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Afinidades eletivas | Os horrores do Talibã tem um novo apoio: a burocracia do Partido Comunista Chinês

A burocracia do PCCh não tem nenhum interesse na "paz" ou nas condições de vida da população afegã. Quer fazer negócios e preservar as condições de sua expansão política na Ásia, não importa se mediante a aliança com os fundamentalistas burgueses islâmicos.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 16 de agosto | Edição do dia

O catástrófico desenlace da invasão imperialista em 2001, no Afeganistão, confere sua mais recente marca com o reingresso triunfal do Talibã na capital Cabul, depois de reconquistar praticamente todas as capitais do país. Os reacionários fundamentalistas burgueses do Talibã, que abrigavam no início do século organizações tais como a Al-Qaeda de Osama Bin Laden, agora buscam novos aliados regionais para manter-se no poder, e não está descartado que Biden e os Estados Unidos tratem de “normalizar” suas relações com o novo governo afegão.

Mas não é só de Washington que o Talibã poderá receber o beneplácito real para a administração dos assuntos da burguesia muçulmana e internacional no Afeganistão. O Partido Comunista Chinês, chefiado por Xi Jinping, está em conversas avançadas para uma aliança com os representantes rígidos da sharia que fazem milhares de pessoas fugirem do país.

O governo da China disse que respeitará as "escolhas" do povo afegão, no primeiro sinal de que Pequim estava pronta para dar seu apoio cauteloso a um governo liderado pelo Talibã em Cabul.

“A situação no Afeganistão já passou por uma grande transformação e nós respeitamos os desejos e escolhas do povo afegão”, disse Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, nos primeiros comentários oficiais de Pequim desde que o Talibã varreu o governo de Ashraf Ghani em Cabul.

Que grande hipocrisia da China, já que o povo afegão está fugindo do país contra as atrocidades do Talibã! Os talibãs foram formados em 1994, após a retirada soviética do Afeganistão em 1989, e a expulsão do que restava do governo secular em 1992. Eles eram uma facção ultra-ortodoxa dos mujahideen liderada pelo clérigo Mullah Omar. A eles se juntaram os jovens das tribos Pashtun que estudaram em madraças (“escolas religiosas”) paquistanesas, ou seminários financiados principalmente pela Arábia Saudita. Os pashtuns constituem a maioria no Afeganistão e são o grupo étnico predominante em grande parte do sul e leste do país. Os mujahideen foram treinados e armados pelo imperialismo norte-americano e a burocracia de Deng Xiaoping na década de 1980, como tropas de assalto contra a invasão da União Soviética em 1979. Quando estiveram no poder, entre 1996 e 2001, os talibãs precarizaram os serviços sociais de acordo com as instruções da burguesia local, e impuseram restrições ultraconservadoras aos direitos das mulheres, ao impor que estas não poderiam estudar ou sair de casa sem acompanhamento de um homem, além de serem obrigadas a usar burqas de cabeça aos pés. Muitas mulheres foram assassinadas por apedrejamento, sob acusação de adultério. Música e televisão eram proibidas, e qualquer homem cuja barba fosse considerada muito curta seria preso.

Os comentários oficiais de Hua Chunying se seguiram a um editorial publicado pelo Global Times, um tablóide nacionalista chinês apoiado pelo Estado, que criticava os resultados da invasão imperialista dos EUA, supostamente para reformar o Afeganistão, como um “fracasso completo”, concluindo que o retorno do Talibã ao poder foi um “duro golpe” para a credibilidade de Washington. Uma apreciação da situação que vai se tornando comum entre os próprios analistas ocidentais, que creditam o fracasso a Joe Biden, como refere Gideon Rachman do Financial Times.

“O desesperado plano de retirada dos EUA mostra a falta de confiabilidade dos compromissos dos EUA com seus aliados: quando seus interesses exigem o abandono de seus aliados, Washington não hesitará em encontrar todas as desculpas para fazê-lo”, disse o editorial chinês. Analistas esperam que a China expanda sua influência e seus interesses estratégicos no Afeganistão, após o retorno do Talibã ao poder, desde que suas próprias preocupações de segurança sejam atendidas.

O rápido avanço militar dos talibãs seria incompreensível sem o auxílio, por trás dos bastidores, da diplomacia chinesa e do Exército de Libertação Popular. Quando o Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, se encontrou oficiamente com os portavozes do Talibã, acordos já haviam sido travados para facilitar a conquista da região norte do Afeganistão, bastião anti-Talibã nas décadas anteriores.

