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América Latina | Os exemplos na América Latina mostram que só uma política de independência de classe pode enfrentar a extrema-direita

Com o cenário eleitoral se aproximando no Brasil, em meio às experiências dos Governos de Pedro Castillo no Peru e Gabriel Boric no Chile, cada vez mais se prova a incapacidade dos governos chamados de progressistas que apostaram na conciliação de classes em conter o fortalecimento da extrema-direita, com governos débeis econômica e politicamente que não conseguem sequer apresentar reformas, menos ainda responder ao nível de ataques aplicados nos últimos anos num contexto de crise capitalista internacional, passando a ser correia de transmissão destes ataques. Somente uma política de independência de classes, que se apoie nos trabalhadores e nos setores oprimidos pode conter a extrema-direita e dar uma saída para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.

quinta-feira 19 de maio | Edição do dia

Encontro entre Pedro Castillo e Gabriel Boric

A classe trabalhadora e os setores populares e oprimidos no Brasil vivem um dos piores cenários em sua história: no quarto ano do Governo Bolsonaro, o desemprego só cresce e o peso das reformas aprovadas após o golpe institucional são cada vez mais sentidos, tudo isso em meio ao aumento da fome e da inflação. Com a conjuntura eleitoral se aproximando, alas do regime buscam canalizar o ódio por todos os ataques sofridos nos últimos anos para as eleições, como se todos os problemas fossem se resolver magicamente em 2023. Lula foi muito funcional a diversas alas da burguesia ao se propor a administrar toda a agenda de ataques aplicada desde o golpe institucional, deixando claro que não vai revogar a reforma trabalhista. A expressão máxima da disposição de Lula de administrar o capitalismo em um cenário internacional de crise para a classe trabalhadora é a aliança com Alckmin, o neoliberal golpista que mandou espancar professores e estudantes secundaristas enquanto era Governador de São Paulo.

Algumas greves, ainda que em grande parte econômicas, vêm se expressando cada vez com maior frequência, mostrando o caminho para uma oposição consequente ao Bolsonaro, Mourão e a extrema direita: foi o caso da greve dos garis no Rio de Janeiro, dos profissionais da educação e dos metroviários em Belo Horizonte e dos trabalhadores da CSN em Volta Redonda. Todas estas lutas foram mantidas isoladas pelas grandes centrais sindicais como a CUT, dirigida pelo PT, e a CTB, dirigida pelo PCdoB, que faziam de tudo para conter a mobilização.

A possível eleição de Lula nas eleições de 2022 iria se inserir num novo ciclo de governos progressistas na América Latina, como foi o caso de Alberto Fernández na Argentina em 2019, Boric no Chile e Castillo no Peru, ambos em 2021. Este ciclo por mais que marque um giro à esquerda no continente depois de um ciclo de vitórias da direita e da extrema-direita com Bolsonaro, Piñera e Macri, se dá em um cenário completamente diferente do anterior: se no início do século XXI, em meio ao boom de commodities, havia espaço para pequenas concessões e reformas por parte dos progressimos da América Latina, após a crise de 2008, a margem de manobra para conseguir qualquer concessão é muito menor. Os novos governos não têm bases econômicas e sociais para implementar reformas, em uma posição de maior submissão ao Imperialismo e ao FMI.

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Apesar de cenários prévios bem diferentes, tanto no Chile quanto no Peru, o segundo turno das eleições colocou fenômenos diferentes de progressismos frente à extrema-direita, cenário que se desenha no Brasil na polarização entre Lula e Bolsonaro. O voto útil foi visto como maneira de enfrentar a extrema-direita nos dois países, no entanto, o início dos governos vêm mostrando a incapacidade neste enfrentamento, justamente por não conseguir levar a frente as demandas mais sentidas pela classe trabalhadora. A aposta na conciliação de classes e a desilusão causada nos trabalhadores é justamente o que abre caminho para o maior fortalecimento da extrema-direita.

