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Permanência estudantil | “Onde vou morar? A USP me deu 20 dias para sair da minha casa no CRUSP e nenhuma perspectiva”

Nós do Esquerda Diário entrevistamos estudantes moradores do Bloco D do Conjunto Residencial da USP (CRUSP), que nesta semana receberam a notícia de que teriam menos de 20 dias para se retirar, junto com todos os seus pertences, da moradia estudantil. Os estudantes receberam apenas informações vagas e insuficientes sobre a reforma que irá despejá-los.

sexta-feira 30 de julho | Edição do dia

Imagem: Foto Gaf.arq [Wikimedia Commons

Os moradores relatam que receberam um e-mail sem muitos esclarecimentos da Superintendência de Assistência Social (SAS) no começo da semana. Após o clima de perplexidade e indefinição se instaurar no bloco, as assistentes sociais realizaram chamadas individuais com os moradores regulares, mas, mesmo assim, afirmam não possuírem mais informações para repassar aos estudantes. Para eles foram dadas apenas as opções de aceitar um auxílio moradia de 500 reais, completamente insuficiente para se viver em São Paulo principalmente em plena pandemia, ou buscar por conta própria em outros blocos do conjunto residencial, que a própria Reitoria sabe que estão superlotados também.

Não bastasse todas as preocupações que nesse momento de crise acentuada pela pandemia os estudantes tiveram que arcar, como falta de internet para assistir as aulas de Ensino Remoto Emergencial, conviver com notícias de mortes de milhares por dia e isolamento social, esses estudantes agora precisam concentram em ter uma moradia. A necessidade é evidente, levando em conta que muitos dos prejudicados se deslocaram de outras cidades e estados para estudar na universidade que diz ser a mais prestigiada do Brasil, não possuem familiares para dar suporte e agora são enxotados pela própria universidade.

“Não sou de São Paulo, não tenho um familiar sequer aqui. Vim estudar na USP pois sabia que teria o apoio da moradia estudantil e os bandejões, pois sem isso eu não teria condições de sobreviver aqui. Mas a realidade que encontrei é um total descaso com a gente, vivemos com falta de água, lavanderias e cozinhas, com um saneamento precário e prédios que parecem que podem cair em você em qualquer momento. Sem dúvida não é o que alguém imagina que um estudante da USP passa, mas isso é o CRUSP.”

É um disparate que a Reitoria esteja exigindo que os mais precarizados desocupem o Bloco D do CRUSP com tamanho descaso, com uma demagogia de afirmar que é para melhorar a moradia estudantil, mas para isso deixará os cruspianos sem perspectiva. Uma moradora inclusive ressalta que, mesmo os que conseguirem outro local para residir, não terão qualquer amparo para transportar seus móveis e pertences. Além disso, nenhuma das opções repassadas pela SAS inclui os vários estudantes que por necessitarem se sujeitam a morar irregularmente já que a Reitoria não garante moradia estudantil para todos que precisam, que serão despejados no meio do inverno paulista. Todos os residentes do Bloco D, regulares e irregulares, devem ter garantia de moradia digna!

A exigência de uma infraestrutura digna tem sido uma demanda histórica do Movimento Estudantil, para garantir a permanência na universidade dos que hoje vivem em meio a infiltrações, mofo, problemas elétricos, cortes de água durante semanas e sem gás das cozinhas coletivas. Para todos os que vivem no CRUSP é consenso a urgência das reformas, pois a última foi feita na década de 90, mas o que a Reitoria faz é um descaso permanente, como é relatado:

“A situação de precariedade do CRUSP é histórica, por exemplo a falta de fogões e bocas para o funcionamento foi um caso desde 2019, quando eu entrei na USP. O que deveria ser feito era a SAS repor os fogões e as bocas, para reverter a situação de ter somente 3 bocas de fogões funcionando em todo o CRUSP, mas o que foi feito aqui no (bloco) D foi o fechamento permanente da tubulação do gás. A USP resolve a situação precarizando ainda mais”

No mesmo Bloco D inclusive nos foi relatado um vazamento de esgoto neste mês que pegou a parte traseira do prédio e o cheiro insuportável ficou impregnado por todo prédio, até o sexto andar . Após o contato dos moradores ser negligenciado pela Reitoria, o problema teve de ser resolvido pelos próprios estudantes que não aguentavam mais o cheiro invadindo seus apartamentos.

“Procuramos a manutenção, mas eles falam que não tem como resolver e que isso é resolvido pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Então nós que tivemos que ligar para lá e pedir para resolverem a situação, sem contar que alguém ligou desmarcando o serviço”

Esse caso demonstra como a USP não se responsabiliza pela moradia estudantil. Toda sua falácia de que “A USP é para todos”, logan da sua campanha de pesquisa ano passado, é evidente. Na entrada de estudantes mais pobres na universidade que precisam de um permanência estudantil de qualidade, o que encontram é um descaso que para problemas estruturais da moradia estudantil a USP lava suas mãos.

A atual situação do CRUSP vem causando indignação entre os estudantes de toda a USP, inclusive porque não está descolada de todos os ataques à educação a nível nacional, como os cortes das universidades federais pelo governo Bolsonaro, e, também, a nível estadual com o projeto de privatização de Doria e do PSDB em São Paulo. Justamente por não se tratar de uma situação isolada, é urgente que o DCE Livre da USP, que representa todos os estudantes e é dirigido pelo PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude, convoque uma assembleia geral dos estudantes da USP para organizar a revolta e a solidariedade dos estudantes para se somar a essa luta.

Leia mais: Diante do despejo de moradores do Crusp, o DCE da USP precisa chamar uma Assembleia Geral

Os residentes são os mais qualificados para elencar as prioridades de reformas na própria moradia, mas necessitam de apoio de todo o movimento estudantil e a luta pelo CRUSP pode ser a ponta de lança para lutar contra a precarização da universidade. Por isso que é dever do DCE organizar o conjunto dos estudantes da USP, como os CA’s em cada curso. É um absurdo o que acontece, os moradores não tem nenhum conhecimento de qualquer projeto ou planejamento que está sendo imposto pela Reitoria da USP. Os “cruspianos” merecem transparência e poder de decisão nas medidas que dizem respeito a eles!

Desde já está sendo articulada entre o Bloco D a exigência de que a restauração seja iniciada pelos Blocos K e L, como foi prometido há anos pela Reitoria. Esses prédios atualmente servem como depósito, e sua devolução não só garantiria moradia para os que estão sendo despejados, mas também para outros jovens precarizados que sofrem para permanecer na universidade.

Por isso, nós do Esquerda Diário e do coletivo Faísca achamos que essa exigência não pode se limitar aos moradores do CRUSP, mas também a todas as entidades estudantis, mobilizando os estudantes para se unirem em defesa da permanência na USP, contra todos os ataques e a negligência da Reitoria!

Veja mais: Sintusp e entidades apoiam os estudantes do CRUSP contra despejo anunciado pela Reitoria




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