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“Os Estados Unidos voltaram”: Biden promete que o imperialismo voltará à sua forma tradicional

O primeiro discurso de política externa de Biden foi uma renovação após quatro anos da abordagem grosseira de Trump, mas se olharmos de forma detalhada através da retórica vazia de Biden, sua tarefa como presidente não é diferente da de Trump: restaurar o imperialismo dos EUA à sua antiga glória. Um retorno à política externa neoliberal tradicional será o suficiente?

terça-feira 9 de fevereiro| Edição do dia

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Foto: JUSTIN LANE/EPA-EFE/REX (10332473d)

O primeiro discurso de Joe Biden sobre política externa teve como objetivo convencer a população dos EUA e os líderes mundiais de que restaurar a legitimidade do país na arena geopolítica é essencial para tirar o mundo de uma crise social, política e econômica que se intensifica - uma crise que tem raízes muito mais profundas do que a pandemia do coronavírus. No entanto, no contexto do declínio do império dos EUA e em um cenário geopolítico em mudança, fica a dúvida se tais ambições serão possíveis.

O discurso, proferido no Departamento de Estado em 4 de fevereiro, resumiu-se a dois elementos principais: uma rejeição ao isolacionismo do discurso do "América Primeiro" de Trump e o outro ponto é uma renovação no compromisso de reconstruir a hegemonia imperialista dos EUA. Isso se daria com um retorno ao intervencionismo neoliberal e o reforço do apoio de seus aliados históricos.

Líderes de todo o mundo assistiram o discurso de Biden, que dedicou grande parte de sua fala para retratar a força do capitalismo dos EUA, apesar de um ano de intensa turbulência que marcou uma nova fase no posicionamento nacional e internacional do país, que se encontra enfraquecido. Internamente isso consistiu em uma resposta deplorável à pandemia que deixou mais de 451.000 mortos, desemprego disparado e dificuldades econômicas para os trabalhadores. No verão assistimos a uma insurreição heróica do Black Lives Matter contra o terror policial e o racismo estrutural e, mais recentemente, uma contestação à legitimidade das eleições na forma de um ataque de extrema direita ao Capitólio . Na arena internacional, 2020 viu o assassinato do líder militar iraniano Qasem Soleimani que levou os Estados Unidos e o Irã à beira de um conflito aberto, a retirada de Trump das organizações internacionais e uma intensificação da guerra comercial com a China . Em seus 20 minutos no palco, Biden tentou varrer tudo isso para debaixo do tapete e fazer parecer que foi tudo apenas parte da aberração que foi o governo Trump, ao invés de dizer o que isso realmente foi: um desenvolvimento da profunda crise política, econômica e social que abala o capitalismo global desde 2008 e desafia a ordem neoliberal à qual Biden tenta retornar.

Biden começou pintando o quadro de um mundo dividido: de um lado, o “Mundo Livre” da democracia, da lei e da ordem liderado pelos Estados Unidos e, do outro, a ameaça crescente de autoritarismo impulsionada pela China e pela Rússia. A maioria das formas de intervenção que Biden expôs em seu discurso, desde a pressão por uma "resolução" para a crise humanitária no Iêmen e o golpe em Mianmar, até a promessa de lutar pelos direitos LGBTQ+ internacionalmente, foram expressas na forma de uma luta contra o autoritarismo e realçando o papel dos Estados Unidos como um árbitro global da democracia. Com essa perspectiva, e repetindo suas proposições de campanha eleitoral, Biden prometeu ser mais duro com os adversários do país do que Trump, e reconstruir a posição dos EUA como a incontestável potência imperial mundial.

