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Oswaldo Guayasamín: pintura para ferir, arranhar e golpear o coração

Suas pinceladas destilam memória; não esquece um centímetro da história da humanidade: nos pintou amando, chorando, implorando, roubando, nus, rezando, mutilados, sendo mortos, lutando, esperançosos.

quinta-feira 22 de abril| Edição do dia

“La protesta”. Serie: La Edad de la Ira

Em 6 de julho de 1919 nascia Guayasmin, excepcional pintor equatoriano. Suas obras pincelaram a história.
Suas pinceladas destilam memória; não esquece um centímetro da história da humanidade: nos pintou amando, chorando, implorando, roubando, nus, rezando, mutilados, sendo mortos, lutando, esperançosos.

Talvez, seu desejo de mostrar a humanidade em todas as suas dimensões, tenha se sintetizado em sua maior obra de arte: a Capela do Homem. Um museu de arte, construído em sua cidade natal, em homenagem ao ser humano, aos homens e mulheres da América Latina. Havia capelas para deuses de todas as cores, mas nenhum templo para o ser humano: “Pelas crianças que morreram brincando, pelos homens que desmaiaram trabalhando, pelos pobres que não amaram, pintarei com os estilhaços do fuzil, com o poder do relâmpago e com a fúria da batalha”. No museu, centenas e centenas de pinturas e retratos de Oswaldo refletem a história de homens e mulheres, principalmente latino-americanos”.

Através da pintura, escultura, muralismo, desenho e graffiti, ele deixou sua alma encarnada em centenas de superfícies. Se identificava, a cada pincelada, com protesto e denúncia social, para se retratar com raiva; para chamar, desde seus traços, a uma sociedade mais justa e a uma vida melhor para os despossuídos:

“Esta sociedade é sombria, os ricos estão ficando mais ricos e os pobres estão cada vez mais tremendamente pobres. Cidades e países inteiros são transformados em prisões onde os muros da morte e do medo impõem o silêncio. Seria infantil pensar que se trata de casos patológicos isolados, patológico é o sistema que estabelece a violência como forma de governo”.

Oswaldo Guayasamín, usou o realismo social como figura pictórica, o que o colocaria como uma referência da pintura equatoriana e também uma grande referência internacional: “Quando pinto uma mão, uma boca, dentes ou olhos, eles não são apenas uma forma plástica. Quero expressar nisso mais do que a próprio plástica. Quero expressar esse olho que chora, esses dentes que mordem ou essas mãos angustiadas, tremendo”.

Ele nasceu em 1919 na cidade de Quito, filho de José Miguel Guayasamín, indígena de ascendência guarani, que trabalhava como carpinteiro, taxista e caminhoneiro. Ele se opôs à sua carreira de artista, enquanto sua mãe, Dolores Calero, de origem mestiça e dona de casa, sempre o apoiou. No final de sua obra, Guayasamín lhe dedica sua terceira grande série, intitulada La ternura.
Na época da “guerra dos quatro dias”, e em meio a um levante cívico-militar, conseguiu custear os estudos na Escola de Belas Artes de Quito, na qual se formou com honrarias. Se tratava de um confronto entre Neptalí Bonifaz, uma figura política a quem foi negada a presidência por sua nacionalidade peruana, e as tropas leais ao governo.

“El mestizaje”. Serie: El Camino del Llanto

Guayasamin combinou a força dos temas indígenas com as conquistas das vanguardas do início do século, especialmente o cubismo e o expressionismo. Em 1957 recebeu o Prêmio de Melhor Pintor Sul-Americano, concedido pela Bienal de São Paulo, Brasil.

Em 1968 apresentou a sua segunda série de envergadura, intitulada La edad de la ira, composta por 260 obras agrupadas por séries, Mãos, Cabeças, Rosto de homem, Campos de concentração, Mulheres chorando, nas quais o pintor recolhe vários elementos da sua experiência de vida, para captar numa sucessão deslumbrante de telas, o drama e a tragédia do homem do nosso tempo: “O pesadelo do homem que se espalha, o medo de uma guerra atómica, o terror e a morte que semeiam ditaduras militares, a injustiça social que abre uma ferida cada vez mais profunda, a discriminação racial que destrói e mata; estão devorando lenta e duramente o espírito dos homens na terra”. “Enquanto houver gente que aprenda a matar, haverá vítimas. Na História dos tempos, tem de alvorecer o dia em que o soldado não tenha mais razão de ser”.

Serie Los culpables El cura, El presidente, El militar El dictador

Em suas obras, vivifica sua postura em relação aos humanos e à sociedade, os quais estão atormentados por injustiças, desigualdades, humilhações, pobreza e esquecimento pelo respeito às raízes indígenas, distanciamento do passado ancestral do qual o mestiço equatoriano se alienou. Da mesma forma, mostra o sofrimento e as contradições humanas, bem como a vontade de buscar a luz, a saída, a libertação: “Se não tivermos força para apertar as mãos de todos, se não tivermos a ternura de acolher em nossos braços os filhos do mundo, se não tivermos a vontade de limpar a terra de todos os exércitos; este pequeno planeta será um corpo escuro e seco no espaço escuro.”

Ele faleceu em 10 de março de 1999 em Baltimore.

Sua arte nos convida a nos repensar, a nos perguntar para onde vamos, quais são as nossas raízes, de que somos feitos. Sua arte é história, é política, condensa as paixões humanas: ódio, guerra, amor, resistência, desejo de libertação. E talvez, por que não, suas três séries principais sejam análogas ao que passamos como homens e mulheres, na longa estrada da vida: o choro, a raiva e a ternura.

Mais obras:


Los niños muertos


Ternura


Tears of Blood


Reunión en el Pentágono


The Accident




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