Gênero e sexualidade

10 ANOS DA LUTA DAS TERCEIRIZADAS DA USP

“Onde vejo uma terceirizada sofrendo, vou lá e ajudo”

Este ano se completam 10 anos da luta das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da empresa de limpeza Dima, na USP. De lá pra cá foram várias greves de terceirizados dentro da universidade. Entrevistamos Silvana Ramos, que foi uma das linhas-de-frente destas greves pra contar um pouco da sua experiência (que está retratada no livro “A precarização tem rosto de mulher”) e qual recado deixa aos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que vivem hoje sob o jugo da terceirização.

terça-feira 7 de julho de 2015| Edição do dia

Esquerda Diário: Neste ano de 2015 se completam dez anos da luta da Dima, você pode nos contar um pouco como foi essa luta e também como foi a luta da União depois?

Silvana: Sim, foi uma luta e uma experiência muito boa pra nós trabalhadores, principalmente mulheres. Começou uma luta ali na Dima que foi por conta da gente não receber salário, não ter os nossos direitos, então foi preciso a gente lutar. E aí a gente teve que enfrentar patrão, teve que enfrentar encarregado, teve que enfrentar a Reitoria dentro da USP e a gente lutou pra que a gente conquistasse um direito que era nosso, que era só o salário e nossos direitos, por isso que nós lutamos. Era muito precário onde a gente trabalhava, e a gente sofria muito e por conta disso. Por tudo isso é que a gente fez esta greve.

ED: E como foi depois a luta da União?

Silvana: Então, quando a gente terminou a luta da Dima, a gente foi mandada embora aí o que aconteceu foi que os trabalhadores da Dima podiam ir trabalhar na União, e eu fui uma que foi trabalhar na União. Nesse trabalho a gente era muito perseguido porque a gente tinha um histórico que tinha lutado pelos nossos direitos na Dima e então a União começou a fazer a gente de ping-pong, jogando a gente de um lado para o outro pra gente não ter contato com ninguém. Eles falavam que pagavam tudo direitinho, que faziam isso e aquilo outro pelos trabalhadores, mas não era na verdade. Quando eles começaram a não pagar os trabalhadores surgiu outra greve muito forte da União até pagarem a gente. A gente fez greve, seguiu na luta pelos nossos direitos.

ED: E quais foram as principais lições dessas lutas?

Silvana: As principais lições pra mim foi a gente saber que nós podemos sim lutar, que não é porque a gente é mulher que a gente tem de ficar de cabeça baixa! A gente pode sim lutar pelos nossos direitos, a gente pode enfrentar quem a gente quiser. A gente ficava muito assim calado né, por que a burguesia e os patrões humilham a gente todos os dias, e com a luta a gente não se cala mais. A gente tem que lutar e lutar e lutar, então eu acho que a lição de vida que a gente tirou foi essa, que lutando que se vence.

ED: E na sua vida, o que mudou a partir dessas greves?

Silvana: Na minha vida mudou muita coisa, principalmente dentro de casa, a gente tem um patrão fora e tem um patrão dentro de casa com nossos maridos. E nós mulheres não temos que aceitar isso. E a mudança começou já dentro da minha casa, eu comecei a falar que não fazia mais nada só, que meu marido tinha me ajudar, e a gente trabalhava junto e trabalhava em casa também e ai eu vi que eu podia falar pra ele o que era trabalhar em dupla jornada, trabalhar fora e em casa. Falava que ele tinha que dividir as coisas de casa comigo que tinha que me ajudar dentro da minha casa. Então assim, eu acho que a mudança foi muito grande. Nossa, pra mim a mudança foi total porque eu consegui me organizar, trabalhar e ele me ajudar, então pra mim foi uma lição de vida.

ED: E nesses dez anos né, passaram dez anos, você continuou lutando pelos seus direitos e dos terceirizados? O que você fez nesses dez anos?

Silvana: Sim, continuei lutando pelos nossos direitos, porque dez anos não são dez dias de uma luta dessas, e a gente não pode deixar pra trás aquilo que a gente começou, a gente tem que dar continuidade na luta. Onde vejo uma terceirizada sofrendo, eu vou lá e ajudo também, a gente dá um conselho e lutamos juntos. Precisamos lutar pra poder se organizar porque quando eu luto pelos terceirizados eu não luto sozinha, eu tive que me organizar com outras pessoas, com um grupo de trabalhadores, com o Pão e Rosas e o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) para podermos lutar pelo direito de todos.

ED: E qual recado então que você daria pra uma terceirizada ou um terceirizado que quer começar a lutar pelos seus direitos?

Silvana: Eu sei trabalhadores que não é fácil. Não é fácil lutar porque a gente tem casa, tem marido, tem filho, a gente ganha pouco, a gente tem um monte de coisa pra fazer, a gente põe um monte de obstáculo pra gente não lutar porque é difícil mesmo, eu sei porque eu passo por isso também. Mas no momento em que eu percebi que eu podia me organizar no Pão e Rosas ou em outro lugar assim, onde eu comecei a conviver com as pessoas e lutar pelos nossos direitos, foi tudo mais fácil. Por isso eu acho que os trabalhadores tem que se organizar. A gente trabalha, principalmente nós mulheres, é mais difícil. Para os homens é mais fácil de se organizar. É só sair de casa e ir à luta. Mas pra gente não, pra gente é mais difícil porque o marido bota obstáculo ou não deixa. Mas o que eu falo pras minhas companheiras que tão aí, é que nós precisamos sim lutar, sair, falar e gritar! Mostrar que a gente também pode sim lutar pelos nossos direitos.




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