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PSTU: ‘Fora todos’ de mentirinha, sua política é comemorar os feitos golpistas de Temer, Cunha e Bolsonaro

Um marxismo sem pé nem cabeça, que defende uma “tática” igual a de Paulinho da Força Sindical e de Bolsonaro no que tange à derrubada imediata de Dilma. Pouco importando como, quem, sob o argumento fantasioso de que tudo sempre ruma à esquerda.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 27 de abril de 2016| Edição do dia

Depois de muita manobra verbal em assembleias e panfletos onde afirmavam que não eram favoráveis ao impeachment, que queriam mais que ele, um imaginário “fora todos” que se daria depois da fantástica greve geral para “eleições gerais” que ocorreria mesmo quando são incapazes de parar fábricas que dirigem contra as demissões, o PSTU mostrou sua verdadeira política. Dilma saia já. Não lhes importa se será com as mãos de Temer, Bolsonaro, Cunha.

A este suposto marxismo, sem pé nem cabeça, nem senso de vergonha de defender o mesmo que os mais reacionários porta-vozes do país, tudo sempre vai à esquerda. Uma pena que o mundo não seja assim, nem precisaríamos de partidos e do esforço consciente e abnegado de milhões antes de nós, no automatismo não importando os sujeitos, programas, tudo seria tranquilo e favorável. O pior não é só que o mundo, infelizmente, não é como querem em seu comitê central, o pior é que ainda existam trabalhadores e jovens que dão ouvidos a quem brada revolução, veste-se de vermelho, mas, silenciosa e envergonhadamente comemora os feitos da direita opositora.

Polemizamos repetidas vezes neste Esquerda Diário em como sua política era quinta-roda da FIESP e da direita, como era falsa a defesa do Fora Todos, pois só haveria um “fora todos” no país, um que fosse conduzido por Moro ou classes médias abastadas que aplaudissem o juiz ou Bolsonaro. Afirmávamos que sua política resumia-se e confluía no “fora Dilma” junto com a direita, pode-se ler estas polêmicas aqui, aqui e aqui, no dia seguinte a reacionária e golpista votação na câmara eis que em vídeo seu eterno presidente e candidato Zé Maria afirma o contrário.

Afirma no vídeo o que sempre dissemos que defendiam, impeachment já. O resto é resto, penduricalhos verbais para enganar, parecer de esquerda uma política de direita, que aplaude o golpe. Com esta política confluem com o mais de direita no país, que evidentemente, tem alguma ressonância em setores de trabalhadores e da juventude, se não fosse assim seria necessário não um golpe institucional mas um golpe militar, mas além de ter alguma ressonância em setores de massa tem em primeiro lugar na elite.

O Globo mostrou um bate-papo entre Cyro Garcia, outro eterno candidato, e uma socialite (!), e ela falava como concordava novamente com ele, que já tinha concordado em 1992, mostrando um certa estabilidade na política sem corte de classe, fosse ela em meio a um questionamento progressista em 1992 desviado pelo mecanismo bonapartista do impeachment ou agora no reacionarismo da Câmara brasileira de 2016.

No vídeo de Zé Maria que nos referimos, além de afirmar que Dilma deveria cair imediatamente (ver a partir de 01:10), criticam o PSOL por ter votado “pelo fica Dilma” (01:46). Como se tanto fizesse aos marxistas, ou simplesmente a democratas, republicanos consequentes, como alguns parlamentares do PSOL se reivindicam. A posição dos supostos marxistas do PSTU é indefensável. Trata-se na prática, sem tergiversar, de “saia Dilma, comemorarei mesmo se for pelas mãos de Bolsonaro” este primeiro passo do “fora todos”.

Para o leitor ressabiado que não se conforma que um grupo conhecido por uma longa oposição de esquerda ao PT esteja defendendo a mesma posição que Bolsonaro no que tange à Dilma segue o link.

É possível ser de esquerda, marxista, revolucionário, e não se posicionar sobre um golpe, mesmo que não seja conduzido com as baionetas à frente? Tanto faz aos trabalhadores que seja sequestrado o sufrágio e colocado nas mãos de deputados corruptos e reacionários a decisão de quem governa o país? É possível assistir impávido que a mídia, os tucanos, o PMDB e os reacionários de toda sorte derrubem um governo para instituir um governo que ajuste mais que o PT já ajustava ou conseguiria ajustar, que este futuro governo se apoie em medidas autoritárias que já existem a torto e direito nas favelas, mas que se naturalizadas aumentarão, como prisão sem condenação, condução coercitiva, etc?

