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PRÉ-LANÇAMENTO: Edições ISKRA lançam “A precarização tem rosto de mulher”, uma arma para as nossas lutas

Paula Almeida

PRÉ-LANÇAMENTO: Edições ISKRA lançam “A precarização tem rosto de mulher”, uma arma para as nossas lutas

Paula Almeida

Já se encontra em pré-venda A precarização tem rosto de mulher: a luta das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da USP. Organizado por Diana Assunção, a terceira edição revisada e ampliada traz novidades que ligam as lutas na Universidade de São Paulo (USP) às lutas da categoria internacionalmente.

A primeira edição de A precarização tem rosto de mulher saiu há nove anos, em março de 2011. Naquele momento, a situação do país e do mundo era outra: a apenas três anos da crise econômica mundial iniciada em 2008, o Brasil ainda não tinha vivido o golpe institucional, não se suspeitava do ascenso da extrema-direita em nível mundial – menção desonrosa no Brasil à eleição de Jair Bolsonaro –, a classe trabalhadora era matéria quase esquecida e este novo florescer do feminismo em nível internacional estava ainda em sua aurora.

Hoje, vivemos em um mundo em convulsão. Crises políticas e emigratórias, catástrofes econômicas e climáticas pululam como pontos de incêndio que, ao redor do globo, ameaçam se alastrar; como faíscas, revoltas e rebeliões perpassam os diferentes continentes, trazendo, na França, um novo elemento, com a classe trabalhadora de volta à arena mundial, enquanto o movimento de mulheres internacional vem ganhando novos contornos, com as demandas por direitos democráticos e pela liberdade sexual e de comportamento, muitas vezes, aparecendo acompanhadas da consciência de seu indelével laço com a opressão capitalista.

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Capas das três edições de A precarização tem rosto de mulher, Edições Iskra, 2011; 2013; 2020.

As histórias das lutas relatadas em suas páginas, podemos dizer, representam uma antecipação de parte disso, especialmente no que se refere à questão da mulher, já que o rosto que nelas se imprime é o de pele negra, ou seja, daquelas mulheres que na cruel cadeia capitalista são as mais exploradas.

Mas não é só isso; é, antes e além disso, algo mais: A precarização tem rosto de mulher é um manual de combate, das mulheres trabalhadoras para toda sua classe. Das narrativas recolhidas e relatadas por Diana Assunção e suas colaboradoras e colaboradores, levanta-se uma classe e tira-se uma lição: os trabalhadores organizados lutando de modo aguerrido, com a necessária união entre terceirizados e efetivos e o apoio imprescindível da juventude, confiantes em seus métodos e em sua força, mostram o caminho.

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Detalhe de fotos do caderno de imagens de A precarização tem rosto de mulher, Edições Iskra, 2020.

Do coro de vozes que compõe a história construída a partir de entrevistas com trabalhadores efetivos da USP, dirigentes sindicais, estudantes e militantes do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), além, é claro, com as próprias protagonistas, emerge a voz de Silvana Ramos, trabalhadora terceirizada do setor de limpeza da universidade, que esteve na linha de frente dessa importante luta e no depoimento da qual se baseia o corpus principal do volume.

São três as lutas de que trata: contra a Dima, em 2005, contra a União, em 2011, e contra a Higilimp, em 2013: todas são empresas terceirizadas prestando serviço à maior universidade da América Latina, tantas vezes referida como de ponta; todas estas são protagonizadas por mulheres, trabalhadoras, mães de família, esposas; todas elas inconformadas com a inaceitável situação de trabalho a que o setor terceirizado, como regra, e não apenas no Brasil, é sempre bom frisar, de mãos dadas com o neoliberalismo, impinge aos que, para sobreviver, estão obrigados a vender sua força de trabalho.

Estampa-se o significado de “precarização” no rosto daquelas que dão a cara à luta, como enumera Diana: “Silvana, Glória, Conceição, Ana, Tatiana, Nice, tantas mulheres que estiveram na linha de frente” – para depois prever: “Serão muitas mais”, assertiva à qual, gostaríamos de acrescentar um ponto de exclamação.

E isto não é desejo, vem da convicção nos frutos do esforço para não precisar, toda vez, começar do “marco zero da estratégia” [1]. Acúmulo, como nos mostra o livro, já temos.

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Detalhe de fotos do caderno de imagens de A precarização tem rosto de mulher, Edições Iskra, 2020.

A classe trabalhadora é internacional. A luta de uma classe é a luta de todas as classes, pois, em essência, a classe é uma só. É essa visada que oferece ao leitor o “Dossiê Luta de Classes”, complementado pelos “Anexos”, os quais, extrapolando o exemplo do microcosmo uspiano, foram incluídos na nova edição e mostram que é preciso sempre extrapolar os muros do campus e, por extensão, de qualquer lugar de trabalho, não importa onde esteja.