Mas qualquer política estaria condicionada à abordagem do Talibã em relação a Xinjiang, região que possui 91km de fronteira com o Afeganistão, onde Pequim encarcera mais de 1 milhão de Uighures e outras minorias muçulmanas em campos de concentração e trabalhos forçados, por exemplo, no ramo algodoeiro. Trata-se de uma região estratégica para a China, por sua importância econômica e militar, tornada parte do território chinês no século XVIII durante a dinastia Qing, e que se vê atravessada por movimentos separatistas da população muçulmana que resiste à opressão racista do PCCh. Em especial, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (East Turkestan Islamic Movement, em inglês) preocupa a burocracia chinesa, operando suas milícias islâmicas em Xinjiang. Os acordos com o Talibã englobariam a necessidade do controle por parte dos fundamentalistas afegãos sobre o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, presente na província fronteiriça de Badakhshan, no nordeste do país.

Claude Rakisits, ex-oficial de segurança australiano e especialista em Afeganistão, disse que o Talibã colocaria seu relacionamento com a China à frente de qualquer ligação com o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental. “Se isso significar muito investimento chinês no Afeganistão, creio que eles o farão, absolutamente. Eles são implacáveis, mas também muito pragmáticos”, disse Rakisits, professor da Australian National University.


Mulá Abdul Ghani Baradar, co-fundador do Talibã, e e Wang Yi, Ministro de Relações Exteriores da China

Os grupos do Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, são uma parte essencial do cálculo de segurança da China na região. Foram estimados pelo Conselho de Segurança da ONU no ano passado em até 3.500 combatentes. Tanto a ONU quanto os EUA designaram esse grupo de fundamentalistas Uighures como terroristas em 2002, mas Washington abandonou sua classificação em 2020. Em uma clara indicação da determinação de Pequim em combater o MITO, Wang Yi exortou contrapartes dos estados da Ásia Central do Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Tajiquistão e Turcomenistão este ano a cooperarem para esmagar o grupo. Os principais líderes talibãs "prometeram" que o Afeganistão não seria usado como base terrorista para atacar chineses em Xinjiang.

A preocupação com distúrbios separatistas não é o único motivo que move a burocracia stalinista de Pequim a acordos políticos com os fundamentalistas misóginos e homofóbicos do Talibã. Assim também, não existe qualquer preocupação chinesa em relação à população oprimida do Afeganistão, ou por "interesses de paz", como dizem stalinistas do quilate de Jones Manoel...

Pesam fatores econômicos, como o projeto da Nova Rota da Seda (o Belt and Road Initiative), que interessam à expansão da influência política de Pequim sobre todo o continente asiático. "Se a China puder estabelecer uma relação de trabalho com um governo liderado pelo Talibã no Afeganistão, isso proporcionaria a Pequim benefícios econômicos - tais como a possibilidade de um corredor de trânsito, através do país, para o porto de Gwadar, no Paquistão, construído pela China", diz Rachman.


Porto de Gwadar, no Paquistão.

A China quer estabilidade no Afeganistão para proteger os projetos da Nova Rota da Seda existentes no Paquistão e nos estados da Ásia Central, enquanto potencialmente abre o Afeganistão para futuros investimentos. A Nova Rota da Seda é o projeto insígnia de Xi Jinping, que busca ligar economicamente três continentes (Ásia, África e Europa) e mais de 64 países, através de obras de infraestrutura para a construção de portos, rodovias e ferrovias, cujo ponto de concentração seria Pequim. Os projetos bilionários patrocinados pelo Banco da China já levaram muitos países a uma “armadilha da dívida”, como ocorreu ao Sri Lanka, que foi obrigado a conceder o porto de Hambantota à China, ao não poder pagar a dívida contraída para sua construção. Essas obras do Belt and Road Initiative são, ademais, pontos de apoio para a crescente expansão militar internacional da China, que possui sua primeira base naval estrangeira em Djibouti, na costa oriental da África, com o objetivo de monitorar o Oceano Índico.