Pior, é possível reivindicar-se de esquerda e após este show de horrores da forma concreta com que está sendo derrubado o governo Dilma, criticado até pelo imperialismo (!!!), exigir sua queda imediata que só poderá se dar por estas mãos. Ou alguém neste planeta Terra achará que os números tradicionalmente hiper-inflados de sua manifestação do primeiro de maio, que alcançarem os pré-declarados 20 mil, teriam influído no processo, e que os vencedores seriam a classe trabalhadora e a juventude e não Temer, Cunha, Bolsonaro, a FIESP, a Globo? Claro que não. Não se trata disso. Trata-se de uma vitória para o PSTU mesmo assim.

Ainda não encontraram coragem de dizer isso em nossa terra. Mas para eles trata-se de um passo para o Fora Todos. Não importa com as mãos de quem. E no seu mundo de faz de conta, tanto faz as mãos de quem, isto não alteraria o resultado, tudo sempre rumaria à esquerda. É leitor, é isso mesmo. Retomaremos um parênteses teórico e distante geograficamente antes de retornar ao Brasil para ilustrar o faz de conta.

O PSTU direitiza a teoria da revolução democrática de Nahuel Moreno, o falecido dirigente político que anima a corrente histórica que fazem parte junto do MES, CST e outros grupos menores em nosso país. Ao tornar aquela teoria que embelezava revoluções quaisquer com sujeitos qualquer, uma prática política de apoiar qualquer derrubada de governo, (e não uma revolução) se tornam porta bandeira de esquerda do golpismo internacionalmente (Egito, Líbia, Ucrânia e agora Brasil).

Para ficar em um só exemplo, no Egito, reivindicaram a derrubada da Irmandade Muçulmana e instalação de uma ditadura militar como uma vitória revolucionária (!!!), para rigor, com as fontes dos estudiosos dos absurdos ditos em nome pretensamente de esquerda citamos a passagem e linkamos ao site deles: “Por isso, se o governo Morsi-IM era um governo a mais do mesmo regime militar, a queda de Morsi como produto de uma imensa mobilização popular, apesar da enorme contradição que significou o golpe militar, não foi uma “derrota” (como afirma a maioria da esquerda), mas sim uma imensa vitória democrática das massas, que abriu um novo capítulo na revolução egípcia.”

Falta-lhes coragem de dizer o mesmo. Primeiro o descalabro que o governo de Mursi era o mesmo que a ditadura e aí a ditadura que derruba seu irmão gêmeo é uma imensa vitória. Se tomarem coragem dirão: "a votação da Câmara foi uma imensa vitória Rumo ao Fora Todos mesmo com a contradição de ser pelas mãos de Cunha, Temer e Bolsonaro, mas uma “imensa vitória democrática das massas”". Com uma esquerda assim não há socialite que se assuste. Não há Bolsonaro que tema.

O marxismo tem posições de princípio, sabe medir as coisas para erguer uma estratégia de independência de classe. Um governo burguês de Dilma não é a mesma coisa que um governo burguês que rasgue as regras do jogo para derrubá-la. Não será o mesmo para os trabalhadores. Como não foi no Egito. A luta intransigente contra um governo e um petismo que sempre conteve a luta dos trabalhadores e da juventude não pode significar dar as mãos à direita, é preciso tirar das mãos do petismo a condução dos principais sindicatos do país. Mas isto não pode ser tomando as mesmas posições de Paulinho da Força, pois senão quem se fortalecerá será ele.

O MRT, junto à FT internacionalmente, repudiamos na ação este golpe sem defender um milímetro das bandeiras petistas, e levantaremos neste dia Internacional dos Trabalhadores na Argentina o eixo contra o golpe no Brasil, os atos mais fortes da esquerda internacional contra o avanço da direita na América Latina, porque lutar contra um golpe é uma posição de princípio. Princípio este que o mesmo PSTU defendeu no Paraguai quando houve também um golpe institucional. Mas o mundo dá voltas. E agora, no afã de sair da marginalidade eleitoral dos últimos anos, caçam popularidade na elite e em quem se iludir com as posições da mesma. A socialite aplaude. Mas quando for votar votará em Bolsonaro e a farsa da política do PSTU mostrará sua tragédia, inclusive eleitoral.




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