma cena aberrante tomou conta das capas dos noticiários em todo o país. Em meio ao motim de bandas policiais armadas e encapuzadas contra sua chefia, o governo do Ceará, na cidade de Sobral uma escaramuça entre policiais e o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) resultou no seu baleamento. Cid Gomes pilotava uma retroescavadeira, com o intuito de entrar pelos portões do 3º Batalhão da Polícia Militar do município, quando foi atingido pelos tiros oriundos dos encapuzados militares.

Segundo noticiado pelos veículos de imprensa, como o G1 e a Folha, os policiais militares em Sobral haviam ordenado à população que não saísse de suas casas, e que o comércio fechasse suas portas no centro da cidade. O clima de terror instalado pelas bandas policiais se dirigia diretamente contra os trabalhadores e a população pobre, enquanto negociava com seus superiores no governo de Camilo Santana (PT-CE) mais armas, mais equipamentos e privilégios, ou seja, melhores condições para reprimir qualquer movimento de oposição aos ajustes econômicos impulsionados pelo próprio governo cearense.

Há suspeitas de que as bandas policiais encapuzadas que estiveram envolvidas nestes acontecimentos possuem laços com elementos milicianos, e disputariam espaços de poder através de métodos de terror contra a população. Se isso é verdade, a operação poderia ter como tendência a sustentação de um projeto político. Nunca é demais lembrar que, numa situação política com marcados contornos reacionários, a região Nordeste representa um obstáculo ao avanço do bolsonarismo: os 9 estados nordestinos compõem, de conjunto, os lugares em que Bolsonaro tem a maior taxa de rejeição. Poderia a utilização de milicianos – com os quais o clã bolsonarista tem laços estruturais, com seu “centro de gravidade” no Rio de Janeiro – ser um artifício para expandir a influência política da extrema direita em regiões em que o bolsonarismo registra baixa adesão? Não está descartado que essa possa se tornar, tendencialmente, uma tática da extrema direita para seus objetivos reacionários. Isso é o que está indicado no fato de que as principais lideranças dos policiais e bombeiros amotinados são os deputados estaduais Soldado Noélio (PROS), Delegado Cavalcante (PSL) e Sargento Reginauro (ex-PR, sem partido), este presidente da Associação dos Profissionais de Segurança (APS). Todos bolsonaristas duros e apoiadores do deputado federal Capitão Wagner (PROS), que é candidato para prefeito de Fortaleza.

Mesmo diante desse panorama, o PSTU não perdeu tempo: lançou-se imediatamente em apoio ao reacionário motim policial, em nome de sua já consagrada política de apoio às forças especiais de repressão estatal, cuja função social é a de proteger, com a força das armas e da violência, a propriedade privada e a ordem capitalista. Nenhuma das ocasionais insubordinações da assassina polícia brasileira, por melhores condições de repressão, passou sem o apoio aberto dessa organização, que desde 2016 ficou marcada pela adesão ao golpismo, à FIESP e ao autoritarismo judiciário, como as “forças motrizes” de libertação do país frente ao reformismo petista. As lições centrais do marxismo em relação ao papel da polícia burguesa passou sempre longe do PSTU. Contra as ilusões da socialdemocracia alemã na polícia, durante os anos 1930, Trotski afirmava que “um trabalhador que entra para a polícia deixa de ser um trabalhador, passa a ser um agente fardado da burguesia”. Ou seja, um policial não tem nenhum elo social restante com a classe trabalhadora, e não é “como qualquer outro funcionário público”, como diz o PSTU.

Uma coisa é não ter qualquer ilusão sobre o coronelismo político de Cid Gomes e o programa liberal, disfarçado de neodesenvolvimentismo, do PDT. Não há razão para embelezar esse partido burguês: participa do jogo político tradicional da ordem capitalista, e seu suposto “progressismo” não oculta que mais de 30% dos seus parlamentares votaram a favor da reforma da previdência. O partido de Ciro e Cid Gomes ajudou a eleição de Rodrigo Maia como chefe da Câmara, e votou a favor da Medida Provisória 881 de Guedes, que permite trabalho aos sábados, domingos e feriados sem qualquer direito, colaborando em diversos outros ajustes. Cabe lembrar, ajustes que o PT de Camilo Santana articula para todo o Ceará, como a reforma da previdência que encabeça, ou a militarização das escolas. Mas isso não torna menos ridícula a política direitista do PSTU de considerar que os motins policiais, que ademais podem estar ligados a milicianos da extrema direita, são uma ferramenta benéfica aos trabalhadores.