No entanto, os diferentes cenários devem ser bem marcados: enquanto o Peru veio de um contexto de crise institucional e troca de presidentes em um curto período de tempo, o Chile passou por uma rebelião de massas que contestava o regime mas acabou desviada institucionalmente. Este cenário refletiu em como cada candidato se apresentou: Castillo se apoiou numa retórica nacionalista para dizer que era preciso construir um governo de unidade com a burguesia progressista e com os capitalistas estrangeiros que respeitassem a soberania nacional, deixando claro que qualquer reforma, por mais mínima que fosse, teria que passar pela batuta da burguesia nacional e internacional. Já Boric, enquanto diminuía as aspirações que se expressaram na Rebelião de Outubro de 2019, prometia e jurava compromisso com a austeridade fiscal. Estes governos fazem parte do que viemos chamando de pós-neoliberais, e, diferentemente do primeiro ciclo de governos progressistas que conseguiam apresentar certo nível de concessões e reformas como foi o caso de Evo Moráles na Bolívia e Chávez na Venezuela, sequer conseguem levar a frente reformas em nome da responsabilidade fiscal, apresentando planos que oferecem migalhas que não chegam perto de dar uma resposta à crise profunda que refletiu tão negativamente nas condições de vida dos trabalhadores, mostrando a incapacidade de assegurar uma nova hegemonia que possibilitasse um certo nível de concessões.

Boric e o desgaste relâmpago no Chile

Boric foi eleito como resultado de um processo de canalização institucional da rebelião de Outubro em 2019. Naquele momento, a classe trabalhadora e o povo chileno foram às ruas contra o regime pactuado de Pinochet, contra o sistema privado de previdência e na luta por uma nova constituinte, questionando de conjunto o modelo neoliberal para a educação e a saúde. Com seus próprios métodos, o movimento operário chileno emergiu com disposição de luta, se expressando fenômenos muito interessantes de auto-organização, como na cidade de Antofagasta. Apesar do cenário completamente diferente (no Chile as contestações eram muito mais políticas e massificadas do que são neste momento no Brasil), aí se expressa uma semelhança com a nossa realidade: ao invés de apostar nas lutas em curso, o Partido Comunista do Chile e a Frente Ampla de Gabriel Boric aceitaram canalizar institucionalmente o que no Chile se expressava na forma de uma rebelião. A Frente Ampla costurou diretamente o acordo da paz com Piñera, um acordo que manteve presos políticos e pleiteou uma assembleia constituinte sem ter soberania e autonomia frente às instituições criadas pelo regime de Pinochet. Já o Partido Comunista do Chile, que dirige a maior central sindical chilena, a CUT, aceitou canalizar institucionalmente a energia mostrada nas ruas, cancelando a greve geral e aceitando a traição que foi o acordo de paz. Este acordo assinado pela Frente Ampla levou a uma constituinte pactuada que não pôde levar até o fim às demandas da rebelião.

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A aposta na conciliação explica como, em menos de dois anos, uma rebelião que contestava todo o regime chileno se transformou em cenário eleitoral marcado por um segundo-turno com um candidato de extrema-direita no páreo. Naquele cenário, a posição do PTR, partido irmão do MRT no Chile, foi de um chamado para enfrentar Kast de forma independente com a força e a mobilização da classe trabalhadora e dos setores oprimidos, sem chamar voto e depositar nenhuma confiança em Boric e na Frente Ampla, que representavam a cara do setor que quis canalizar a rebelião institucionalmente. Em poucos meses de Governo, a posição do PTR se prova correta: Boric vem levando a cabo políticas profundamente anti-operárias e anti-populares: os presos políticos da revolta continuam na cadeia, estudantes secundaristas que protestavam pela melhora da educação pública foram reprimidos pela polícia com balas de borracha (qualquer semelhança com Alckmin não é mera coincidência, mas este caso causa ainda mais desgosto se pensarmos que a ascensão de Boric como figura pública se deu pela sua atuação no movimento estudantil), foi retirado de pauta o fim da previdência privada, uma das maiores demandas de Outubro de 2019, e foi mantida a militarização em regiões com população Mapuche feitas pelo decreto de Piñera. A taxa de 30% de desaprovação é a prova de que ao semear ilusões e trair as expectativas dos trabalhadores através da política de conciliação de classes, se abre espaço para o crescimento e fortalecimento da extrema-direita, que só pode ser enfrentada por uma política independente da classe trabalhadora.

Pedro Castillo e a crise social

Boa parte da esquerda no Brasil comemorou entusiasticamente a posse de Pedro Castillo, reivindicando-o como socialista. O duelo com a reacionária Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, fez com que diversos setores embarcassem na campanha por Castillo ao invés de defender uma saída independente da classe trabalhadora. O desastre já estava anunciado, mas havia setores que se recusavam a ver: para “barrar” a extrema-direita, a visão estratégica do Perú Libre de Pedro Castillo era de construir um governo de unidade com as forças da direita e com os capitalistas estrangeiros que “respeitassem a soberania nacional”. Na realidade, a política de Castillo não vêm significando um enfrentamento à extrema-direita, e sim a continuação da política neoliberal de ataques para a classe trabalhadora e para o meio-ambiente (além dos ataques aos setores oprimidos, que já ficaram claros nas declarações homofóbicas de Castillo em meio ao período eleitoral, que mais faziam lembrar a extrema-direita brasileira), respondendo a protestos com forte repressão, chegando a declarar estado de emergência. O nível de crise no Governo de Castillo é alto, fazendo com que uma série de ministérios tenham sido trocados em nome de manter a popularidade e a governabilidade.

