Política

Os sintomas da crise sobre a popularidade de Bolsonaro e sua política negacionista

Os dados recentes que apontam que 52% da população desaprova o governo Bolsonaro evidenciam os aspectos assassinos de sua política negacionista e o aprofundamento da desigualdade pelas reformas que aproximam o país do mais de 290 mil mortos. Ao mesmo tempo, outros fatores também no jogo político também interferem na popularidade do governo, como a reabilitação de Lula.

Clara Gomez

Diretora do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire

sexta-feira 19 de março| Edição do dia

Imagem: via reprodução

Como efeito inevitável do negacionismo bolsonarista e da desigualdade na qual se estrutura a sociedade brasileira, em que a população mais pobre carece do acesso a elementos essenciais para a vida, como água e alimentação, o Brasil de Bolsonaro se aproxima dos 290 mil de mortos pela pandemia. Esses efeitos catastróficos, que se materializam em 3 mil mortes diárias pela pandemia, claramente, afetam a popularidade de Bolsonaro que, conforme as pesquisas conduzidas pelo PoderData e o DataFolha. Essas pesquisas mostram, respectivamente, que 52% da população desaprova seu trabalho - aumento de 5% frente a quinzena anterior, que registrava 47% - , enquanto 79% acredita que a pandemia está fora de controle.

Segundo a agência de pesquisa, a aprovação do governo caiu, em 15 dias, de 40% para 32%, e sua desaprovação subiu de 51% para 54%. Entre os que mais desaprovam o governo, estão: os adultos de 25 a 44 anos (54%); os moradores da região Nordeste (58%); os que cursaram até o ensino superior (61%). A aprovação do governo Bolsonaro entre aqueles que receberam o auxílio emergencial em 2020 também caiu: em 15 dias, baixou de 38% para 30%. Com atraso monumental, Bolsonaro assinou a medida provisória que libera a nova rodada do benefício. O pagamento seria de 4 parcelas de R$ 150 a R$ 375 a 45,6 milhões de pessoas, um valor bastante insuficiente a um número menor de pessoas do que em 2020.

Nesse período, o país bateu sucessivos recordes de mortos diárias pela COVID-19, chegando a uma das situações mais críticas em todo o mundo, à beira da falta de anestésicos e de neurobloqueadores para intubar pacientes. Politicamente, deu-se a decisão liminar do ministro Edson Fachin (STF) que anula todas as condenações dos processos de Lula pela Lava Jato; com isso, Lula recuperou seus direitos políticos e voltou a ser elegível.

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A razão da queda de aprovação do governo precisa ser vista através desses fatos. Há uma conjunção entre os recordes da pandemia, os 14 milhões de desempregados, o aumento do preço dos alimentos e da taxa de juros, todos sinais de que a economia brasileira segue devastada pelo caos sanitário organizado pelas privatizações capitalistas e o sucateamento da saúde pública.

O “fator Lula” tem um aspecto específico nessa equação: no pronunciamento nacional do dia 10 de março, o primeiro depois de recuperar seus direitos políticos, Lula dirigiu inúmeras acusações a Bolsonaro, centrando na figura do presidente a responsabilidade máxima pelos efeitos dramáticos da pandemia (preservando, ao mesmo tempo, todas as demais instituições golpistas da responsabilidade que possuem, como o STF, os militares, os governadores e os parlamentares).
Com isso, Lula, cujo peso nacional faz frente a Bolsonaro, conseguiu concentrar a atenção das pessoas na ligação entre o Palácio do Planalto e o terrível número de mortes. 54% dos brasileiros veem sua atuação como ruim ou péssima, e o índice daqueles que acham sua gestão da crise ótima ou boa passou de 26% para 22%.

Contudo, ao passo que os fatores elencados afetam a popularidade, eles também exigem de Bolsonaro movimentações diferentes das quais ele fez, tendo como perspectiva a manutenção do seu governo. Processo esse que pode ser observado a partir de elementos mínimos, como o uso de máscaras e o uso de um globo em suas lives, - em contraposição a parte do campo ideológico bolsonarista que crê no terraplanismo -, mas também, em certa medida, na forma como conduz a gestão da pandemia, como se observa a partir das mudanças no ministério da saúde; pelo giro em defesa da vacinação e pela reunião prevista para quarta-feira (24), por meio da qual Bolsonaro tentará se articular com os principais atores que compõem o regime brasileiro.

