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Coluna | Os atos perderam tração ou as direções querem conter a disposição de luta?

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

quarta-feira 28 de julho | Edição do dia

Em declaração para a imprensa, um representante da Frente Povo Sem Medo que organiza as manifestações contra Bolsonaro declarou que os atos estão perdendo tração. Em uma analogia com a geração de força na física, o que ele omite é o papel das direções em conter a disposição de luta que se expressou nas ruas.

Já são quase três meses de manifestações de rua contra o governo Bolsonaro. E Bolsonaro não caiu, mesmo em meio a tanta crise política, econômica e social. Por quê? É uma pergunta que todos que odeiam esse governo devem se fazer todos os dias, especialmente os que têm sido parte ativa em construir essas manifestações que, como os próprios organizadores declararam para a imprensa, vêm “perdendo tração”. O problema é que a diminuição dos atos não é uma fatalidade, e sim resultado da política das próprias direções burocráticas das centrais e entidades que desde o começo decidiram tudo em reuniões de cúpula fechadas sem nenhuma participação da base e com o objetivo de conter a disposição de luta expressa nos atos. Não que esses atos em si mesmos sejam um problema para essas direções, pelo contrário, desde que continuem contidos, servem aos seus objetivos. Mas limitar o movimento assim é impedir seu desenvolvimento e, com o tempo, desgastá-lo.

Na mesma declaração, o representante da Frente Povo Sem Medo levanta como hipótese o fato do Congresso Nacional estar em recesso e, portanto, a CPI da Covid não estar em funcionamento pleno. Essa situação seria responsável por um desgaste das manifestações que estariam sendo oxigenadas pelo próprio trabalho da CPI. Na realidade, a constatação está vinculada ao próprio objetivo que tem as direções, assim como declarou Guilherme Boulos em nota para a Folha de São Paulo: as manifestações têm o objetivo de pressionar a CPI para avançar no impeachment. O PT também vem deixando claro seu objetivo meramente eleitoral com manifestações para desgastar o governo, não para derrubá-lo. Ou seja, as direções querem a todo custo subordinar qualquer tipo de mobilização nas ruas a uma estratégia eleitoral e institucional, nada por fora do controle nem com organização a partir da base.

Para conseguir essa subordinação, justamente colocam como agenda das manifestações a pressão à CPI da Covid, a pressão a Arthur Lira pela abertura do impeachment e o horizonte de que em 2022 haverá uma alternativa - e mesmo os que dizem que “não é possível esperar 2022”, na maior parte das vezes, se inserem na lógica de que em 2022 as coisas irão mudar, porém comecemos a lutar agora. O problema é que toda essa subordinação coloca os trabalhadores e a juventude em um beco sem saída. A CPI da Covid é conformada pelos golpistas de ontem, que protagonizaram o impeachment de Dilma Roussef em 2016 com o objetivo de implementar um plano de ajustes ainda mais forte contra os trabalhadores e o povo pobre. Lembremos que Ciro Nogueira, que agora está na Casa Civil de Bolsonaro, há pouco tempo o chamava de fascista e que estaria com Lula até o fim. Sairá das mãos deles a resolução da crise no país? Definitivamente não. Para todos que querem derrubar Bolsonaro, é preciso ter claro que para um impeachment “vingar” é necessário o acordo da maioria do Congresso Nacional, inclusive do Centrão, partido com o qual Bolsonaro acaba de retomar sua história de amor. E a candidatura de Lula em 2022 já se declarou como administradora da obra do golpe institucional, ou seja, das reformas e ataques que vivemos todos esses anos, já que Lula vem se reunindo não somente com figuras emblemáticas da direita, como Sarney, Kassab e FHC, mas também já disse abertamente que está disposto a perdoar os golpistas.

Diante deste cenário, por que a esquerda segue em silêncio absoluto sobre o rumo das manifestações? Também opinam que os atos “perderam tração”? Essa definição busca jogar a responsabilidade sobre a diminuição dos atos em todos aqueles que se levantaram para participar das manifestações, quando são justamente as direções que buscaram desde o começo dar um caráter eleitoral, controlado, de mera pressão. Por isso sempre foi tão importante para eles dividirem as lutas em vários dias, um dia de luta dos trabalhadores e depois um dia de manifestação contra Bolsonaro. Por isso manter as manifestações de fim de semana, para não afetar os grandes empresários. Por isso chamar a direita para as manifestações em nome de fazê-las “aumentar”. Por isso isolar e deixar que lutas operárias que tinham começado a surgir, ainda que parciais, morressem de inanição, pra não deixar que a classe trabalhadora assuma a direção e a hegemonia das mobilizações. Por isso marcar atos com mais de 20 dias de intervalo para impedir que o descontentamento generalizado com o governo saísse do controle. Por isso não organizar nenhuma assembleia de base pra que não existisse nenhum poder das estruturas operárias e estudantis que pudesse passar por cima das próprias direções.

Se a esquerda, como o PSOL, o PSTU, UP e PCB, quisesse se enfrentar com essa política, precisaria conformar um polo anti-burocrático que começasse a atuar nas entidades sindicais e estudantis que dirigem. Imaginem milhares de sindicatos e centros acadêmicos votando um plano de luta efetivo com o chamado a uma greve geral? O efeito que isso poderia ter na base das centrais sindicais, como CUT e CTB, quando os trabalhadores vissem a proposta de organizar, com os métodos da nossa classe, uma luta que se enfrentasse com o governo Bolsonaro-Mourão pra derrotar todos os ataques em curso? E aqui não se trata de construir um outro aparato de direção como a Assembleia Povo na Rua, que não batalha por essa política nas bases, e sim impulsionar de forma democrática uma alternativa que lute pela Frente Única Operária. Inclusive, alguns setores da esquerda, como os que se organizam na Assembleia Povo na Rua, vieram nas últimas semanas propondo a organização de uma greve geral. Como seria a construção dessa greve geral? Nós do Esquerda Diário e do MRT propomos que se construa imediatamente um Comitê Nacional pela Greve Geral onde toda a esquerda se reúna para debater como levar adiante essa proposta, em assembleias e reuniões de base nas categorias de trabalhadores e nas universidades. Ainda que os atos tenham diminuído, o que pode indicar o começo de um refluxo, as manifestações mostraram que ainda há uma vanguarda nacional estendida e disposta a se mobilizar, energia que não pode ser perdida em função de interesses das cúpulas das direções de massas.

Neste caminho, atuando em unidade para enfrentar os ataques e exigir que as direções parem de controlar a nossa luta, evitando que a nossa força se desenvolva, vamos lutar para que os trabalhadores assumam a política em suas mãos defendendo a imposição, pela luta, de uma nova Assembleia Constituinte Livre e Soberana para enfrentar não somente o governo, mas o conjunto desse regime do golpe institucional.




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