Qian Feng, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Estratégia da Universidade Tsinghua em Pequim, disse que a China e o Afeganistão mostraram uma “forte vontade política” para expandir a cooperação sob o Belt and Road Initiative. Se a estabilidade fosse alcançada no Afeganistão, isso “sem dúvida traria grande conveniência ao fluxo de carga entre a China e a Eurásia”, disse Qian. Mesma opinião de Fan Hongda, professor do Instituto de Estudos do Oriente Médio da Universidade Internacional de Xangai, segundo o qual a China apoiaria mais ativamente os esforços para assegurar a estabilidade política no Afeganistão. “Embora a China tenha sido extremamente cautelosa durante muito tempo no envio de forças militares para o exterior, se for apoiada por uma resolução das Nações Unidas, a China poderia se juntar a uma equipe internacional de manutenção da paz para entrar no Afeganistão”, disse ele.

A “manutenção da paz” é um subterfúgio conhecido por trás do qual as potências capitalistas globais defendem, muitas vezes por meios militares, seus interesses econômicos em distintas porções do mundo. Agora, os stalinistas do PCCh farão parte das hipócritas “missões de paz” da ONU para garantir seus investimentos no Afeganistão, às custas dos desespero da população local. Como não poderia deixar de ser, os grupos stalinistas brasileiros, como o PCB, reconhecem gratamente a aliança buscada por Xi Jinping nos mesmos termos hipócritas utilizados pelas Nações Unidas.

As ambições chinesas podem se desfazer se o Afeganistão voltar a cair em violência generalizada após a retirada das forças dos EUA e da OTAN. Com a chegada do novo governo em Cabul, os chineses tratam de “fazer negócios” e controlar, de alguma maneira, o desenlace político, para que não se dê contra seus interesses econômicos e de soberania interna. A Rússia e o Irã já acompanharam o voto favorável da China para a ascensão da nova era política no Afeganistão.

Ademais, não é de menor importância para a China assistir à retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, um país que faz fronteira com a China. Desde a década de 2000 o governo de Pequim admoestava os Estados Unidos a tomar cuidado com o avanço sobre territórios fronteiriços, algo que era passado por alto pelo Pentágono. O incômodo só aumentou a partir da Primavera Árabe de 2011, e das manobras da OTAN na Ucrânia em 2014, que resultaram numa guerra civil entre forças russas e ocidentais, culminando na expropriação da península da Criméia por Putin. Fatos dessa natureza apenas aguçaram o sentido da burocracia de Pequim acerca das intenções desestabilizadoras do imperialismo norte-americano no Oriente Médio e na Ásia, para o qual mantinham suas tropas em ação.

A retirada realizada por Biden é publicamente criticada pelo governo chinês; em seu foro íntimo, Pequim encontrou uma grande oportunidade para expandir sua influência sobre o Oriente Médio. As questões mais importantes não são apenas se o Talibã pode preencher o vácuo de poder criado pela retirada dos EUA, mas também se a China - apesar de sua política antiga de "não interferência" - pode se tornar a próxima superpotência a tentar escrever um capítulo na história do Afeganistão.

O governo talibã será incapaz de responder aos problemas profundos da população, apesar rejeição popular à intervenção imperialista. Muitas contradições podem advir daí, não apenas ao imperialismo norte-americano, mas também à China. Pequim pode queimar os dedos nessa fogueira. Não é sem razão que o Afeganistão é conhecido como o "cemitério dos impérios": os antigos gregos, os mongóis, os britânicos, a União Soviética e, mais recentemente, os EUA, todos lançaram invasões vãs que viram suas ambições e o sangue de seus soldados escorrer para a areia. Os stalinistas chineses podem não encontrar melhor sorte que a burocracia do Kremlin, na segunda metade do século XX.

É indispensável lutar pela emancipação dos trabalhadores e dos povos oprimidos do Afeganistão e de todo o Oriente Médio, atravessados pelas intervenções imperialistas dos Estados Unidos e dos assassinatos de palestinos pelo Estado terrorista de Israel. Entretanto, a luta contra o imperialismo não passa pelo apoio ao fundamentalismo islâmico, que em toda a região – e não menos no Afeganistão – defende os interesses das burguesias árabes e seus acordos com as mesmas potências imperialistas (o Talibã busca agradar “gregos e troianos”, chineses e norte-americanos). Esses movimentos políticos reacionários se postulam contra os interesses mais sentidos das massas, e não à toa buscam alianças com autocracias e regimes bonapartistas como aqueles que governam a China, a Rússia e o Irã. A luta pela independência de classes e para que os trabalhadores emerjam com um programa hegemônico no Oriente Médio é a única saída contra as devastações imperialistas e os falsos amigos stalinistas.




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