Em relação ao meio-ambiente, o Governo de Castillo nada fez para combater os derramamentos de óleo feitos pela empresa Repsol, sendo benevolente com uma tragédia ambiental que matou animais e afetou moradores locais e áreas utilizadas por pescadores artesanais, um desastre ecológico com consequências econômicas. Mais recentemente, Castillo decretou estado de emergência em zonas de mineração para que a polícia e o exército reprimissem populações originárias que se enfrentavam com a extração irracional de minérios. As políticas econômicas que afetavam os camponeses e a classe média, levando milhares de manifestantes às ruas, poderiam ser previstos em quem se atentasse às escolhas de Castillo: seu ministério ia de um economista keynesianos com proposições pró-patronais à um ministro da relações exteriores pró-imperialista. Correntes da esquerda brasileira que apoiaram o Castillo desde PSTU, passando por MES, até o PCB não fizeram nenhuma espécie de balanço, mesmo com o encontro amistoso entre Castillo e Bolsonaro. Durante as eleições, a CST, partido irmão do MRT no Peru, colocava claramente que o combate a Keiko Fujimori não podia ser levado a frente pelo nacionalismo de Castillo, defendendo que trabalhadores, camponeses, mulheres e todos os setores oprimidos lutassem para dar uma saída independente. Todo esse processo se insere num contexto de deslegitimação dos poderes estatais peruanos perante à população e em disputas institucionais entre alas do regime pró ou contra Castillo, mas sem nenhum interesse em uma política para a classe trabalhadora, o que só potencializa a força do chamado feito pela CST.

É preciso uma política de independência de classe para enfrentar a extrema-direita

Em meio ao crescimento da extrema-direita a nível internacional, o cenário no Brasil apresenta uma série de desafios. Mas, os exemplos internacionais também apontam a incapacidade do reformismo em responder aos ataques aplicados nos últimos anos, ainda mais com o nível de organização que atingiu a extrema-direita no Brasil. Exemplos como o fortalecimento de Marine Le Pen na França e o refortalecimento do Trumpismo nos Estados Unidos demonstram que as derrotas eleitorais estão longe de serem suficientes para enfraquecer e conter o crescimento da extrema-direita. O único setor que pode dar uma saída de fundo para esta crise é o da classe trabalhadora. Lula já se mostrou comprometido com a “responsabilidade fiscal”, e com a dívida pública que são mecanismos do capitalismo internacional para drenar as riquezas nacionais, só uma saída que batalhe pelo não pagamento da dívida pública para que sejam os capitalistas paguem pela crise, pode representar uma alternativa para os trabalhadores e os setores oprimidos que tiveram suas condições de vida tão pauperizadas nos últimos anos, ainda mais em um contexto de crise do capitalismo internacional.

O PSOL vem atuando em sentido contrário, fortalecendo as ilusões de que um novo Governo Lula resolveria os problemas do país. Neste sentido, rifam não só sua independência política e organizativa ao se diluir politicamente na chapa Lula-Alckmin, como também qualquer resquício de independência de classe ao se federar com a Rede de Marina Silva, um partido burguês financiado pelo Itaú cujas principais figuras são contra o aborto. A política do PSOL de aliança com setores que, historicamente, tiveram ao lado contrário dos trabalhadores é uma grande traição que não colabora no enfrentamento a Bolsonaro e à extrema-direita. É necessário uma política de independência de classe que se apoie em greves e mobilizações dos trabalhadores e dos setores oprimidos, por isso, nós do MRT estamos construindo o Polo Socialista e Revolucionário com companheiros do PSTU, CST e outras correntes que se colocam por batalhar por uma política independente da conciliação do PT, a mesma política que abriu espaços para a extrema-direita. O Polo Socialista e Revolucionário tem o intuito de por um lado ser uma ferramenta que impulsione cada luta dos trabalhadores em curso, e por outro ser a expressão eleitoral de um setor que não vai baixar a cabeça frente à conciliação e à submissão ao PT.

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