Em relação à Rússia, que foi abalada por protestos massivos nas últimas semanas após a prisão do líder da oposição Alexei Navalny, Biden afirmou que “os dias dos Estados Unidos fazendo vista grossa às ações agressivas da Rússia, que interferem em nossas eleições, lançam ataques cibernéticos e envenenam seus cidadãos, esses dias acabaram. ” Ele prosseguiu dizendo que seu governo “não hesitará em aumentar a pressão com a Rússia e nem em defender os interesses vitais de nosso povo”. Ele denunciou a prisão de Navalny e os esforços de Putin para “suprimir a liberdade de expressão e de manifestação pacífica”.

Na mesma linha, Biden também prometeu resistir aos crescentes desafios econômicos e políticos da China à hegemonia dos EUA, enquadrando-o como uma luta zelosa da democracia para evitar as medidas autoritárias do governo chinês. Sem mencionar a forma que esses esforços tomariam, ele disse que seu governo estava comprometido em “[assumir] diretamente os desafios colocados [à] nossa prosperidade, segurança e valores democráticos por nosso concorrente mais sério... Vamos enfrentar os abusos econômicos da China e contra atacar seu curso de ação agressivo para conter o ataque chinês aos direitos humanos, propriedade intelectual e governança global. ”

Embora, é claro, os apelos intermináveis ​​de Biden à democracia dos EUA soem vazios frente ao longo histórico do país de orquestrar intervenções militares e econômicas no exterior , está claro que, em seu papel como presidente durante uma época de crise capitalista, tais apelos têm um novo significado nacional e geopoliticamente. Por um lado, suas observações sobre o compromisso dos Estados Unidos com “valores democráticos” visam consolidar o consenso neoliberal construído em torno do governo Biden dentro do marco da contestação de Trump às eleições e a subsequente tomada do Capitólio. A construção desse consenso agora dá ao governo mais espaço para promulgar políticas de interesse das empresas e dos mercados dos EUA no futuro - políticas que ameaçam as condições de vida de milhões de trabalhadores e pobres em todo o mundo.

Isso tudo foi mais uma afirmação desesperada do Estado americano de que suas instituições políticas tradicionais, embora diminuídas, podem manter o controle em meio a uma crise prolongada. “Embora muitos de [nossos] valores tenham sofrido intensa pressão nos últimos anos, até mesmo levados ao limite nas últimas semanas”, disse Biden, referindo-se aos eventos de 6 de janeiro, “o povo americano vai emergir a partir deste momento mais forte, mais determinado e mais bem equipado para unir o mundo na luta pela defesa da democracia, porque nós mesmos lutamos por ela ”. Prometendo aumentar o número de refugiados admitidos nos Estados Unidos em mais de 100.000 e se comprometendo a colaborar com o fim da crise humanitária no Iêmen - incluindo interromper certas vendas de armas à Arábia Saudita - muitas das medidas de política externa de Biden apresentadas em seus primeiros dias de governo são mais ou menos centradas em provar que os Estados Unidos detêm a legitimidade para impor seus projetos tanto domesticamente quanto para fora.

Partindo da retórica do "América em primeiro lugar" usada por Trump de garantir a prosperidade dos EUA acima de tudo, Biden prometeu colocar o país à frente dos esforços para resolver os maiores problemas do mundo, desde a pandemia e mudança climática até crises humanitárias e proliferação nuclear. Em outras palavras, o discurso de Biden sobre o papel dos EUA como farol da democracia foi um esforço para justificar aos seus aliados - que aproveitaram os anos de Trump para esfriar suas relações com os Estados Unidos - que restaurar a legitimidade dos EUA é um dos melhores interesses para um mundo abalado por inúmeras crises. Mas as rachaduras neste quadro ensolarado já começam a aparecer, como já ficou claro no breve discurso de Biden.