No “Dossiê”: “A greve das trabalhadoras terceirizadas da limpeza ferroviária em Paris”, escrito por Daniela Cobet, do Révolution Permanente, traz a luta das trabalhadoras terceirizadas da empresa francesa Onet, atuante no setor de limpeza do transporte ferroviário de Paris; “A luta contra a terceirização no Chile como parte do combate à herança da ditadura de Pinochet” é uma entrevista exclusiva com Zikuta, trabalhadora terceirizada chilena, que conta sua experiência numa universidade daquele país; finalizado pelo artigo de Juan Chingo” que leva o título autoexplicativo “O extraordinário movimento estudantil sul-africano e a defesa dos trabalhadores terceirizados”.

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Detalhe de fotos do caderno de imagens de A precarização tem rosto de mulher, Edições Iskra, 2020.

Nos “Anexos”, além do caderno de imagens, um capítulo à parte, cuja pequena amostra fornecemos nas fotos acima, e da sensível crônica da organizadora do livro, há também um conjunto de textos que colocam as experiências narradas na necessária perspectiva do tempo presente: “O rosto jovem da precarização é feminino e negro”, de Bianca Rozalia Junius e Vitória Camargo; “Raça, classe e gênero: sobre a luta das mulheres negras por um feminismo socialista”; de Flavia Telles e Letícia Parks; e “A classe operária feminina no Brasil hoje”, de Diana Assunção.

Diz Leon Trótski em uma carta de 1923 à assembleia das operárias de Moscou – da qual a organizadora empresta uma frase para uma de suas epígrafes (destacada na citação a seguir):

A rotina cega do costume tem, infelizmente, uma força grandiosa. Em nenhum lugar, o costume é tão cego e surdo quanto na restrita e obscura vida cotidiana familiar. E quem seria chamada a estar na linha de frente da luta contra o modo de vida bárbaro da família senão a mulher revolucionária? Com isso não quero dizer, de modo algum, que os operários conscientes não devem se ocupar da obrigação de trabalhar pela reconstrução das formas econômicas da vida familiar e, acima de tudo, da alimentação, da edução e da formação das crianças. Mas, com mais energia e mais persistência, lutam pelo novo aqueles que com o velho estão sofrendo. E na atual vida cotidiana familiar, a parte que mais sofre é a da mulher – esposa e mãe.

É por isso que a proletária comunista e, depois dela, toda mulher consciente, deve, em uma proporção muito maior, voltar sua atenção e suas forças à causa da reconstrução da vida cotidiana. Se, por um lado, nosso atraso econômico e cultural cria muitas dificuldades e permite apenas um movimento lento nesse caminho, por outro, é preciso que tudo o que pode ser feito com nossas forças e com nossos meios seja feito pela pressão da opinião pública das mulheres trabalhadoras. [2]

Por fim, falta dizer que se engana quem, por ventura, julgue que este é um livro de interesse apenas para lutadoras/es e trabalhadoras/es – evidentemente que o é, devemos nos unir, afinal, e temos aqui uma arma. Mas já que estamos falando do espaço onde as lutas do livro ocorreram, é preciso dizer que a intelectualidade uspiana, e a marxista, em especial, deve olhar para o que está debaixo de seu nariz (e não torcê-lo quando o lixo é espalhado). As três lutas do setor terceirizado na USP que se conta no livro são uma aula, em que a teoria orientada para a prática revigora-se na luta.

Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário, já disse Vladímir Lênin, em 1901-1902, em seu livro que traz a cabal pergunta: O que fazer?, à qual, entre outras coisas, procura responder A precarização tem rosto de mulher: a luta das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da USP, assim como A revolução e o negro e Brasil: ponto de mutação, últimos lançamentos de autores nacionais das Edições ISKRA, uma editora militante feita por e para trabalhadores, a fim de pensar e transformar o nosso tempo.

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Serviço

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A precarização tem rosto de mulher,
Diana Assunção (org.)
Edições Iskra, 2019.

Mais informações: facebook.com/EdicoesIskra

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FOOTNOTES

[1Diana Assunção, “A greve da Higilimp de 2013”, em A precarização tem rosto de mulher, Edições Iskra, 2020, p. 121

[2O velho revolucionário não pôde comparecer à Assembleia em virtude uma gripe; enivou, em seu lugar esta carta, cujo trecho aqui citado foi traduzido do original em russo constante de Leon Trótski, “Письмо торжественному собранию московских работниц” (“Carta à Assembleia Solene das Trabalhadoras Comunistas”), em Проблемы культуры. Культура переходного периода (Problemas da cultura. A cultura no período de transição) (Leon Trótski, Сочинения (Obras), v. 21, Moscou-Leningrado, 1927; fac-símile)

Paula Almeida

tradutora; doutora em Literatura e Cultura Russas pela Universidade de São Paulo (USP) e editora nas Edições Iskra.
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