Com uma política dessas, quão realmente distante se encontra o PSTU da política de alguém como Eduardo Bolsonaro, que também defende o motim policial cearense, justificando o tiroteio como “autodefesa dos manifestantes”? Uma vergonha, que chega ao ponto do PSTU ter proposto em assembleia dos trabalhadores do metrô de SP o apoio ao motim policial, prontamente rechaçado pelos metroviários.

A trajetória política do PSTU no Brasil pós-golpe institucional se resumiu a adotar para si a política das alas mais reacionárias da burguesia; ou mais precisamente, a arrastar-se atrás delas. Em 2016, apoiou o golpe institucional promovido pela Lava Jato de Sérgio Moro, não elegendo melhor maneira de se delimitar do PT do que ser a quinta roda da direita golpista. Em abril de 2018, apoiou a condenação arbitrária de Lula pelo judiciário e posteriormente sua prisão pelo autoritarismo da Lava Jato, um novo “sujeito histórico” para o PSTU. Se diante desse retrato não chega a espantar o apoio do PSTU aos policiais encapuzados, surpreende pelo direitismo sem igual.

Curiosamente, a agilidade do PSTU em apoiar os motins policiais de toda natureza não esteve presente quando se tratou de dirigir suas bases na Federal Nacional dos Petroleiros (FNP) durante a maior greve dos petroleiros desde 1995. Os locais que dirige a CSP-Conlutas foram quase os últimos a aderirem à greve, e não serviram como ponto de apoio pra enfrentar o desmonte da FUP, inclusive com seus dirigentes votando pela mesma posição de fim da greve como a FUP em alguns lugares centrais como no RJ.

Eis aqui mais um resultado da ruptura do PSTU e seu dirigente histórico Nahuel Moreno com a teoria da revolução permanente de Trotski, e abandonado com isso uma estratégia de independência de classe, separando taxativamente os movimentos políticos reais entre as classes e suas direções. Segundo a “teoria da revolução democrática” do PSTU, tudo reside na queda do governo de turno, independentemente de qual programa encabeça o movimento. Assim, a classe trabalhadora não precisaria batalhar por seu programa e organização independentes contra toda variante burguesa, mas podia adaptar-se aos movimentos tais quais surgiam, uma vez que as condições da época os tornavam “objetivamente socialistas”, apesar de suas direções burguesas. Vimos a catástrofe dessa estratégia do PSTU no Oriente Médio em geral, e no Egito em particular, defendendo durante a Primavera Árabe a repressão do Exército sobre a Irmandade Muçulmana; na Ucrânia em 2014, apoiando os “rebeldes” neonazistas em nome da luta contra o governo de turno; e na Venezuela, onde, para se delimitar do autoritarismo de Maduro, o PSTU apoiou a direita pró-imperialista, agora encabeçada por Guaidó. Ao que tudo indica, o motim das bandas policiais, muitas das quais são base política de Bolsonaro, seria agora o exemplo mais recente de um movimento “objetivamente socialista” no Brasil, como foram para o PSTU os manifestantes na FIESP e os procuradores da Lava Jato.

É um salto na qualidade direitista da política do PSTU a solidariedade prestada a esses elementos fascistizantes do Estado. Não à toa, o PSTU vem sendo repudiado nas redes sociais. A falta de qualquer balanço sério de sua política desde o início do processo do golpe institucional vai cobrando um alto preço a essa organização, que aprofunda seu papel de baluarte da esquerda golpista. Nós viemos chamando o PSTU a fazer este balanço e romper com essa concepção, ao não fazer isso, o PSTU vai aprofundando sua ligação à fenômenos de direita.




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