Biden fez um grande esforço para separar, de um lado, a diplomacia, e do outro a política econômica no que diz respeito a seus planos de relações internacionais. Ao mesmo tempo que denunciou as injustiças da Rússia e da China, ele também prometeu trabalhar com eles em uma série de interesses comuns no domínio do comércio e da proliferação nuclear. Mas esta é uma falsa delineação - olhando além da desgastada retórica de Biden que tenta lançar a luz da “democracia” dos EUA no resto do mundo, devemos deixar claro que a política externa dos EUA está sempre a serviço dos interesses imperialistas. Até o próprio Biden disse isso em seu discurso:

“Investir em nossa diplomacia não é algo que fazemos apenas porque é a coisa certa a se fazer pelo mundo ... Fazemos isso porque é do nosso próprio interesse. Quando fortalecemos nossas alianças ampliamos nosso poder… Quando investimos no desenvolvimento econômico de países, criamos novos mercados para nossos produtos e reduzimos a probabilidade de instabilidade.”

Esta foi a declaração mais verdadeira de Biden na quinta-feira. Seu maldito projeto é tentar dar novo fôlego ao neoliberalismo na tentativa de manobrar melhores posições para os Estados Unidos em meio a uma crise global e mudanças no cenário geopolítico. Isso ficou bastante claro em sua escolha de nomeados para posições-chave no campo das relações exteriores, desde o apoiador de guerra pró-Israel Antony Blinken até o comandante da Guerra do Iraque Lloyd Austin. Ele pode voltar a aderir aos Acordos de Paris e trabalhar mais estreitamente com a Europa, OTAN, México, Japão e outros aliados dos EUA para negociar políticas comerciais favoráveis, mas este é apenas o imperialismo dos EUA enfraquecido com uma máscara ligeiramente mais amigável. De Trump a Biden, muitas das tarefas permanecem as mesmas: protelar a ascensão da China, usar os mercados internacionais para mitigar a crise econômica que atinge os Estados Unidos e colocar o país em uma posição mais forte no cenário mundial.

Isso certamente é verdade se dermos uma olhada nas coisas que Biden não mencionou em seu discurso na quinta-feira, incluindo as ofensivas imperialistas recentemente revigoradas dos Estados Unidos na Venezuela, Cuba e Irã, intervenções que não começaram com Trump e que tiveram o apoio do regime bipartidário. Antes mesmo de assumir o cargo, Biden reconheceu oficialmente Guaido como o legítimo líder da Venezuela. Ele ressaltou essa abordagem na quarta-feira, prometendo alvejar o regime de Maduro e remover todos os obstáculos que puder da batalha de Guaido pelo poder. Embora Biden tenha se concentrado principalmente na Ásia e na pandemia em seu primeiro discurso de política externa, talvez sugerindo uma continuação da retirada dos Estados Unidos do Oriente Médio, ele é um defensor ferrenho da ocupação da Palestina por Israel e apoiará a decisão de Trump de manter a embaixada dos EUA para Israel em Jerusalém. E embora Biden tenha assinado a COVAX, a iniciativa internacional de vacinas, está claro que a preocupação de Biden não é uma solução global para a pandemia, mas uma que coloca as empresas farmacêuticas americanas em primeiro lugar. O governo está comprando números astronômicos de doses, muito mais do que o necessário para vacinar a população dos Estados Unidos.

A crise atual pode servir para a retórica de paz, democracia e estabilidade de Biden, mas depois de oito anos de governo Obama, sabemos como é a “democracia” dos Estados Unidos na esfera internacional. Quando chegar a hora, Biden não hesitará em usar todos os mecanismos à disposição do imperialismo norte-americano para garantir seus interesses no exterior, desde sanções e acordos comerciais até bombardeios e ataques com drones. À medida que passamos pelos primeiros dias da administração Biden, devemos permanecer firmes contra a agressão imperialista dos EUA em todas as suas formas. As únicas soluções que os Estados Unidos apresentam para as crises formidáveis ​​que enfrentamos são aquelas que beneficiarão o capitalismo norte-americano em detrimento dos trabalhadores em todo o mundo.

Traduzido de: https://www.leftvoice.org/america-is-back-joe-biden-promises-an-unlikely-return-to-normalcy-in-foreign-relations




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