A operação é difícil para o governo, que oscila permanentemente entre a obrigação de aparar suas arestas mais negacionistas, de um lado, e atender sua base social, de outro. Trata-se do pior momento para o governo Bolsonaro, mas é fato que possui uma base mais sólida no Norte e no Centro-Oeste (em que a vida cotidiana é mais influenciada pelo agronegócio, setor patronal que é férreo defensor de Bolsonaro), e mesmo sua aprovação entre os que ganharam o auxílio emergencial (30%) não é pequena.

É preciso escolher entre a saída de Bolsonaro ou dos governadores para crise atual?

Os dados na pandemia nos estados e nos municípios, como a superlotação dos leitos nos hospitais, evidenciam que conjuntamente ao negacionismo bolsonarista, a política dos governadores é incapaz de responder à pandemia no país. Limitando-se em saídas repressivas que afetam principalmente os trabalhadores e a juventude, como o lockdown e os toques de recolher, os governadores brasileiros também priorizaram os interesses dos empresários em detrimento da saúde da população, impulsionando reaberturas irracionais da economia e chegando a absurda imposição do retorno inseguros às aulas que custou a vida de professores e alunos. Tudo isso se deu com aval do STF e de outros atores, como o Congresso, que não hesitam em dirigir ataques aos trabalhadores por conta da crise, como ficou evidente com a aprovação da PEC emergencial que adianta aspectos da reforma administrativa para degradar os setores de base do funcionalismo.

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A grande ironia é que os próprios governadores do PT no Nordeste não se diferenciam dos governadores da direita na gestão da pandemia, apesar do que diz Lula. Na Bahia, no Piauí, no Ceará e no Rio Grande do Norte, esses governadores petistas preferem salvar os lucros dos empresários diante das vidas humanas. A cidade de João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte teve falta de bobinas de oxigênio, e em Natal a fila nos hospitais já é maior do que no auge da pandemia. Na Bahia chegamos ao ponto dramático de nos hospitais de Salvador as pessoas correrem o risco de morrerem na fila de espera, ou mesmo serem internadas já com a doença muito avançada e não resistirem, segundo o próprio prefeito Bruno Reis (DEM). É o que ocorre com os Estados de governadores tucanos, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Eis a demagogia de Lula, que mesmo assim não deixou de golpear a popularidade de Bolsonaro. É nítido que para Lula é mais crucial a reconstituição de laços com setores reacionários do governo, do que fazer a CUT, central sindical dirigida pelo PT, organizar os trabalhadores contra a crise em curso no país, mesmo que em seu discurso tenha atacado Bolsonaro e o colocado como principal culpado pela crise, o que também pesa sobre a popularidade do presidente.

A crise em curso e seus efeitos são culpa de todos esses atores que atuam na perspectiva de manter as conquistas obtidas para os capitalistas a partir do golpe institucional que abriu caminho para reformas que relegam a população à miséria.

Nesse sentido, o regime golpista não consegue oferecer qualquer saída. São responsáveis pela catástrofe porque querem proteger a propriedade capitalista, e isso é comum entre Bolsonaro e governadores, entre o STF e os parlamentares. É necessário batalhar por uma alternativa construída pelos trabalhadores que pela luta imponha uma constituinte livre e soberana para revogação de todas as reformas e pela implementação de um programa de combate à pandemia.

Programa esse que esteja alinhado aos interesses do trabalhadores e os tenha como principais sujeitos, que imponha um testagem massiva; um plano universal de vacinação pela quebra de patentes das vacinas; a estatização e criação de mais leitos sob controle dos trabalhadores, junto a contratação de mais trabalhadores da área da saúde; a reconversão das indústria para produção de equipamentos e insumos médicos, estando tudo isso articulado com a batalha por um isolamento racional e remunerado para população, a partir de um auxílio que seja no mínimo de uma salário mínimo e também pela expropriação de hotéis e resorts para a população mais pobre e o tratamento de doentes.

Toda essa batalha não pode se dar por fora da luta pela revogação das reformas que precarizam e deterioram a vida da classe trabalhadora, o que só é possível por meio de uma saída independente dos golpistas. Justamente por isso, nós do MRT, defendemos uma Assembleia Constituinte que seja imposta pela luta dos trabalhadores e que permita o povo decidir sobre os rumos do país.

Confira a declaração do MRT: Entre recordes de mortes por Covid, de desemprego e de ataques: só nossa classe pode impor uma saída de emergência




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